Dust in the wind - Final
Como de hábito nessas situações, minhas pernas me levaram automaticamente para o sossego e o frescor das margens do lago da escola, cercado pelo misterioso verdor da Floresta Proibida. A impressão que eu tinha era de que, por mais que a infestação comensal se espraiasse pela escola, aquele local permaneceria sempre limpo e preservado de qualquer corrupção.
Encontrei um canto discreto e sentei-me na relva, pousando a testa sobre meus joelhos flexionados. Imaginei uma cavalgada selvagem de centauros furiosos invadindo Hogwarts e carregando consigo os Intragáveis Cenouras, desaparecendo com eles da forma que melhor encontrassem.
Também me passou pela cabeça ir ao gabinete do Diretor e reclamar, idéia patética que me trouxe amargas risadas. Falar do roto para o esfarrapado? Pois se Severus também era...
Para quê isso? Essa disputa desenfreada, cruel e inescrupulosa pelo poder? Homens dominando e subjugando homens, que ao fim e ao cabo são feitos todos do mesmo barro! Que ridículo, um amontoado de pó se achando melhor do que outro, sendo que, mais tarde, o vento dissipará a todos!
A frustração escapou de meu peito sob a forma de uma canção antiga, mas naquele momento muito pertinente...
I close my eyes, only for a moment, and the moment's gone
All my dreams, pass before my eyes, a curiosity
Dust in the wind, all they are is dust in the wind
Same old song, just a drop of water in an endless sea
All we do, crumbles to the ground, though we refuse to see
Dust in the wind, all we are is dust in the wind
Don't hang on, nothing lasts forever but the earth and sky
It slips away, and all your money won't another minute buy
Dust in the wind, all we are is dust in the wind
Dust in the wind, everything is dust in the wind...
Com um suspiro, apanhei uma pedra e a lancei no lago, distraindo-me com as ondulações que marcaram sua superfície tranqüila. Ouvi sons de passos e, com uma careta, virei-me para encarar o chato que vinha atrapalhar minha reflexão; corei ao ver quem era.
- Bem, acho que enquanto há música, há esperança, não? - disse-me Luke, parando de pé a meu lado, olhando o lago com as mãos enfiadas nos bolsos.
- Ah, oi, Ruivo... Desculpe a cara feia, pensei que poderia ser um dos Carrow ou algum coleguinha de Casa vindo saber se eu estava melhor.
- Sem problema, estou acostumado a ser maltratado por sonserinas - ele comentou, sorrindo abertamente.
- Besta - resmunguei, tentando segurar o riso - Só você e o Sat para me fazerem rir nestes tempos tão sem graça nenhuma... Quer sentar-se? Só não tenho nada de comer para oferecer.
- Melhor assim - disse Luke, sentando-se ao meu lado com as pernas cruzadas - Daqui a pouco tenho aula com aquela mulher horrível, acho que vai me fazer menos mal se eu estiver com o estômago vazio - ele completou, com uma careta.
- Nem me fale! Acabo de me retirar justamente daquela porcaria que ela tem a audácia de chamar de aula; fingi que estava passando mal e que precisava ver Madame Pomfrey - expliquei, atirando outra pedra no lago, porém com mais força - Ruivo, não agüento mais as asneiras que os Carrow dizem e fazem. Preciso criar vergonha e fazer alguma coisa além de reclamar e resmungar!
- Mas nós vamos começar a agir, Raven - disse Luke, observando discretamente os arredores e baixando a voz - Não foi o que ficou mais ou menos combinado naquela reunião? Só falta decidirmos o que faremos, como e quando.
Atirei outra pedra no lago, agora com raiva. Em seguida, encarei o ruivo e exclamei, num esforço enorme para manter a voz baixa:
- Luke, estou cansada desses dois. Não suporto nem pensar neles. Sei que não são os únicos, mas são os responsáveis diretos por esse clima insuportável que estraga Hogwarts. Gostaria de poder vê-los pelas costas, ou não vê-los nunca mais! Você sabia que já pensei até em preparar...
- Pode parar por aí, Raven Sinclair! - exclamou Luke, subitamente irritado - Até tolero que você admire aquele sujeitinho seboso, mas por nada nesse mundo vou concordar que pense e aja como ele! Se bem que, conhecendo você, acredito que possa cozinhar qualquer porcaria perigosa e até letal, mas duvido que seria capaz de dar para alguém beber ou comer. Duvido!
- Não duvide de mim, Lucas Hunter. Você não sabe do que sou capaz - desafiei, apontando-lhe um dedo que desejava ser bastante ameaçador.
- Eu sei que você é capaz de milhares de coisas nesse mundo, Raven, mas não desse tipo de atitude. Tenho certeza disso - ele retrucou, segurando minha mão para abaixar meu dedo.
- E desde quando você me conhece tanto assim? - teimei - As pessoas mudam. Veja só o que aconteceu com a Meri - blefei, num teste para o disfarce de minha querida amiga.
Luke suspirou e balançou a cabeça.
- Meridiana só pode estar sob algum feitiço daquele comensal. Sabe lá o que ele fez enquanto a manteve presa? Agora você, Raven, não tem de onde tirar a maldade necessária para mudar de lado - ele asseverou, olhando-me nos olhos - Você pode até querer, mas seu coração nunca irá permitir. E nem eu.
- Mas que conversa é essa, Luke? Desde quando você foi promovido a Especialista no Comportamento de Raven Sinclair??? - exclamei, emputecida - E mais: que história é essa de você permitir ou não que eu faça o que me der na telha???
- Caso a senhorita não se lembre - ele retrucou, com um ar de seriedade absolutamente desconcertante - Há alguns anos atrás Sir McAllister, seu padrinho, me incumbiu de cuidar de você na ausência dele. E, como sou um sujeito de palavra, vou levar a cabo a tarefa que ele me deu.
Encarei o ruivo, incrédula.
- Veja bem, Samwise querido, ouça aqui o que Ravenzinha vai lhe dizer agora, sim? - ironizei, sorrindo com todos os dentes e dando tapinhas no ombro do ruivo - Eu não preciso nem de uma babá, nem de um escudeiro, ok? Sou uma bruxa moderna e descolada, sei me cuidar muito bem sozinha, viu?
- Bruxa moderna e descolada que lê Jane Austen e Emily Brontë? Faz-me rir! - ele exclamou, erguendo as mãos.
Pensei em retrucar à altura, mas o comentário de Luke só me trouxe de volta à memória a visão da pilha incandescente de livros fazendo-se cinzas no meio do pátio de Hogwarts, apertando meu coração.
- Eu lia Jane Austen, ruivo... Agora, aqui dentro da escola, dela e de tantos outros grandes autores não restaram nem cinzas... - foi o que consegui dizer, meneando a cabeça com desolação.
Calado, com o cenho franzido, Luke tateou a grama em busca de uma pedra; quando a encontrou, fechou-a na mão com força e depois a atirou no lago, com uma praga.
-As coisas vão melhorar, Raven, eu te prometo que vão. - o lufano falou, com veemência- Do que depender de mim, elas vão melhorar.
- Eu quero acreditar, de verdade... Obrigada, Ruivo - murmurei, pousando a cabeça no ombro de meu amigo.
Ele levantou o braço, pousando-o em meus ombros e aconchegando-me em um abraço mais próximo e aconchegante. Era reconfortante perceber que estar ao lado de Luke era como estar de volta aos tempos em que tudo era bom e divertido. Com aquele gesto eu finalmente percebi que ele definitivamente me perdoara pelo modo como eu o tratara nas férias.
-Acredite, eu vou fazer o possível para ver você voltar a sorrir - Luke falou, tão baixo que eu quase não o escutei.
-Isso não é tão difícil - eu respondi, dando o sorriso que ele pedia, ainda que melancólico - E, obrigada, por estar sempre ao meu lado, mesmo quando eu não mereço e vivo dando as minhas ratas.
Ele soltou um riso baixo e curto.
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