Tuesday, February 10, 2009

Take a Chance om Me - Parte 1


Lucy abaixou-se, colocando o mostruário de paleta de cores ao lado do recipiente onde havia preparado a tinta para pintar o quarto em que estava naquele instante.

-Eu não sei - ela balbuciou - Acho que o tom está um pouco mais escuro do que aquele que eu tinha escolhido...

-Você poderia ter optado pelo misturador da loja de tintas ou mesmo contratado um pintor para fazer o serviço - Jack falou, os braços cruzados, em pé ao lado da escada de mão.

A mulher levantou o rosto, sorrindo. Os cabelos se insinuavam por debaixo do lenço, enquanto as formas pequenas de Lucy se escondiam sob o surrado macacão jeans que ela vestia. Mesmo assim, Jack não conseguiu deixar de pensar no quanto ela era bonita. Sem muito esforço, ele conseguia imaginar os cabelos castanhos e os olhos cor de mel da real aparência dela. Sim, Lucy realmente era uma bela mulher, ao modo dela.

-Eu te disse que gosto de fazer as coisas do jeito antigo, Jack. É divertido. - ela respondeu - Costumava fazer isso na Grécia quando resolvíamos mudar a decoração. Crianças têm suas fases, e, às vezes Kyle decidia que estava cansado de um quarto todo branco. Quero manter a tradição aqui, afinal, este vai ser o quarto dele na nossa nova casa.

O semblante de Mercury ficou um pouco mais sério ao escutar a última palavra proferida por Lucy.

-Você não precisava ter saído do meu apartamento. Seria um prazer receber o seu filho lá.

-Mas ainda assim, Jack, continuaria sendo o seu apartamento. Acho que já abusei demais da sua hospitalidade. - ela retrucou em um tom ameno - Além disso, acho que com todas as mudanças radicais que aconteceram na vida do Kyle, seria bom ele ter um lugar para chamar de lar quando viesse para os feriados e férias.

-Você sabe que não me agrada a idéia de você ficar completamente sozinha enquanto seu filho estiver em Hogwarts. - Jack reforçou.

Lucy sorriu de leve. Ela precisava admitir que ganhara um excelente amigo em Mercury e que apreciava muito a companhia e a preocupação dele.

-Por enquanto, nós podemos ficar tranqüilos. Mesmo com os comensais no poder não existe possibilidades de me descobrirem tão cedo. - ela disse, em um tom tão sério quanto o de Jack - Eu mudei de nome, documentos e aparência.

O homem abriu a boca para contestar que Frida a descobrira na Grécia com relativa facilidade. Por que Ludovic não faria o mesmo? Percebendo essas dúvidas estampadas no rosto de Jack, Lucy se pronunciou antes que ele verbalizasse seus receios.

-Frida só conseguiu me encontrar porque Ivory era um dos responsáveis diretos pela investigação que envolve aquela pessoa. Eu fui secretária do departamento de aurores, sei como funcionam os protocolos de acesso aos arquivos de proteção às testemunhas. Eu te garanto, Jack, que vai demorar muito até conseguirem burlar todos os feitiços de defesa dos arquivos.

Ela sorriu ao ver uma expressão ligeiramente mais aliviada no rosto do homem.

-Mesmo assim, eu prometo que vou passar aqui todos os dias para ver como você está, afinal, somos praticamente vizinhos. Em quinze minutos eu chego em sua nova casa sem dificuldades.

-Vai ser um prazer recebe-lo. E também te mostrar como eu faço as minhas esculturas e modelagens quando vier aqui. - ela respondeu - Mas agora, preciso decidir se coloco ou não mais tinta branca nesse tom de azul.

-Sinceramente? - Jack aproximou-se, avaliando a mistura que Lucy preparara - Eu gostei desse tom, não está tão escuro assim.

-Então vamos começar.

Enquanto Lucy pegava um dos rolos de tinta e começava a passar sobre a superfície da parede, Jack se abaixou junto ao pequeno cd-player que trouxera, ligando-o e deixando que a música tomasse conta do ambiente.

Ele escolhera um repertório mais "clássico" , algo que passava por Ray Charles, Louis Armostrong, Nina Simone, Mammas and Pappas, Henry Mancine, Frank Sinatra e trilhas de filmes antigos.

A tarde transcorria de maneira agradável, e, muitas e muitas vezes ele percebia que Lucy tentava acompanhar em um murmúrio os trechos de algumas músicas, mesmo que aquelas que ela parecia não conhecer.

Jack já havia percebido que aquela deveria ser uma mania quase inconsciente da escultora. Quando se sentia feliz, Lucy cantarolava.

No momento em que a voz doce de Audrey Hepburn soou através das caixas de som do aparelho, imediatamente Lucy começou a acompanhar.

- Moon river, wider than a mile…I'm crossin' you in style some day…Old dream maker, you heartbreaker… Wherever you're goin', I'm goin' your way… Two drifters, off to see the world…There's such a lot of world to see…We're after the same rainbow's end, waitin' 'round the bend…My huckleberry friend, Moon River, and me.

Jack parou de pintar apenas para observar a morena cantando, o modo como a cabeça dela balançava em um suave bailar sem que ela mesmo notasse. Ele desejou arduamente que ela se sentisse sempre assim. Mais do que isso, prometeu a si mesmo que faria o que estivesse a seu alcance para que ela pudesse ser feliz.

-Onde aprendeu a cantar Moon River? - ele perguntou, curioso, afinal, pelo que sabia do mundo mágico, não eram muitos bruxos que conheciam repertório trouxa.

Lucy parou de pintar, virando-se para Jack.

-Bonequinha de Luxo é um dos meus filmes favoritos, embora eu só tenha assistido a ele quando já morava na Grécia.

-Tocou essa música no meu baile de formatura - Jack mencionou, quase nostálgico - Uma pena que não pude dançar com a minha acompanhante. Eu quebrei minha perna na mesma semana em comemorações prévias e não aprovadas pelo corpo docente. Nada que valha a pena mencionar. - ele completou, com uma ligeira careta.

-Você teve mais sorte que eu - Lucy retrucou, abaixando o rosto - Eu fui sozinha ao meu baile. Era tímida e medrosa demais para aceitar qualquer convite. Fiquei a noite inteira sentada na mesa, observando os outros alunos na pista.

-Nós podemos dançar agora? O que acha? - o homem propôs com um sorriso divertido - Não é um baile, mas, sem os móveis, aqui dá uma boa pista de dança.

-Eu não sei se seria uma boa idéia - ela falou, abaixando ainda mais o rosto, como se a timidez dos tempos de adolescência houvesse se somado ao acanhamento que ela ainda possuía.

-É só uma dança, Lucy. Prometo que não vou morder - Jack falou em um tom brincalhão para afastar quaisquer que fossem os receios da mulher.

A morena levantou o rosto, assentindo em um gesto mínimo. Mercury sorriu mais uma vez, abaixando-se novamente junto ao cd player.

-Eu tenho também uma versão de Moon River cantada pelo Sinatra, acho ela melhor para dançar.

Assim que os primeiros acordes da música começaram a preencher o quarto, Jack aproximou-se de Lucy, colocando com delicadeza a mão na cintura dela. Ele percebeu que o corpo da mulher se tencionou completamente.

-Fique olhando para os meus olhos se isso te deixa mais tranqüila - ele falou, fazendo com que ela o fitasse com um sorriso embaraçado.

Ele envolveu a pequenina mão dela na sua e os dois começaram a dançar, de um lado para o outro. Jack intencionalmente mantinha uma distância segura entre eles, embora, sentisse vontade de trazer Lucy para bem perto de si e envolve-la completamente em seus braços. Ele percebeu que aos poucos ela relaxava e passou a apreciar aquele improvisado valsar.

Quando a música finalmente findou, deixando o aparelho completamente silencioso, o casal parou o movimento, contudo, sem se soltar. Mercury deixou-se perder nas linhas delicadas do rosto da escultora, e, sem refletir sobre o que fazia, aproximou seus lábios dos dela.

A primeira coisa que Lucy sentiu foi o calor da boca de Jack, depois o roçar suave, cuidadoso e agradável. Contudo, depois veio medo. Medo pelo que já havia vivido, medo do que poderia vir depois daquele toque.

De modo reflexivo e irracional, ela o empurrou com força, interrompendo o contato.

-Vá embora, Jack. - ela murmurou - Vá embora agora, por favor.

-Lucy, eu... - ele tentou começar a se explicar.

-Eu imploro, vai embora, AGORA! - ela quase gritou.

O homem a observou percebendo pela expressão do corpo e das feições dela quão perturbada Lucy ficara.

-Tudo bem, eu vou embora. Mas antes, eu preciso dizer que eu não sou um homem mau, Lucy. Vou tentar nunca fazer algo que possa te machucar e nunca vou forçá-la a fazer o que não deseja.

Jack então se virou, saindo, enquanto Lucy permanecia parada, abraçando a si própria, os olhos fixos na porta fechada, mergulhando nos pensamentos confusos que pareciam querer afoga-la naquele instante.

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