Dust in the wind - Parte 1
- Agora sim esta sala de aula, e também nossa escola, estão dignas de nossa presença. Depois da eliminação de todo aquele lixo trouxa que se acumulou aqui por todos esses anos, podemos nos sentir mais à vontade, mais limpos. Vocês não concordam comigo, meus caros amigos? – perguntou a intragável Alecto, cruzando as mãos às costas.
Trinquei o maxilar de pura raiva, e para segurar minha vontade de avançar no pescoço daquela maldita Cenoura Cozida e quebrar-lhe os dentes. Minha disposição para com os infames Carrow, que já não era das melhores, azedou de vez depois daquela fogueira que consumiu não só grandes obras da Literatura Universal, mas, mais do que isso, fez cinzas de muitos de nossos sonhos e alegrias. Isso era simplesmente imperdoável.
Ironia das ironias, eu que sempre gostei de me imaginar vivenciando as histórias de meus personagens prediletos, nunca poderia sonhar que presenciaria na vida real um conto de Ray Bradbury. E, do jeito que as coisas caminhavam, daqui a pouco estaríamos ou num pesadelo de George Orwell ou num horror de Lovecraft...
Ou seja, as perspectivas só se mostravam cada vez piores.
Alecto não parava de falar. Seu discurso antitrouxa era intolerante e repelente. Os babacas deslumbrados emitiam grunhidos de satisfação e concordância; muitos alunos mantinham ares de paisagem, sem vontade ou com medo de se comprometerem; outros, uma minoria, demonstravam acintosamente seu desagrado. E eu uma vez mais me sentia miserável, pois estava no segundo grupo quando ansiava por estar no terceiro.
Levei discretamente a mão ao interior de minha veste, e deslizei os dedos pelo livro que conseguira salvar da fogueira. Desde aquele dia eu o trazia sempre comigo; ele era um sinal da Mão do Invisível, e eu ainda não sabia – ou tinha medo, talvez – de interpretá-lo. Mas, eu não podia adiar minha decisão por mais tempo. Precisava me posicionar. Precisava fazer alguma coisa contra aquela gentinha fanática que se empenhava em destruir tudo aquilo que eu prezava.
Mas, o que eu ia fazer? Impulsiva, pateticamente transparente, não podia interpretar nenhum papel nem dissimular nada; infelizmente, não possuo nem o talento de Meri nem a fleuma natural de Adhara Ivory.
- Inútil – murmurei, de mim para comigo – Você não passa de uma covarde inútil.
A voz de Alecto alteou-se, num frenesi de intolerância:
- Chega de misturas. Chega de profanações! A classe superior dos bruxos precisa entender de uma vez por todas que não há lugar em nosso mundo para a inferioridade e a aberração! Somos mais fortes, mais rápidos, mais capazes; o que pode um trouxa contra um bruxo? Nada! Então, meus jovens, brilhantes jovens bruxos, entendam isso de uma vez por todas: o mundo pertence a nós! Apenas a nós! Trouxas são fracos, e como tal devem ser ignorados... Melhor, devem ser removidos! Removidos como o lixo que são!
Aquilo foi demais para mim. Até uma covarde inútil tem seus limites. Peguei meu rolo de pergaminho, minha pena – as duas únicas coisas que me dignava levar para aquela palhaçada que Alecto ousava chamar de aula – levantei-me da carteira e caminhei em direção à porta.
- Srta. Sinclair? – a Intragável me chamou, às minhas costas – Aonde vai? Algum problema?
Respirei fundo, refreei a vontade de mandá-la fazer supositório de sua curiosidade, virei-me para ela e respondi, o mais polidamente que consegui:
- Preciso ver Madame Pomfrey. Estou passando mal.
- Verdade? E o que você está sentindo?
- Estou terrivelmente enjoada... professora. – respondi, agora com absoluta sinceridade.
A Cenoura (mal) Cozida encarou-me de forma avaliativa e pareceu acreditar em mim.
- Pois então vá direto para a Ala Hospitalar e cuide-se. Não queremos nenhum sonserino doente ou incapacitado; vocês são muito importantes para nosso trabalho. Está dispensada.
Sei que não deveria ter feito, mas fiz. A tal importância sonserina lembrou-me uma página vergonhosa da história mundial e isso me levou, ao ser dispensada, a adotar uma patética posição de sentido, empertigando o corpo e unindo bruscamente a lateral interna dos saltos de minhas botinas. Só Merlin sabe o que me impediu de erguer a mão direita e berrar uma saudação ridícula.
Dei imediatamente as costas a Alecto Carrow e ganhei os corredores, em direção aos jardins; precisava de ar fresco, ou sufocaria de raiva e frustração.
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