Sunday, April 26, 2009

Favor - Parte 1


Meridiana estava sozinha à mesa da Grifinória naquela manhã, sentada na ponta mais isolada de seus colegas. A ruiva comia silenciosamente o seu mingau e tentava ser discreta ao deixar seu olhar vagar pelo Salão Principal, fingindo que não estava observando ninguém em especial, quando na verdade seus olhos ora se pregavam na mesa da Sonserina, ora na Lufa-Lufa. Raven estava sentada junto de Satanio, como costumavam fazer, mas evitando trocar muitas palavras, pois sabiam que haviam muitos ouvidos atentos a cada sílaba que diziam. Adhara estava em outro banco, alguns metros mais à frente de Rav e Sat, sozinha e em silêncio, como a própria Meri. Lucien estava com Luke e Kyle e o clima entre os três era mais descontraído – seu primo estava rindo de algo que Hunter dissera. Lucien levantou seus olhos bicolores no mesmo instante em que Meri olhava para ele, como se sentisse a atenção da ruiva.

Os olhos do casal se cruzaram por um momento e Meri sentiu o coração apertar. Ela desviou o olhar rapidamente para o seu prato. Se a pessoa errada a visse encarando Lucien, aquilo poderia pôr muito a perder. A ruivinha suspirou e mexeu com a colher em seu mingau, subitamente sem apetite. Não conseguia se lembrar de uma época na escola em que estivesse tão solitária. Desde o primeiro dia em Hogwarts ela sempre tivera Herman como companhia na mesa da Grifinória. Com o passar do tempo seu círculo se expandiu para abrigar Selune, Bianca, Mina, Lorelai... Agora Herman e Mina não estavam mais na escola, Bianca havia ido embora já fazia mais de um ano, Selune e Lorelai não podiam mais ser vistas com ela e todos os seus outros colegas de Casa a evitavam depois que ela começou a exigir ser chamada de Black-Thorne e demonstrar uma aberta simpatia à nova política de ensino da escola.

Agora ela era uma pária dentro da Casa dos Leões. Uma estranha. Uma traidora. E aquele era apenas o começo, ela sabia disso...

A linha de pensamentos pessimistas de Meri foi quebrada quando ela ouviu o pio de uma coruja bem acima de sua cabeça. A ave era pequena e coberta de penas inteiramente negras. A ruiva achou aquilo estranho, ela nunca havia visto uma coruja daquela cor. A ave circundou o ar mais algumas vezes antes de pousar na mesa bem diante de Meri e estender a pata para a moça.

A ruiva viu suas iniciais – M. A. Black-Thorne – escritas no envelope em uma caligrafia fina que ela não conhecia e apanhou a carta com uma curiosidade crescente em seu peito. Depois que desamarrou a correspondência da pata da coruja, esta sacudiu as penas negras e alçou vôo para fora do Salão enquanto Meri abria o selo do envelope e tirava uma página de pergaminho de qualidade mais fina – e cara – do que aquele que os alunos utilizavam em seu dia-a-dia. A carta lia o seguinte:

“Prezada Meridiana,

Espero que perdoe a minha indelicadeza ao interromper seu desjejum, mas creio que é chegada a hora de termos outro de nossos diálogos estimulantes. Se tiver a bondade de me seguir neste momento, há algo que gostaria muito de discutir com você.

Minhas cordiais saudações,
T. Nott.”


Meri mal terminou de ler as últimas palavras e levantou seu olhar para a mesa da Sonserina, procurando entre os rostos dos alunos os traços aristocráticos de Theodore Nott. Ela o encontrou rapidamente, Theodore já estava olhando para ela. O sonserino a cumprimentou com um aceno de cabeça e levantou-se de seu lugar à mesa. Meri entendeu que aquela era a sua deixa e dobrou a carta, voltando a guardá-la dentro do envelope que, por sua vez, foi parar dentro de um bolso na capa da moça, antes que ela seguisse o primo para fora do Salão Principal.

Ela viu as costas de Theodore se afastando na direção que levava para as masmorras e a ala da Sonserina. Meri sentiu uma pontada de apreensão ao notar para onde o rapaz a guiava. Ela – assim como todos os alunos que não pertenciam à Sonserina – não conhecia nada daquela área do castelo, exceto pelo caminho até a sala de Poções. As masmorras construídas sob o lago não eram exatamente o lugar favorito dos estudantes. Mas, bem, aquilo era exatamente o que ela queria quando foi procurar Nott na ala hospitalar, não era? Ela queria que ele a levasse até o círculo Comensal da escola e que lugar mais apropriado para Comensais do que o território sonserino?

Assim ela seguiu Nott com a cabeça erguida até que ele entrou em uma sala pequena, cavada na parede de pedra escura como se fosse a entrada de uma caverna. A sala, ou talvez túnel fosse mais preciso para descrevê-la, era iluminada por archotes e Meri podia ver a entrada, mas não o final. Theodore a esperava lá dentro, com os braços cruzados e um rosto inexpressivo.

Ele não se parecia muito com o rapazinho irritantemente irônico e aversivamente malicioso que ela conheceu na ala hospitalar. Ele estava sério. Sério demais. O sexto sentido de Meridiana lhe dizia que o que quer que Nott tivesse a lhe falar, coisa boa não seria. Se a ruiva estivesse ouvindo sua intuição, teria dado meia-volta e saído de lá antes que ele pudesse lhe dizer qualquer coisa. Mas seguir sua intuição não a levaria para frente agora, apenas para trás. E ela precisava avançar.

- Bom dia, Meridiana. – Theo a cumprimentou com polidez, mas sem muita simpatia.

- Bom dia. – a ruiva respondeu à saudação em um tom cautelosamente neutro.

- Fico satisfeito por você ter resolvido vir. – Mas ao contrário da voz dele, o rosto de Nott não demonstrava muita satisfação ou mesmo qualquer outra emoção. – Eu gostaria de conversar com você sobre uma sugestão que Ivory me fez no início do mês.

Meri notou que Theodore havia usado o sobrenome de Adhara e se perguntou se deveria mencionar aquele detalhe à prima, provavelmente Theodore ainda estava zangado com Dhara em virtude de toda a confusão que houve com Kyle, o que talvez, considerando a viscosidade aversiva que Nott emanava, era, no fim das contas, algo bom para Adhara.

- E qual sugestão seria essa? – ela perguntou, no mesmo tom de antes, tentando não demonstrar ansiedade.

- Ivory me disse que você tem interesse em se juntar a um grupo seleto de alunos do qual eu faço parte e ajudo a organizar desde o ano passado. Ela está correta?

A grifinória assentiu, mantendo firme seu olhar ao de Nott para que o primo soubesse que ela falava a sério.

- Bem, você deve entender, Meridiana, que mesmo que você seja minha prima eu não posso simplesmente lhe dar um passe livre para o grupo. Especialmente considerando a Casa em que você está e suas condutas no passado. – O tom dele era de flagrante censura – Mas eu posso fazer a sua entrada acontecer. Desde que você se prove digna e confiável.

- Eu entendo perfeitamente, Theodore. Meu comportamento nunca foi dos mais adequados para o seu círculo de amizade – ela respondeu, séria, fingindo um leve pesar sobre seu verdadeiro caráter – Percebo que deseja alguma prova de minha parte.

- Eu apreciaria se você fizesse alguma coisa por mim, já que somos uma família e devemos nos apoiar mutuamente. – Theo deu a ela um meio sorriso que fez o estômago de Meri se embrulhar – Veja bem, eu não estou de acordo que aquela detenção patética que Sprout deu ao selvagem do O’Neil seja o bastante para incutir arrependimento naquele moleque. O’Neil está em mais falta do que ele pode imaginar com seu cérebrozinho limitado. Eu quero vê-lo pagar do mesmo jeito que eu paguei, eu quero ver o sangue daquele moleque. – O rapaz praticamente cuspiu essas palavras – Você me faz esse favor, e eu lhe farei o meu.

Meridiana trincou os dentes enquanto fazia um esforço descomunal para manter um ar blasé e indiferente. Ela intuiu, desde que soubera da animosidade entre Kyle e Theodore, que má coisa acabaria vindo da impulsividade do primo mais novo.

- Acha mesmo que vale a pena perder seu tempo com alguém tão insignificante e digno de atenção? – ela revirou afetadamente os olhos fingindo estar enfadonha, enquanto tentava buscar alguma solução que livrasse Kyle – Ele é apenas um moleque ignorante, dar tanta atenção ao ele seria o mesmo de rebaixar ao nível do O’Neil.

Theodore meneou a cabeça.

- Não. – o rapaz foi taxativo – Ele precisa ser feito de exemplo. Já é hora dessa gentinha perceber quem dá as cartas agora que não há mais o bom vovozinho Dumbledore para passar a mão na cabeça deles. Eu pensei em você porque achei que seria uma boa oportunidade de provar para mim e para todo o castelo de que lado a sua lealdade reside agora. Mas se você não quer fazê-lo, então tudo bem. Eu encontrarei outro que o faça.

Por breves segundos, Meri sentiu-se insegura sobre o que fazer. Ela não queria machucar Kyle. Contudo, se ela se negasse a atender ao pedido de Nott, poderia esquecer qualquer outra chance de se infiltrar no círculo comensal. Pior, se outra pessoa fosse incumbida de executar a vingançazinha patética de Theodore, Kyle poderia se ferir muito gravemente. Isso, Meri, não poderia permitir.

- Não será preciso. – ela respondeu lançando um sorriso sedutor para o sonserino – Eu farei o que meu caro primo pedir para provar minha sinceridade.

O rapaz assentiu. Porém, apesar de Meri ter concordado com o seu pedido, ele ainda não parecia completamente satisfeito, o que fez a ruiva perceber que Nott deveria estar mesmo possesso de raiva a respeito de Kyle.

- Muito bem. Avise-me quando você resolver dar cabo disso. Apenas não demore muito. – e com esse aviso final ele descruzou seus braços e começou a andar, passando direto pro Meri para alcançar a saída do túnel.

Assim que Nott desapareceu por completo, a ruiva soltou um suspiro, em parte de alívio por se ver longe daquele verme em figura de gente, em parte de preocupação. Theodore não ficaria realmente satisfeito até que conseguisse, literalmente, derramar o sangue do lufano.

Meridiana mordeu os lábios com força. Seu tempo era curto e havia muito em jogo. Ela teria que encontrar uma solução que contentasse o desejo quase homicida de Nott e que ao mesmo tempo pudesse poupar Kyle. Seria difícil, mas ela acabaria descobrindo um jeito de agradar sonserinos e lufanos.

No comments: