Primos
Kyle estava sentado, sozinho, as costas apoiadas na borda da fonte de Belerofonte. Meridiana havia comentando com ele sobre aquele lugar quando estavam a caminho da escola. Era uma espécie de refúgio dela e dos amigos, uma vez que a construção era cercada de arbustos e pouco visitada pelos demais alunos.
Foi ali que a ruivinha conhecera Raven Sinclair, e, também foi ali que ela e o namorado patinaram em um dia de inverno. O rapaz sorriu ao lembrar-se das histórias da prima. Hogwarts deveria ser um bom lugar para se viver antes dos Comensais assumirem o poder.
Agora, contudo, a situação era outra. As regras eram mais rígidas, os alunos pareciam viver em constante estado de alerta e medo sobre seu próprio bem estar, uma vez que, ao menor deslize, aqueles que contradiziam abertamente a ordem vigente sofreriam inúmeras represálias.
Para Kyle, aquela mudança de rotina parecia, por vezes, asfixiante. Os muros do castelo lhe lembravam uma prisão. Ele sempre crescera ao ar livre, passando os dias nas praias de sua terra natal, escalando as escarpas, se metendo em aventuras típicas de uma criança curiosa demais para seu próprio bem.
Mesmo os estudos não eram como em Hogwarts. Romulus Lycan era um professor exigente em termos de matérias trouxas, mas nada comparado aos professores de Hogwarts. E, o aprendizado de magia que Lucy e Lachesis, a falecida madrinha de Kyle, ministravam era algo bem mais fluído e lúdico, quase intuitivo.
Estava sendo difícil adaptar-se a toda aquela mudança. Sentia falta da Grécia... De sua mãe... De seus amigos, Órion, Ariadne, e, principalmente, Leda.
Também sentia falta de Meridiana. Com os planos da prima em fingir-se adepta aos atuais preceitos que regiam a escola, era comprometedor para ambos conversarem com a mesma freqüência, intimidade e naturalidade que adquiriram durante a estadia dele na casa de Frida.
Ao menos, ele podia contar com os demais amigos da ruiva, que acabaram se tornando também seus próprios amigos.
E, havia também, sua outra prima. Adhara, que se tornara uma excelente amiga, a quem ele também passara a enxergar como parte importante de sua família.
Lembrando-se da morena, ele olhou no relógio de pulso, franzindo o cenho. Dhara estava atrasada, e, ela era alguém bastante séria em relação a horários. Talvez houvesse acontecido alguma coisa. Mas sua preocupação se desvaneceu quando avistou a morena surgir por entre os arbustos, afastando os galhos e folhas com as mãos. Com o uniforme de detalhes verdes ela quase desaparecia em meio às folhagens.
Aquela divisão dos alunos entre Casas era outra coisa que Kyle não entendia muito bem. Parecia besteira dividi-los com base em suas personalidades e aptidões... Aquele tipo de coisa só servia para criar um abismo entre todos eles. Além do mais, se uma pessoa conviver apenas com outras que são iguais a si, nunca descobrirá toda a diversidade que existe no mundo.
Mas as conjecturas do garoto foram esquecidas quando o rosto de Adhara entrou em sua linha de visão. Havia alguma coisa errada ali.
Depois de dois meses de convivência na mesma casa, ele já havia se acostumado com o jeito da prima. A morena era um pouco séria e rigorosa, embora sempre tenha lhe tratado com afeição, e também parecia ser uma pessoa muito tranqüila, do tipo que não se zanga com facilidade e não responde a provocações. Entretanto, ali estava ela, com a expressão mais fechada que Kyle já vira naquele rosto e os olhos azuis faiscando de ira.
Ela caminhava em sua direção com passos pesados, os lábios apertados, e, quando chegou ao seu lado, sentou-se no chão e jogou a bolsa de lado com bem menos cerimônia e cuidado do que lhe era de costume.
- Desculpe o atraso, fiquei presa em Transfiguração. – disse Adhara, sem olhar para ele, já abrindo a bolsa e procurando os livros que veriam naquele dia.
- Dhara, espera. – Kyle segurou os braços da prima, pois, com a ferocidade com que ela remexia naqueles livros, certamente acabaria por arrancar a capa de algum – Calma. Me conta o que aconteceu.
Adhara suspirou e encarou o primo. Os olhos verdes de Kyle brilhavam com seriedade e preocupação. Ela poderia até se esquecer que o garoto era dois anos mais novo do que ela quando ele a olhava daquela forma. Ele parecia quase uma versão masculina de Meridiana...
Mesmo em meio à sua raiva por Theodore, ela não pôde evitar um singelo sorriso ao pensar daquela forma. Kyle era sua família tanto quanto Meri, ela poderia confiar nele, como aprendera a confiar na ruiva.
- Nott estava me esperando na porta da sala de Transfiguração, foi por causa dele que me atrasei.
Kyle franziu a testa, se lembrava da morena lhe indicando Theodore Nott no Salão Principal, um sonserino que também era primo deles. Tinha que admitir que, apesar de nunca ter trocado uma palavra com Nott, não simpatizara com o sujeito desde a primeira vista e sua impressão apenas piorara quando Adhara lhe contara o que aquele rapaz era.
- Não me diga que ele estava tentando te convencer a se juntar ao clubinho dele, de novo?
Adhara meneou a cabeça, os olhos fechados. Kyle sentiu os pulsos dela tremerem sob suas mãos e ele soube que, o que quer que Nott tenha feito, deveria ser algo muito sério. Algo que, para a prima, fosse pior do que tentar convencê-la a se tornar uma Jovem Comensal. Nada menos do que isso deixaria Adhara tão descontrolada.
- Ele tentou me beijar. – ela disse, entredentes, quase como se tivesse vergonha demais em admitir aquilo.
Kyle fechou o cenho, estreitando os olhos. Talvez fosse o fato de ter sido criado pela mãe e pela madrinha, ou talvez fosse o modo como as coisas se encaminharam entre ele e Leda desde a infância, mas, a verdade é que, para o rapaz, obrigar uma mulher, na realidade, obrigar qualquer pessoa a fazer aquilo que não desejava era um abuso intolerável.
- O que você fez? – ele perguntou, sério. Pelo que conhecia de Adhara, sabia que ela tinha toda a capacidade de se defender sozinha.
- Infelizmente, bem menos do que eu gostaria. Mas, dadas as nossas atuais circunstâncias, acho que eu não poderia torturá-lo e matá-lo mutilado. – ela confessou, parecendo contrariada.
Kyle cruzou os braços, assentindo. Ele também sabia que, mais do que qualquer outra pessoa do seu novo círculo de amizades, era a prima sonserina quem estava em situação mais complexa. Qualquer posicionamento, qualquer deslize poderia repercutir de modo negativo, até mesmo trágico, sobre o pai e a madrasta da garota. Para alguém tão altiva quanto Adhara, fingir submissão deveria beirar à tortura.
- Bem... Você não pode ficar remoendo a raiva desse jeito. – ele falou, sabendo que, do jeito como a sonserina estava furiosa, estudar estava fora de questão naquele exato momento – O que quer fazer para extravasar a raiva? Digo, outra coisa que não seja matar o Nott.
Ela fechou os olhos e respirou fundo. Kyle estava certo, ela não poderia ficar remoendo aquilo. Tinha que aceitar o que aconteceu não poderia ser mudado e estava fora de seu alcance retaliar contra Theodore – ao menos no momento.
- Tudo bem, Kyle, eu já estou mais calma. – ela respondeu, abrindo os olhos e falando em um tom mais controlado – Conversar com você já ajudou. Obrigada. – a morena acrescentou, com uma expressão mais amena.
- Fico feliz em ter ajudado. – ele respondeu, com uma expressão terna – Então, como o Nott melou nossa tarde de estudos, que tal uma pausa? A gente podia ir na cozinha filar alguma coisa. A Raven já me apresentou aos elfos do lugar.
Adhara sorriu levemente, pelo jeito não precisava se preocupar com o entrosamento do primo se ele já conhecia até os elfos domésticos do castelo.
- Acho a cozinha uma boa idéia. – e, de fato, se tinha uma coisa que aprendera nas suas excursões ao mundo trouxa durante as férias foi que comida sempre era uma boa forma de distração.
Assim os dois se levantaram, reunindo os livros e espanando as folhas que ficaram presas aos uniformes. Discutiram amenidades durante todo o caminho de volta para o castelo, mas parte da atenção de Kyle não estava presa à conversa com a morena.
O lufano deixou que seus lábios se curvassem em um discreto sorriso torto ao perceber que, se Adhara não podia agir contra Nott, o mesmo não se aplicava a ele próprio. Contudo, preferiu guardar a idéia que acabara de ter para si, pelo menos por enquanto. Contaria para a prima os louros da vitória se ele fosse bem sucedido.
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