Tuesday, January 06, 2009

Pouca coisa faltava para eu terminar de arrumar meu malão. Amanhã era dia de retornar a Hogwarts – sim, porque não me parecia mais adequado chamá-la Hoggy – e eu ainda não sabia bem ao certo como me sentia a respeito. Prosseguia numa insólita mistura de expectativa e repulsa, saudade e remorso... Porém, uma coisa era certa: eu não me sentia feliz. Era certo que reveria meus amigos queridos, estaria de volta à minha segunda casa; todavia, como seria agora vê-la possivelmente cheia de intrusos? Eu me arrepiava só de pensar.

Minha situação parecia bem complicada. Eu era uma sonserina e amava minha Casa pelo que nela havia de melhor, ainda que os demais estudantes achassem impossível sair algo de bom das Masmorras de Salazar Slytherin; porém, eu tinha ódio aos Comensais e a tudo o que eles representavam, e se viessem a interferir diretamente na escola eu decerto teria muitos problemas com a disciplina. Afinal de contas, Raven Sinclair não obedece a qualquer um!

Relanceei o olhar para o tampo de minha escrivaninha e um doloroso suspiro escapou de meus lábios. Dali me fitavam os profundos e perigosos olhos negros do Senhor de Meu Coração, cuja foto do Profeta Diário eu recortara cuidadosamente e carregava comigo onde fosse. Severus Snape era meu maior problema.

Ele era um Comensal da Morte. Mas eu não era capaz de odiá-lo, por mais que me esforçasse. Algo em meu peito insistia em dar-lhe o benefício da dúvida, ainda que alguma coisa de racional em minha cabeça gritasse que isso era a maior estupidez.

Sim, Raven Sinclair não obedece a qualquer um... Porém, era mais do que óbvio que o homem da foto não era um qualquer. Fosse para o bem, fosse para o mal, Severus Snape seria sempre extraordinário. Era inegável a aura de poder que ele emanava, mesmo adotando maneiras discretas e impessoais. E esse poder me fascinava, me mantinha presa a ele, à sua figura indevassável, inatingível... Mas a realidade era lógica, absoluta, por isso cruel: Severus Snape era simplesmente demais para mim.

Mordi o lábio inferior ao me lembrar de imediato de um trecho bastante óbvio de uma dolorosa música, mas não adiantou: era cantá-lo, ou chorar. Fitei mais uma vez a foto do jornal e escolhi a segunda opção:

…All the love gone bad, turned my world to black
Tattooed all I see, all that I am, all I'll ever be...
I know someday you'll have a beautiful life, I know you'll be a star
In somebody else's sky, but why
Why, why can't it be, why can't it be mine?


Afundei o rosto em meus braços cruzados sobre a escrivaninha e senti raiva de mim mesma. Queria xingar, mas não havia palavrão ou maldição suficientemente forte para me satisfazer. Queria fugir, mas, para onde? Como se foge de uma idéia? De uma lembrança? De uma obsessão?

Jack começou a miar, um seu miado choroso e pidão que sempre destinava a qualquer coisa pequena que voejasse sobre ele: um besouro, uma mosca, uma borboleta. Geralmente isso me divertia muito, ver sua cara de cobiça, os olhos muito azuis saltados, os bigodes todos eriçados para frente; todavia, naquele momento eu me sentia tão miserável que nem a gracinha de meu gato foi capaz de me fazer erguer a cabeça. Senti algo cutucar meus ombros e meus cabelos, e me preparei para empurrar sete quilos de gato caso Jack continuasse a caçar seja lá o que estivesse voando e resolvesse pular em cima de mim com aquela banha toda.

Entretanto, não foi Jack quem me atacou, mas sim as cutucadas, que aumentaram. Não me machucavam, mas estavam me irritando. Imaginei que podia ser o próprio Jack me acertando sem querer com a pata, na tentativa de capturar o bichinho que cobiçava, mas eu não estava num bom dia para brincadeiras; assim, ainda com o rosto escondido, ergui a mão, golpeei o ar e exclamei, irritada:

- Pára, Banhoso, vá brincar em outro lugar! Anda!

Fiquei intrigada: em vez de um miau sentido, o que ouvi foi um pipilar agudo que se ampliou; além disso, além das cutucadas, agora fios de meus cabelos também estavam sendo puxados!

- Mas que mer... – comecei, erguendo a cabeça, para em seguida ter uma delicada surpresa: meia dúzia de beija-flores brincava sobre mim e, assim que finalmente conseguiram captar minha atenção voaram em direção à porta de meu quarto, de onde me observava, com um meio sorriso, minha querida Tia Ondina. Atirei-me em seus braços, comovida.

- Tia Ondina! Que bom ver a senhora, que bom, que bom... – exclamei, escondendo meu rosto em seus longos cabelos castanhos.

- Eu senti que você precisava que eu viesse – ela disse, beijando-me a fronte – August cuida muito bem de você, moleca, mas de vez em quando não há nada melhor do que um colo. Faz dias que tento vir, mas Stella não larga de mim; ela acha que eu, Augie e Flora a mimamos demais e é por isso que você se tornou esse monstrinho que aí está – completou Tia Ondina, virando os olhos.

- Tia Stella nunca vai me perdoar, não é mesmo? Ninguém merece! Quem vê acha que cometi um crime contra ela só porque ajudei Tio Augie! – exclamei, irritada.

- Sim, Raven, você cometeu o crime de preferir a desordem à ordem, e isso é algo que não existe no universo de Stella von Iheringer – explicou Tia Ondina, pegando-me pela mão e levando-me até minha cama, onde nos sentamos – Porém, moleca, eu vim aqui para saber de você; vejo que sua aura está nebulosa e desequilibrada. O que aconteceu?

- Ah, tia, é tanta coisa... Não sei explicar... – comecei, fitando meus pés.

- Então não explique, apenas diga – ela cortou, erguendo gentilmente meu queixo com a ponta do indicador e olhando em meus olhos – Vomite o que está fazendo mal a você. Me deixe ajudá-la.

Respirei fundo. Senti-me subitamente muito cansada, pesada, e precisei me levantar da beirada da cama para desentorpecer as pernas e soltar os ombros. Caminhei até a escrivaninha, coloquei alguns livros sobre a foto de Severus e considerei o pedido de Tia Ondina. Ela era confiável e compreensiva. Se contasse o que me afligia, talvez ela conseguisse me entender, ou então me apresentasse alguma saída... Então, virei-me de frente para ela e despejei de uma vez só:

- Bem, tia, a questão é que há um bocado de coisas com as quais não estou sabendo lidar. Dumbledore está morto. Hogwarts não será mais a mesma. Voldemort está de volta e não sei o que fazer para combatê-lo ou para proteger aqueles que amo. E, por fim, estou – melhor, eu sou perdidamente apaixonada por um Comensal da Morte.

continua...

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