Tuesday, March 03, 2009

A Chegada do Bardo - Parte 1


Não muito longe, ele ouviu alguns homens praguejando contra o tempo e a falta de peixes. A noite estava úmida, havia cheiro de maresia no ar, misturado a qualquer coisa que lembrava sardinhas fritas.

Com as mãos afundadas nos bolsos da jaqueta de couro surrada, ele parecia apenas mais um marinheiro sujo ou um bêbado que esquecera o caminho de casa. Contudo, se houvesse alguém para observá-lo em meio à decrepitude daquela parte da cidade, certamente acharia a postura quase marcial e a maneira atenta com que ele observava tudo a sua volta um tanto deslocada naquele cenário.

O homem parou diante de um dos becos não muito longe de um pequeno píer, observando o poste que iluminava parcamente a calçada. Por alguns instantes, ele observou as sombras que se estendiam a partir de seus pés, antes de encostar-se junto à parede, tirando uma das mãos do bolso, portando agora um velho e elegante cachimbo de madeira.

Ele acendeu o cachimbo, dando uma longa baforada para, em seguida, soltar pequenos anéis de fumaça. Roubou um olhar do relógio de pulso, meneando ligeiramente a cabeça. A pessoa que esperava encontrar ali estava atrasada.

Como se em resposta a esse pensamento, ele ouviu algo cair suavemente no chão, não muito atrás dele, seguido por passos cautelosos, quase silenciosos não fossem para os ouvidos bem treinados do domador.

Imediatamente ele se virou, tirando a outra mão do bolso, revelando sua varinha. Das sombras do beco, um rapaz todo vestido de negro emergiu, como se tivesse se materializado a partir do nada.

O rapaz sorriu, tirando a boina que ocultava seus cabelos escuros, revelando o rosto até então coberto, olhos de um profundo azul-cobalto que, sob a luz direta do poste, pareciam quase contas de vidro.

- Hei, Godfrey. – o moreno cumprimentou – Você sabe, eu devo confessar que prefiro você assim. Verde não combina muito com seus olhos.

Godfrey deu um meio sorriso. Um pouco mais cedo, naquela noite, eles tinham se encontrado no Hades’ Gate. A cabeleira verde que usava sob a identidade de Omar certamente era algo que chamava a atenção.

- E você parece um coveiro. – Godfrey respondeu, guardando a varinha e adiantando-se para ele num abraço – Seja bem-vindo, Lusmore. Que notícias traz das Hébridas?

- Não as melhores, eu suponho. – ele respondeu – Embora eu tenha certeza de que o fato de Mina ter ficado lá e bem guardada possa lhe trazer algum alívio.

Godfrey assentiu.

- Certamente. Quando eu descobri que você estava na cidade, temi que...

- Ela está bem. – Lusmore reafirmou, levantando os olhos para o céu – Está certamente melhor que nós, pelo menos, com a barriga cheia de comida da tia Holly e dormindo profundamente sob cobertas quentes.

O homem riu.

- Uma maneira polida de alertar sobre minha hospitalidade. Desculpe por essa recepção de hoje, Lusmore. Eu não queria colocar você para fora daquela maneira no bar... muito menos recebê-lo no frio. Vamos andando. Eu vou arranjar alguma coisa para você comer.

Sem esperar resposta, ele começou a caminhar, sendo logo seguido pelo rapaz.

- Eu entendi sua reação no bar. Você não queria que me reconhecessem. – Lusmore observou – Eu tenho a impressão de ter reconhecido Euterpe lá. Está na moda cabelo verde, por acaso? Ela parecia ter um musgo vivo na cabeça.

- É um bar punk, Lusmore, o que você esperava? – o homem respondeu, parando diante de um dos armazéns aparentemente abandonados, tirando do bolso então um pequeno papel dobrado, entregando-o nas mãos do rapaz – Abra. Ou não vai conseguir nenhum lugar quente para descansar os ossos.

- Fidelius? – o moreno questionou, lendo o endereço das docas e o número do armazém – Número 13... apropriado, não?

- Eu agradeceria se você falasse mais baixo. – Godfrey observou – Há gente demais querendo meu pescoço, Lusmore. Não vamos facilitar a vida deles, não é?

O outro apenas riu em resposta. Minutos depois, estavam ambos em uma espaçosa sala – se é que se podia chamar de divisórias as muitas caixas que se faziam de “paredes” entre um espaço e outro.

Com a varinha, Godfrey conjurou fogo para a lareira que, certamente, parecia um tanto deslocada a se considerar que eles estavam em um dos armazéns do porto de Londres. Bem, eles eram bruxos. Para todos os efeitos, eles também se encontravam um tanto deslocados naquele mundo.

- Eu acho que ainda tenho algumas latas de sopa. – Godfrey observou – Vou...

- Esqueça, Godfrey, eu já jantei antes de vir encontrá-lo. – Lusmore sentou-se no chão, abraçando um joelho, enquanto observava o fogo, pensativo – A Resistência não tem casas melhores que essa, Godfrey? Você parece um rato num buraco de esgoto.

O homem deu um meio sorriso em resposta, sumindo por alguns instantes por trás de uma das caixas, antes de voltar com uma colher, um abridor e uma lata de sopa de ervilha, largando-a junto ao fogo antes de se sentar ao lado de seu visitante.

- É uma descrição bem apurada, considerando que cheguei a passar algumas semanas utilizando um bueiro como porta de entrada. Não, Lusmore, eu não moro aqui. Na verdade, eu não moro em lugar algum. – ele deu um suspiro cansado – Já é arriscado demais o fato de o Hades’ Gate ser um ponto de encontro fixo da Resistência e que gente demais saiba que aquele porão é uma das nossas portas de entrada. Eu nunca costumo dormir uma semana seguida no mesmo lugar.

- Mas esse armazém está sob o fidelius, não está? – Lusmore questionou, arqueando ligeiramente as sobrancelhas.

- Nós trazemos os refugiados que irão partir do país para cá. – Godfrey respondeu – Mas eu só estou aqui porque não há ninguém para sair essa semana. Afinal, uma coisa é ser Omar... e outra é que eu seja desmascarado como Godfrey McKinnon, o braço direito do líder do clã MacFusty, próximo demais ao coração do Conselho. – ele suspirou – Eles já estão caminhando numa linha muito tênue, tentando manter o equilíbrio, tentando manter as coisas em paz...

Lusmore assentiu minimamente, compreendendo o que o outro domador queria dizer.

- Isso significa que eu não vou poder ficar com você, não é verdade? – ele perguntou, jogando a cabeça para trás, antes de simplesmente deitar-se, colocando os braços cruzados sob a nuca – Bem, eu já esperava algo do tipo... Afinal, você é a porta de entrada.

Godfrey observou-o em silêncio por algum tempo.

- Eu acho que sei o lugar exato onde você poderia se encaixar na Resistência, Lusmore. Ao final das contas, a não ser que eu esteja muito enganado, você já os conhece.

Ele percebeu os olhos do jovem domador se fixarem sobre sua imagem, límpidos e claramente curiosos.

- Do que está falando?

- August me disse que há um pequeno grupo agindo sob as ordens dele... E que todos eles estiveram envolvidos na investigação que Mina estava fazendo sobre os comensais dentro de Hogwarts.

Um ligeiro sorriso atravessou a face do bardo. Ele já tinha uma ligeira idéia de quem poderiam ser seus companheiros. Quando chegara a Londres, a primeira coisa que fizera fora tentar descobrir o paradeiro dos amigos da prima. Afinal, ele prometera isso a ela.

Fora com alívio que ele recebeu a informação sobre o reaparecimento de Meridiana. Traçando o rastro da ruiva, ele também não demorou a descobrir sobre o casamento de Lorelai e Herman, ou o sumiço dos Blair. Também não foi difícil saber quem tinha ou não voltado para a escola de magia.

E, ao final das contas, ele não era conhecido como o “bardo das memórias” à toa...

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