Tia Ondina ficou em silêncio por alguns minutos, observando-me com atenção, os olhos castanhos acesos com um brilho indecifrável. Depois, deu uns tapinhas no colchão de minha cama, chamando-me de volta ao seu lado. Obedeci.
- Dumbledore está morto – ela começou, envolvendo minha mão direita entre as suas mãos – Sim, é fato consumado, mas isso não quer dizer que seu trabalho e o que ele representou para todos nós morreram junto com ele. Sua ausência o torna ainda mais eloqüente e nos convida ainda mais à ação. Concorda?
Assenti com um menear de cabeça.
- Hogwarts não será mais a mesma. Sim, moleca, nada nunca é como antes. Mesmo quando Dumbledore era diretor eu duvido que você não encontrasse uma nova Hoggy a cada ano. Sim, compreendo o que você quis dizer, mas eu completaria afirmando que, então, o mais importante agora é perceber aquilo em que a escola se transformar e, caso não seja do agrado de vocês, alunos, que lutem para defendê-la de quem a estraga e torná-la novamente aquilo que vocês aprenderam a amar em todo esse tempo em que lá estiveram. Sua opinião?
- Apoiado, titia – concordei, surpresa com a forma direta e franca de Tia Ondina para lidar com minhas questões.
- Muito bem. O outro ponto: Voldemort está de volta e você não sabe o que fazer para combatê-lo ou para proteger aqueles que ama. Raven, ninguém segue para uma batalha sem antes criar e aperfeiçoar estratégias. Sair em combate aberto lançando feitiços e atirando setas envenenadas com poções mortíferas pode soar muito heróico, mas também é bastante ineficaz. Veja bem, a coragem e a disposição para lutar contra a maldade daquela criatura você já tem; certamente aparecerão ocasiões onde poderá ser útil e oferecer proteção. Não sofra antecipadamente; espere o momento certo de agir, ele surgirá. Correto?
- Hm, correto, tia, mas não sofrer antecipadamente é algo muito difícil para mim... – objetei, balançando a cabeça em desalento.
- Bem, moleca, então pelo menos me prometa que tentará pensar antes de tomar qualquer atitude – pediu Tia Ondina, apertando de leve minha mão.
- Prometo, tia. Prometo sim.
- Por fim, o que parece ser o mais difícil. O Comensal.
Meu coração falhou uma batida.
- Raven, tem certeza de que ele já recebeu a Marca? Não é apenas um jovem perdido e deslumbrado com a fama e com o poder? Se assim for, ainda há uma esperança de que ele volte atrás. Isso já aconteceu várias vezes.
Encarei Tia Ondina e, involuntariamente, comecei a tremer. Eu já me abrira com ela, não seria mais possível mentir ou omitir. Engoli em seco e disparei:
- Tia, ele não é jovem, tem sim a Marca, é Comensal mesmo, talvez o maior deles, já foi capturado, perdoado, parecia que estava do nosso lado, mas agora... Eu não sei mais o que pensar, nem o que achar, nem o que fazer, tia, só sei que eu o amo, o amo desesperadamente, o amo desde quando o vi pela primeira vez, faria qualquer coisa por ele, qualquer coisa para trazê-lo de volta, mas ainda assim meu coração insiste em afirmar que ele merece a dúvida, ele não conseguiria enganar Dumbledore por tantos anos, ah, droga, titia, não quero... não quero mais chorar...
- Por todos os Mestres Ascensionados, Raven!... – sussurrou Tia Ondina enquanto me ouvia, seus olhos iam se arregalando mais e mais com a crescente compreensão de sobre quem eu falava – Eu... Oh, minha criança!... Isso, chore, chore bastante, vai fazer bem... Pelas barbas de Merlin... – ela hesitou, enquanto eu soluçava em seu ombro, e ela me manteve em seus braços até eu conseguir me acalmar e voltar a conversar. Enxuguei meus olhos na manga do casaco e fitei Tia Ondina em busca de uma solução.
- Raven, percebo claramente que seu amor é grande e verdadeiro – ela disse, sustentando meu olhar e pousando ambas mãos em meus ombros – porém, mesmo que isso seja cruel, nós duas sabemos que ele é, no mínimo, impossível.
- Eu sei, titia, eu sei... – lamentei.
- Saber só não é suficiente, Raven; você precisa se convencer disso. Você é correspondida?
- Claro que não, tia. Se fosse, você acha que eu estaria assim, nesse estado miserável? – retorqui, amarga.
- E se houvesse correspondência, Raven, você acha que estaria menos miserável do que está agora? Sabendo que o homem que você ama é, ou então pode ser o braço direito do Lord das Trevas? Você se sentiria confortável nessa situação? O seu amor, por maior que seja, estaria de acordo com sua consciência? Com aquilo que representa a sua essência como bruxa e como mulher?
- Eu... eu... não sei... – murmurei, e havia desespero em minha voz e em meus olhos.
Tia Ondina apertou meus ombros e me endireitou.
- Em seu lugar eu também não saberia, Raven, ficaria tão confusa como você. Seria fácil para mim agora mandá-la esquecer esse homem, arrancá-lo de dentro de seu coração e de sua mente; porém, não me sinto nesse direito, pois acredito que eu mesma, em seu lugar, poderia resistir à verdade e à lógica dos fatos e persistir no sentimento. Somos apenas humanos, Raven, carne e sangue sujeitos a mais erros do que acertos. Assim, a única coisa que posso dizer a você nesse momento para tentar ajudá-la é: seja sempre fiel a você mesma antes de ser fiel a qualquer outra pessoa ou a qualquer outra coisa. Sei que é difícil, que é duro, mas no momento certo você saberá qual decisão tomar. Eu confio em você.
Sem saber o que dizer, envolvi Tia Ondina novamente em meus braços, escondendo o rosto em seus cabelos. Ela, por sua vez, me abraçou de volta e, para minha surpresa, reclinou-se comigo, recostando-se na cabeceira de minha cama.
- Tia? O que você... – comecei, confusa.
- Estou lhe dando um pouco de colo, moleca, mesmo percebendo que você está achando meu gesto patético – ela respondeu, sorrindo de leve, me aninhando junto a si – Sim, tudo parece virado do avesso à sua volta, Raven, mas não pense que cabe apenas a você virar o mundo de volta para o lado direito. Faça o sagrado exercício da humildade e divida comigo todo esse peso. Você poder ser maior do que eu, mas, acredite, sou bem forte...
- Obrigada, tia – murmurei, beijando-a na face.
- De nada, moleca – ela respondeu, alisando meus cabelos. E, antes que me desse conta, adormeci.
No comments:
Post a Comment