Wednesday, April 22, 2009

Kyle caminhou a passos pesados em direção da sala da tapeçaria de centauros. Aquela saleta acabara por se converter em ponto de encontro dos poucos que sabiam das verdadeiras intenções que Meridiana escondia sob a fachada de pró-comensal. Naquele dia, a própria ruiva havia marcado um encontro através de Lucien.

O grego estava exausto, acabara de sair da detenção que pegara por ter socado as fuças de Theodore Nott, contudo, não se sentia particularmente punido. A professoura Sprout o submetera a uma tarefa enfadonha e maçante. Ele passou toda aquela tarde de sábado catalogando uma a uma das folhas, raízes, sementes e plantas da estufa. Tarefa que possivelmente só se veria completamente livre em meados de outubro. Ou seja, mais de um mês de detenção.

Contudo, pelo pânico de Adhara quando toda a confusão se desenrolou, ele acreditou que seria submetido a algo terrivelmente pior.

Com um bocejo, ele entrou na sala secreta, dando de cara com a prima mais velha. Meri estava parada junto à parede, braços cruzados, olhar sério, quase assustador.

-O que foi? – ele perguntou, os olhos arregalados de surpresa e preocupação.

-Eu é quem pergunto – a ruiva retrucou, com um olhar repreensivo. – Onde você estava com a cabeça ao quebrar o nariz do Nott?

-O que você queria que eu fizesse? – Kyle respondeu, se defendendo. Da perspectiva dele, não fizera nada de errado, apenas estava protegendo Adhara de um canalha. Simplesmente não conseguia entender o alvoroço que suas primas estavam fazendo sobre o fato. – E as coisas não acabaram tão ruins. A detenção ‘tá um saco, mas não é nada tão horripilante quanto Dhara pintou que poderia ser.

Meridiana meneou a cabeça, incrédula diante da inocência que Kyle transparecia naquele momento.

-Você deu sorte porque a Profa Sprout é abertamente contra a posição da nova diretoria. Contudo, de agora em diante, o cerco vai estar mais apertado. A sua briga com o Nott, e outros incidentes envolvendo alunos tão ingênuos quanto você fizeram com que os Carrows pedissem a Snape que reavaliasse os métodos punitivos. Parece que, finalmente, Filch vai poder tirar suas correntes da aposentadoria.

Kyle sacudiu os ombros, como se pouco importasse com o que Meridiana acabara de lhe contar. Ele não podia simplesmente ter ficado de braços cruzados, não era da natureza dele agüentar as coisas calado.

-Pois eu teria feito exatamente do mesmo jeito, mesmo sabendo das conseqüências. Você e Dhara são minha família agora e eu não poderia simplesmente ignorar qualquer um que faça algum mal a vocês duas!

Meridiana cerrou os olhos por alguns segundos. Ela conseguia compreender plenamente os sentimentos de Kyle, exatamente porque se sentia do mesmo modo, contudo, sabia, por experiência própria, que o ataque abertamente declarado não iria funcionar. Pelo menos não no contexto em que viviam. Mas, como explicar àquilo para um garoto de quinze anos, esquentado, cabeça-dura, que cresceu em um ambiente completamente oposto ao que viviam na Grã-Bretanha.

A ruiva chegou a abrir a boca para tentar explicar tudo isso para o primo, contudo, Kyle voltou novamente a falar, em um tom um pouco menos exasperado, mas igualmente sério.

-Não sei se foi o fato de eu ter crescido só com minha mãe, ou por toda admiração que sempre tive por minha madrinha Lachesis, ou mesmo por ter me apaixonado por Leda ainda criança, mas, para mim, é inconcebível que um homem force uma mulher a fazer o que ela não deseja. Entende por que eu não poderia simplesmente ignorar o que Nott fez com Dhara?

Meridiana assentiu, compreendendo muito mais do que Kyle disse em palavras. Eles nunca conversaram abertamente sobre Ludovic, mas, a ruiva poderia imaginar o quão terrível deveria ser para aquele garoto, tão nobre e de bom coração, saber que ele foi gerado por um ato de violência, que ele só existia por terem feito à sua mãe algo que cada partícula dele abominava.

-Quer conversar? – ela perguntou, em um tom de voz mais suave.

-Sobre o que? – o lufano piscou os olhos, sem compreender o significado da questão que Meri lhe lançara.

-Sobre seu pai. – ela respondeu no mesmo tom que empregara anteriormente.

Kyle deu um sorriso amargo, virando o rosto. Desde que fora à biblioteca e pegara os anuários com as fotos dos pais, ele não conseguia parar de pensar naquele assunto. Em toda a história do passado deles que levou ao seu nascimento.

Durante as férias, depois do retorno de Meri, ele acabou desviando sua atenção para conhecer um pouco mais sobre a família recém-descoberta. Quando fizera as pazes com a mãe, os dois conversaram muito mais sobre os avós maternos e a infância de Lucy do que sobre qualquer coisa relacionada ao período em que ela esteve sob o jugo de Ludovic.

-É tão obvio assim o quanto isso está me incomodando? – ele perguntou, ainda sem fitar a prima.

-Na realidade não – a grifinória se aproximou, pousando a mão no ombro de Kyle – para alguém tão cabeça quente, você está escondendo bem.

O rapaz levantou o rosto, os olhos ligeiramente lacrimantes.

-Eu não sei o que sentir. Mesmo sem conhecê-lo, eu já odeio Ludovic. Por tudo o que ele fez minha mãe sofrer, por tudo o que ele fez você sofrer, contudo, eu devo a minha existência a ele.

Meridiana não soube o que dizer a princípio para o primo caçula. Ela retirou a mão do ombro dele, enlaçando a mão do rapaz, fazendo com que ele sentasse no chão, diante dela. Aquela seria uma conversa longa, difícil e dolorida, tanto para ele, quanto para ela.

-Eu poderia dizer que existe alguma bondade em seu pai – ela começou, segurando as mãos do primo, mas incapaz de fitá-lo nos olhos – mas estaria mentindo. Poderia dizer que o amor que ele diz sentir por sua mãe e por mim seria algo possível de levá-lo a alguma redenção capaz de amenizar todos os crimes que ele cometeu, mas, isso seria muito mais cruel do que ser sincera com você.

A moça deu um suspiro profundo antes de prosseguir.

-Ludovic é um monstro além de qualquer salvação. Ele torturou e matou mais pessoas do que podemos imaginar, de formas que estão em um patamar muito mais alto que qualquer tipo de crueldade que nós dois possamos conceber.

Kyle apenas continuava escutando, em silêncio, tentando absorver cada palavra que a prima dizia sobre Ludovic. Fosse qual fosse a verdade, ele precisava saber.

-Ele esteve envolvido na morte de nosso tio, Aldebaran, a quem ele odiava... ele matou a minha mãe, por amor, segundo ele, para purificá-la... – a voz de Meri falhou nesse ponto, e ela se calou, engolindo seco antes de prosseguir. Ainda não era capaz de dizer em voz alta que seu pai também estava morto.

A ruiva suspirou novamente, antes de continuar.

-Ele chegou a seqüestrar Adhara para se vingar do Sr Ivory, que o havia prendido anos atrás. Dhara voltou muito ferida, e demorou um bom tempo para que ela se recuperasse física e emocionalmente.

O rapaz assentiu. A Sra Ivory, que na época ainda assinava como Black-Thorne, já havia lhe mencionado alguns daqueles fatos, contudo, escutar da boca de Meridiana, com tanto suplício, trazia outra dimensão àqueles acontecimentos.

-A primeira vez que eu estive cara a cara com Ludovic, - ela prosseguiu – meus amigos foram ao meu resgate. Hoje percebo quão sortudos fomos por meu tio ter sido invocado pelo Lorde das Trevas na ocasião, caso contrário, ele teria facilmente matado todos ali e teria me levado com ele. Eu passei dois meses com ele... Dois meses que eu nunca vou ser capaz de esquecer. Sendo doutrinada... o que consistia em tortura física e psicológica...ele chegou até mesmo a me bater uma ou duas vezes, a pior de todas quando eu tentei fugir.

A ruiva parou, incapaz de continuar, sentido as lágrimas querendo forçar passagem através de seus olhos. Era a primeira vez que ela, por vontade própria, falava ainda que minimamente, sobre seu cativeiro. Kyle percebeu que a prima comprimira suas mãos com um pouco mais de força. Dois meses e Meridiana já possuía traumas que a marcaram profundamente. Ele preferia não tentar imaginar tudo o que sua mãe sofrera durante quase dois longos anos ao lado daquele homem.

-Meri... – ele a chamou baixinho – Você não precisa continuar...

A moça balançou a cabeça em negativa, finalmente levantando o rosto, e deixando que seus orbes verdes se encontrassem com os olhos também esmeraldinos do primo.

-Eu preciso sim, nós dois precisamos. – ela falou com firmeza. Kyle notou que os olhos dela estavam úmidos, mas as lágrimas não haviam alcançado o rosto da prima – Você precisa entender que não há motivo algum para você se sentir culpado por odiar seu próprio pai, você precisa entender quem ele realmente é para não vacilar ou perder o controle quando estiver diante dele. E mais do que qualquer coisa, você precisa entender que, apesar de tudo, sua mãe te ama muito, ou não teria vindo da Grécia atrás de você. Eu acho que você deu uma razão para ela tentar ser um pouco feliz depois de tudo o que passou. Você é a única coisa boa que Ludovic fez na vida, Kyle! Você não deve nada a ele, absolutamente nada!

Ele assentiu, com veemência. Sentia-se exaurido por tudo o que ouvira, e, imaginava que a prima deveria se sentir muito pior pelo esforço descomunal que precisara fazer para lhe falar tudo aquilo. Entretanto, finalmente ele compreendia. Ele não devia nada ao pai, e, ele não iria pautar a sua vida pelo modo como fora concebido, mas pelo amor que recebera de sua mãe e de todos os outros, apesar de suas origens.

-Obrigado – ele murmurou, soltando suas mãos das de Meridiana, para envolver a moça em um abraço.

A ruiva correspondeu ao gesto, sentindo, através daquilo, que ele sentia não apenas grato e aliviado por aquela conversa, mas que também estaria ao lado dela sempre que ela precisasse.

-Não precisa agradecer... – ela respondeu – Basta que você sempre se lembre que eu, nós, estamos felizes por você existir.

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