Caminhando um pouco a esmo pela escola, Kyle O’Neil deixou-se levar para os terrenos externos do castelo. Setembro ainda evocava um resquício de verão, fazendo com que o rapazinho, acostumado ao calor mediterrâneo e aos espaços livres de sua vila natal na Grécia, buscasse um pouco de conforto para além dos muros cinzentos de pedra.
Seus olhos acompanhavam displicentemente o cenário verdejante, entremeado de gramas verdes e árvores, até que eles acabaram por pousar em uma moça de cabelos azeviche e olhos castanhos e pensativos, que segurava entre as mãos uma enorme barra de chocolate.
Ele a reconheceu de imediato. Era a amiga de sua prima, a mesma que estivera na reunião do Olho do Grifo poucos dias atrás. Aquela de quem ele já escutara várias histórias vindas de Lucas Hunter. Kyle gostou da moça desde o dia que a conheceu na casa de Lucien, apenas não tivera a oportunidade de estreitar os laços com a morena. Pelo menos não até agora.
-Boa tarde, Sinclair. – ele se aproximou, comprimentando-a com um sorriso.
- Boa tarde, O’Neil! Passeando? – ela exclamou, retribuindo, surpresa, o sorriso do rapaz. Raven simpatizara com o primo de Meri desde quando se conheceram, mas ainda surpreendia a moça que Kyle, tão gentil e tão lufano, pudesse ser filho de quem era.
-Matando o tempo – ele respondeu – Apesar da quantidade de deveres que nos dão por conta daqueles tais de NOMs, eu estou com um tempinho livre e sem muito saco para ficar dentro do castelo.
- Eu também venho me sentindo assim, infelizmente – disse Raven, balançando a cabeça – É uma pena que você tenha vindo para Hogwarts justamente nestes tempos, O’Neil. Precisava ver como isso aqui era bom e divertido e extraordinário. As férias chegavam e nós íamos para casa com pena de deixar o castelo, e doidos para retornar. Agora, sob este Ataque das Cenouras Assassinas, toda a vontade que se tem é de ir embora! Que droga!
Kyle fez uma careta ao lembra-se dos professores Carrow. Se não fosse toda a seriedade da situação que viviam, a atitude dos dois beiraria o patético e o ridículo. Ele suspirou, percebendo que não era apenas ele quem se sentia acorrentado naquele lugar.
-Meri e Dhara sempre falam muito bem daqui quando o Dumbledore era o diretor – o rapaz respondeu, sem pensar muito, até perceber a pequena gafe que cometera, afinal, para todos os efeitos, não mantinha mais contato com a prima ruiva. – Quer dizer, - ele tentou se emendar - A Dhara fala, Meri costumava falar... antes.
- E ainda fala, meu caro, ainda fala – emendou Raven, piscando o olho para um Kyle bastante confuso – Eu sei o que se passa, pode ficar sossegado. Mas, não fique aí de pé; sente-se um pouco aqui e aceite um pedaço desse chocolate divino. Acho que, pelo menos por enquanto, tomar sol e comer ainda são atividades dignas da Juventude Bruxa.
O lufano sorriu, compreendendo que, de algum modo, Raven descobrira a farsa de Meridiana; possivelmente, a própria prima havia encontrado um modo contar a verdade para a melhor amiga.
Kyle assentiu ao convite, sentando-se ao lado da sonserina e aceitando um pedaço da barra de chocolate que ela lhe oferecia.
-Acho que não há nada de reacionário em comer e tomar sol – ele deu uma mordida no doce, antes de voltar-se novamente para a moça – Sabe, fico até feliz por você estar sabendo... espero que isso ajude, ela é tão teimosa! Não que eu tenha moral para criticar, meu histórico não é dos mais corretos nesse quesito. Acho que é mal de família.
- Hm, pode ser... Mas eu acho um mal, de certa forma, admirável. Também fico feliz em saber que ela dividiu um pouco o problema, porque a mania usual de sua prima é carregar sozinha o mundo às costas. – comentou Raven, fitando Kyle com um meio sorriso.
O lufano anuiu, refletindo sobre as palavras da Raven. Era irritantemente angustiante para ele não saber o que fazer para ajudar Meridiana. Ele se sentiu inútil quando ela contou a ele e a Adhara sobre suas resoluções, se sentiu um peso para a prima grifinória. Apenas agora ele percebeu que estava fazendo por ela muito mais do que imaginava. Só o fato de ela confiar nele dizia muito do que ela considerava por ele. E, até aquele instante, ele não sabia o quanto.
-Hum... – ele murmurou para si mesmo , pensativo.
Raven observou o perfil bonito do rapaz agora perdido em seus próprios pensamentos e percebeu que Lucien acertara em incluí-lo nas atividades do Olho do Grifo. Kyle parecia inteligente, determinado, e poderia ser de grande ajuda.
- Hum... – ela repetiu, arremedando o rapaz – Seria muita indiscrição minha saber o que anda caraminholando esta cabeça grega?
-De forma alguma, eu só, sei lá, queria fazer um pouco mais do que já estou fazendo, mesmo percebendo agora que é mais do que eu achava. Minha prima está se arriscando tanto pela gente, sem falar do pessoal que está fora do castelo. Eu gosto do Mercury, por isso queria também dar uma força maior para a Lorelai.
- Eu também gostaria muito de poder fazer alguma coisa para infernizar essa gente que estragou nossa escola – comentou Raven, franzindo o cenho – Essa gente mesquinha e intolerante! Porém, me sinto um pouco perdida, sem saber por onde nem como começar...
Kyle deu outra mordida no chocolate que a sonserina lhe dera antes de pensar em uma resposta.
Uma parte dele estava admirado e satisfeito em perceber o quão fácil era conversar com Raven. A verdade é que, por mais que estivesse se dando relativamente bem com seus colegas de classe, era nos amigos de Meridiana que estava encontrando seus próprios amigos. Talvez porque, com muitos deles, Kyle podia baixar a guarda sobre quem ele verdadeiramente era, não precisava fazer segredos de suas origens e das razões que o trouxeram para a Inglaterra; talvez, também, porque os laços que via entre eles eram tão fortes quanto aqueles que existiam entre ele, Òrion, Ariadne e Leda. Era fácil se identificar com aquele sentimento de união.
Outra parte do rapaz buscava freneticamente uma idéia para as dúvidas que ele e Raven compartilhavam. Pelo que Lucien lhe contara, Herman, Lorelai e Mina – que não chegara a conhecer – usavam o jornal como um modo de difundir suas idéias. Combater palavras com palavras.
Era exatamente aquilo que precisavam combater ali. As idéias, ou melhor, a lavagem cerebral que os Carrows estavam fazendo.
-Eu também não sei. Acho que a gente não tem só que irritar os Cenouras, mas arrumar um modo de mostrar as idiotices que eles falam. Imagino que os textos da Lore devem ser ótimos, mas não dá para colocar tudo nas costas dela; e eu admito que não tenho vocação para escritor de textos sérios. A verdade é que eu nem tenho uma noção de verdade dessa guerra toda que está acontecendo. Ás vezes eu fico até imaginando o Mercury e todo mundo do lado de fora lutando como nos filmes, quase como super-heróis. Idiotice, não é?
-Idiotice não, O’Neil, é mais ou menos isso que está acontecendo... Pessoas se sacrificando pelo bem de todos e lutando por aqueles que amam e pelo que acreditam... – respondeu Raven, séria. E, de repente, o rosto da moça se iluminou com um sorriso, e ela exclamou: Meu caro, você acaba de me dar uma ótima idéia com essa história de super-heróis! Já que você disse que não tem vocação para textos jornalísticos, por que não tenta algo diferente? Algo tipo... quadrinhos?
Kyle enrugou a testa, meio sem compreender a proposta da sonserina.
-Quadrinhos?
-É!!! – Raven respondeu, cada vez mais empolgada – E seria uma boa forma de homenagear o Herman também, ele é vidrado com HQ’s. A Lore ia gostar.
-Eu nunca escrevi nada, Sinclair. Só tenho algumas idéias absurdas de vez em quando.
-Não seja por isso, você tem a mim, e com certeza, ao Sat para te ajudar, já que gostamos do gênero. O Lucien pode desenhar...
-Dhara também desenha – o rapaz mencionou pensativamente, lembrando-se de alguns esboços que vira a prima fazer no apartamento de Frida durante o verão.
-E a Lore pode ajudar a revisar, já que ela tem mais experiência em escrever. – Raven completou.
Um sorriso ampliou-se no rosto de Kyle, sentindo-se realmente satisfeito com a idéia que acabaram tendo meio que por acaso.
-É uma boa. Podemos propor na próxima reunião para ver o que o resto do pessoal acha.
-Sim, e eu posso comentar com o Sat também, ver a opinião dele. Aposto que o Diabo Loiro vai ficar encantado com a idéia – emendou Raven, sorridente.
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