Monday, April 13, 2009

Fechando o Cerco


Theodore Nott tivera muito o que pensar nos últimos dias. A conversa que tivera com Adhara, algumas noites atrás, abrira seus olhos para possibilidades ainda não contempladas. Algumas desagradáveis, outras nem tanto, mas, no geral, sabia que teria de reavaliar certos pontos que concerniam a prima.

Desde que conhecera Adhara, sete anos antes, sua mente começara a traçar cenários envolvendo a garota. Ela era uma sonserina, assim como ele, ela tinha o mesmo sangue que o seu e um sobrenome que incutiria reverência nos melhores círculos bruxos. Ele era curioso o suficiente acerca de suas origens para saber exatamente quem eram os Ivory e o prestígio e influência de que o clã gozava na Europa continental.

Para Theodore parecera que havia descoberto um novo mundo inteiro para explorar, conquistar e governar. Dadas as devidas proporções, ele até se identificava com os primeiros bruxos que partiram para as Américas. E Theodore sempre sonhara com a grandeza, parecia uma ambição natural para alguém nascido entre nobres.

Mesmo quando criança Adhara já era altiva, elegante, inabalável. Um olhar frio e cheio de veneno de seus olhos azuis meia-noite era o suficiente para calar e impor respeito até entre os sonserinos mais velhos. Mesmo dentro da alta estirpe na qual ele crescera a prima era uma raridade. Assim ele pensara que, se a tivesse ao seu lado, poderia alçar uma posição que provavelmente não conseguiria galgar se estivesse sozinho.

Entretanto, extraordinária como era, Adhara se provara difícil de dobrar. Ela era independente, não confiava em ninguém, e o orgulho a impedia de ver que eles poderiam conquistar muito mais juntos do que se estivessem por conta própria. Porém a jovem Ivory ainda era humana, e ainda estava sujeita a cometer erros.

Theodore não poderia fingir que não lhe doera ver sua prima, dia após dia, ano após ano, ser maculada e envenenada por pessoas de sangue inferior e visão deturpada. Primeiro Cyan, aquele corvinal cínico e aproveitador, e então a garota Deveraux – a qual, graças ao Bom Slytherin, havia sumido –, Johnson, a outra prima grifinória, filha da traidora do sangue, e por último houvera Barton, o mais perigoso de todos eles, o que chegara mais perto de arrastar Adhara para o fundo de um abismo do qual não teria volta. E o pior era que a moça se recusava a deixar que ele, Theodore, se aproximasse para resgatá-la.

Felizmente aquele período negro não perdurara. Pelo que descobrira posteriormente, Adhara havia tido um encontro com Ludovic Black-Thorne durante as férias de páscoa e, fosse lá o que o Comensal dissera ou fizera, sua prima retornara para a escola redimida. Parecia que o Sr. Black-Thorne tinha um certo dom para doutrinar e purificar aqueles que se perdiam do rebanho.

Mas, pelo jeito, aquilo ainda não fora o suficiente... Havia algo em Adhara que parecia ter se perdido para sempre: a sua ambição, o seu desejo de controlar, a sedução que a promessa de poder exercia sobre todo sonserino. Ela não era mais a mesma. Ela havia amolecido.

Theodore suspirou. Ele havia sido derrotado pelo Destino até certo ponto. Adhara não poderia mais ser a sua guerreira. Mas, mesmo dócil e desinteressada como era agora, ela ainda poderia se provar útil, se fosse usada da forma adequada. Ela não poderia mais lutar por ele, mas ainda poderia abrir algumas portas se ficasse ao seu lado, como um bom bibelô.

E, é claro, ela ainda era bonita.

Suas conjecturas se encerraram quando ele ouviu o som de cadeiras sendo arrastadas e um burburinho de conversas antes da porta da sala de aula à sua frente ser aberta. Ele se endireitou em sua posição: as costas apoiadas contra a parede do corredor e os braços cruzados sobre o peito. Os alunos do sétimo ano da Sonserina e da Corvinal deixavam a sala de Transfiguração, a última aula do período da manhã. Ele não avançara naquela matéria após os N.O.M.s, mas Adhara sim, e era por ela que Nott esperava.

Acenou para a morena quando a viu, fazendo sinal para que ela viesse até ele. Adhara obedeceu, encarando-o com uma expressão de educada curiosidade quando parou à sua frente.

Havia uma mecha negra escapando da trança em que a moça prendera o cabelo e ele estendeu o dedo para mexer no cacho, antes de colocá-lo atrás da orelha dela. Ela tremeu ligeiramente sob o seu toque, mas não fez menção de afastá-lo. Ele sorriu.

- Eu gostaria de falar com você. Tem um minuto?

- Claro. – concedeu a morena, sem maiores questionamentos.

Theodore desencostou-se da parede e apoiou uma das mãos nas costas da prima, na altura da cintura, guiando-a para longe dos demais alunos. Seguiram em silêncio pelo corredor, encontrando cada vez menos pessoas pelo caminho, até que chegaram a uma área completamente deserta. Foi então que pararam.

Adhara não estava gostando nada daquilo. Uma coisa era aceitar conversar com Theodore no salão comunal repleto de pessoas, outra muito diferente era estar sozinha com ele. E tudo pareceu piorar quando a mão magra dele percorreu toda a extensão de sua coluna sobre a capa do uniforme, indo até seu ombro antes do rapaz circundá-la e parar de frente para ela. Os olhos escuros dele brilhavam com a mesma excitação de um predador que prepara o seu bote.

E Adhara odiava pensar que, para Theodore, ela era a presa.

- Eu estive pensando em nós dois, Dhara. – ele começou, e seus dedos faziam um leve carinho no ombro dela – E naquilo que você me disse na última vez em que conversamos.

Ela apertou os lábios, forçando-se a ficar em silêncio. Sabia que se abrisse a boca naquele momento não conseguiria controlar seu asco e acabaria por colocar tudo a perder.

- É claro que eu entendo o seu lado, minha querida. E você está coberta de razão: você já fez bem mais que o suficiente. Já honrou seu sangue e o brasão que carrega no peito. – a sua mão subiu até a gola da camisa de Adhara e continuou até o pescoço da garota, maravilhando-se com a textura daquela pele pálida e a pulsação sob as pontas de seus dedos – O próprio Lord em pessoa certamente se sentiria satisfeito com os seus esforços, e se orgulharia por saber que tem uma serva assim tão devotada... E tão linda.

Quando os olhos negros de Theodore se cravaram nos seus, Adhara teve apenas um instante para compreender o que ele pretendia antes que fosse tarde demais.

Nott já se curvava sobre ela, buscando seus lábios, e se ela tivesse demorado um segundo a mais não teria tido tempo de virar seu rosto e evitar que ele a beijasse.

Adhara respirou fundo e espalmou as mãos no peito dele, empurrando-o para longe de si ao mesmo tempo em que dava um passo para trás.

- Theodore, pare com isso. – ela pediu, sem olhar para ele. No fundo temia que se visse o rosto de Nott não resistiria à tentação de arrancar a cabeça dele naquele exato instante – Você é meu primo e eu não te enxergo como nada além disso... Por favor, não tente forçar algo que não existe.

Apenas a jovem sabia o esforço quase sobre humano que havia sido forçar aquela renúncia gentil e quase recatada quando tudo o que queria era ver o sangue de Theodore tingindo o chão.

Ele franziu o cenho, avaliando a reação dela. Aquela não era a Adhara que ele conhecia e admirava... A sua Adhara o corresponderia com paixão ou então o rejeitaria com um ódio frio e implacável. Sua prima estava mais perdida do que ele pensava... E por isso ele não tentou detê-la quando ela lhe deu as costas.

- Eu tenho que ir. Tenho coisas a fazer.

Aquilo era verdade, ela tinha combinado de se encontrar com Kyle depois de sua aula de Transfiguração, o garoto já deveria estar esperando por ela. Mas, acima de tudo, não conseguia mais tolerar sequer um segundo na presença de Theodore.

Sem esperar por uma resposta, Adhara seguiu a passos ligeiros para longe do sonserino. Porém a distância que impunha entre eles não ajudava em nada a amenizar a sua ira e o seu nojo.

No comments: