Thursday, April 16, 2009

Retaliação - Parte 1


Kyle caminhou a passos decididos para o Salão Principal. Ele sabia que, sendo horário de almoço, provavelmente o lugar estaria apinhado de alunos, mas, para ele, pouco importava. O lufano pensara consigo mil e uma maneiras de abordar Theodore Nott, contudo, chegou à conclusão que era melhor encarar abertamente o sonserino. Definitivamente Kyle não era homem de se esconder no meio das sombras e armar emboscadas.

Assim que cruzou a porta de folhas duplas do refeitório, seguiu imediatamente para a mesa da Sonserina, ciente de que, possivelmente, quase todos os alunos estariam observando seus atos. Desde a posse dos Comensais na escola, segundo ele ouvira dos amigos, era ainda pouco menos comum os alunos das outras casas se dirigirem abertamente ao reduto das serpentes.

Em sua trajetória, Kyle parou apenas por breves segundos para trocar olhares com Adhara Ivory, que o fitava com uma expressão interrogativa.

Ele caminhou mais alguns passos, parando defronte a Theodore Nott.

- Nott. Eu preciso conversar com você. – Kyle disse, o cenho fechado e os braços cruzados.

O sonserino, até então, conversava com alguns colegas, e todos se voltaram para o recém-chegado. O garoto, entretanto, não parecia nada abalado por seu subitamente o centro das atenções de uma horda de cobras.

Theodore o avaliou dos pés à cabeça, seus olhos se demorando por um segundo a mais no brasão da Lufa-Lufa, antes de encarar os olhos verdes e determinados de Kyle.

O sonserino tinha a distinta impressão de que já vira aquele garoto em algum lugar, que ele já chamara sua atenção em alguma ocasião em especial, mas, no momento, não conseguia associar o rosto de Kyle a nenhuma memória específica.

- E quem, exatamente, é você? – perguntou, não com desdém, apenas uma curiosidade pretensamente educada.

- Meu nome é Kyle O’Neil. Você não me conhece, mas eu conheço muito bem você. Nós temos assuntos de comum interesse a resolver.

Theodore não respondeu de imediato, ao invés disso tomou alguns instantes para si, ponderando a situação.

De imediato não se lembrava de nenhuma família puro-sangue com o sobrenome O’Neil, mas para o rapazinho à sua frente estar em Hogwarts naquele ano, significava que ele deveria ter origens dignas. Tornara-se bem mais fácil saber com quem lidar desde que a escola havia refinado seu corpo discente.

E Nott tinha uma ligeira desconfiança – e geralmente suas desconfianças se provavam corretas – de qual era o interesse em comum que aquele garoto poderia ter consigo. Quem sabe, se tudo corresse bem, ele poderia conseguir um novo aliado.

- Está bem. – ele por fim concedeu – Você tem minha atenção.

- Se não se importa, seria melhor conversarmos do lado de fora, já que é um assunto particular. – Kyle insistiu.

Nott apenas anuiu, levantando-se da mesa da Sonserina, seguindo lado a lado com o outro garoto para fora do Salão Principal.

De seu lugar na mesa, Adhara observara discretamente a interação entre Kyle e Theodore. Não conseguira ouvir o que disseram, pois estava longe e os dois falaram em um tom moderado, mas, pelo fato dos rapazes terem deixado o Salão Principal juntos, imaginou que terminariam aquela conversa em outro lugar.

Sabia que, qualquer que fosse a intenção de Kyle ao procurar Nott, aquilo deveria estar relacionado com o que contara ao primo nos jardins, alguns dias atrás, sobre Theodore ter tentado beijá-la. Afinal não havia outra coisa que pudesse despertar o interesse do lufano em Nott. Kyle já deixara claro que, ao menos por enquanto, não desejava que seu parentesco com Ludovic Black-Thorne fosse conhecido pelo restante da escola.

Se ela sequer suspeitasse que as coisas pudessem terminar daquele modo, com Kyle indo atrás de Nott, ela jamais teria mencionado o ocorrido com o sonserino para o primo caçula. Kyle era um bom garoto, mas era um tanto impulsivo, e a morena sabia por experiência própria o quanto Theodore era bom em provocar alguém. Temia que o lufano se metesse em encrenca por causa daquilo.

Assim, ela esperou até que a atenção do Salão tivesse se dispersado um pouco antes de levantar-se da mesa da Sonserina e ir ao encalço dos dois.

* * * * *


- Então, em que posso lhe ser útil? – Theodore perguntou, dando um sorriso cortês e convidativo, se sentindo alguém verdadeiramente importante dentro da atual elite da escola.

Kyle sentiu o estômago embrulhar ao perceber a expressão do outro rapaz, compreendendo imediatamente a aversão que Adhara sentia pelo sujeito. Theodore parecia ser pegajosamente aversivo.

- Sei que muitos dessa escola acham que a Lufa-Lufa é sinônimo de paspalhões sem uma fibra de valentia neles. – o lufano começou – Mas, pelo que eu entendi, a característica principal da minha casa é a lealdade.

Nott arqueou uma das sobrancelhas enquanto ouvia o discurso do garoto. Realmente, a Lufa-Lufa era um recanto dos otários, mas acreditava que, assim como na Sonserina poderiam haver exceções à nobreza da Casa, o mesmo poderia ocorrer em qualquer outra Casa de Hogwarts. Esse menino O’Neil já estava demonstrando uma boa parcela de coragem por vir conversar com ele, e isso era algo que apreciava em seus aliados. Além do mais, a lealdade era uma das características mais apreciadas pelo Lord em seus servos.

Foi a lealdade inabalável à causa que manteve o pai de Theodore vivo após o fiasco ocorrido no Departamento de Mistérios, dois anos antes.

- E eu sou leal àqueles que eu gosto e não tolero que eles sejam molestados, ou feridos. Então, eu vou ser bem direto com você, Nott. Não gostei do modo como você tratou a Dhara da última vez que se falaram.

Theodore sentiu-se confuso após aquilo. Primeiro, o garoto estava exaltando as qualidades dos lufanos, e agora estava falando sobre Adhara?

E foi então que ele se lembrou de onde conhecia o rosto de Kyle O’Neil. Havia visto o garoto em King’s Cross, no dia do embarque para Hogwarts, acompanhado exatamente de, ninguém mais, ninguém menos, que Adhara Ivory e a família da moça.

Aquele lufano deveria ser, no mínimo, o novo namoradinho de sua prima.

Para a surpresa de Kyle, o sonserino começou a rir.

- Dhara? Então é disso que se trata? – Theodore meneou a cabeça, ainda rindo com escárnio, antes de se aproximar de Kyle e colocar uma mão no ombro do lufano – Ouça, garoto, porque eu fui com a sua cara, vou lhe dar um conselho sobre Adhara Ivory. Ela pode até ser bonita e ter toda aquela aura de mistério a rodeando, sim, eu concordo, mas, como alguém que a conhece há sete anos e é primo dela, acredite em mim quando lhe digo: ela não vale à pena.

Neste ponto o lufano sentiu o sangue ferver. Quem Nott achava que era para falar da prima dele daquele jeito como se ela fosse uma qualquer, ainda mais depois do que ele tentou fazer? Sem refletir sobre o que fazia, Kyle levantou o punho e deixou que este caísse como uma pesada marreta sobre o rosto de Theodore.

No instante seguinte, o sonserino estava no chão, mas a raiva do lufano ainda não havia se amainado. Se Theodore se achava “homem” o suficiente para abordar Adhara do modo como fizera, ele deveria ser homem suficiente para arcar com as conseqüências.

O’Neil se abaixou com a intenção de levantar Nott pelo colarinho e continuarem a briga, não era covarde para bater em alguém caído, contudo, não chegou a terminar a ação. Subitamente, Kyle sentiu seu braço ser seguro com força por trás. Quando virou o rosto, ele encontrou os olhos azuis daquela que era justamente a razão por ter ido ao encontro de Nott.

Os orbes de Adhara faiscavam enquanto encaravam os seus e o aperto dela em seu braço era surpreendentemente forte para alguém de aparência tão frágil.

- O que você está fazendo? – ela sibilou e os olhos dela correram para a figura de Theodore, caído na grama dos jardins de frente ao castelo e com o nariz sangrando – Vamos sair daqui.

Ela puxou Kyle pelo braço, fazendo-o andar ao seu lado. Quando já tinham dado quase meia dúzia de passos em direção aos degraus de mármore do castelo, ouviram a voz de Nott atrás deles:

- Então é isso, Dhara? Você gosta de diversidade? – sua voz estava um pouco engrolada por causa de todo o sangue que escorria do nariz provavelmente quebrado – Primeiro um corvinal, depois um grifinório e agora um lufano? – e ele cuspiu uma mistura de saliva e sangue no gramado antes de continuar, forçando um sorriso sedutor para a prima – Me avise então quando resolver experimentar um sonserino.

Adhara sentiu Kyle se mexer ao seu lado, tencionando avançar novamente sobre Theodore, e intensificou seu aperto no braço do garoto.

- Kyle, não! Vamos embora.

O lufano a encarou, e não foram os dedos dela, enterrados com força em seu braço, que o fizeram assentir – ela era forte, mas ele poderia se livrar da morena se quisesse –, mas sim o que viu nos olhos da prima. Além da aparente irritação, havia apreensão no fundo das íris azuis.

Kyle apertou os punhos com força, tentando se conter. Nott realmente merecia uma sova bem dada para quebrar aquela crista dele, contudo, para ele, aquietar as visíveis apreensões da prima lhe pareceram bem mais importantes.

AMANHÃ TEM POSTAGEM

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