Monday, January 05, 2009

Jingle Bell Rock



De Raven para Sat

Do lado de fora, num galho de árvore coberto de neve, uma grande ave de penas azeviche crocitava escandalosamente.

- Minha Morgana, por que esse pobre bicho grita tanto assim? – resmungou Yvaine, olhando através da janela – Ele podia ser um pouco mais discreto, ou então um pouquinho menos desafinado!

- Coitadinho do corvo, minha Berinjela resmungona – brincou Satanio, enlaçando a namorada pela cintura e passando também a observar a ave, que agora ajeitava as penas da asa e se sacudia para livrar-se dos flocos de neve – ele também tem direito de expressar seus sinceros votos de Feliz Natal!

- Ah, sim, estou vendo a gentileza dele em nos felicitar – retrucou Yvaine, risonha – Agora só falta você me dizer que corvos são amorosos e fofinhos!

- Bem, fofinhos eu não diria, mas sim que são excelentes e fiéis amigos – respondeu o rapaz, com um meio sorriso e uma piscadela – Você não acredita, posso perceber. Então, aninhe-se aqui no colinho do papai Sat porque ele irá contar a você um ótimo conto de Natal – ele completou, conduzindo a namorada para um pequeno sofá perto da lareira.

Assim que se viram confortavelmente instalados, Sat começou, sem abandonar seu irresistível meio sorriso:

- Era uma vez, há alguns anos, em um misterioso e secular castelo chamado Hogwarts...

*******

Meio escondido na penumbra dos corredores que levavam às Masmorras da escola, Satanio observava os arredores com olhos astutos e brilhantes, à espera de encontrar algo que lhe proporcionasse alguma divertida aventura.

Aquele era seu primeiro ano em Hogwarts e também seu primeiro Natal longe de casa. Seus pais estavam em viagem a trabalho e não tinham conseguido encerrar suas tarefas a tempo de retornar a Londres; e, ainda que os avós de Sat o tivessem chamado para passar o feriado com eles, o irrequieto garoto preferiu ficar em Hogwarts, uma vez que o castelo vazio e com menos vigilância seria o terreno ideal para inúmeras traquinagens.

Caminhando o mais silenciosamente possível, Sat virou mais um corredor e encontrou as Masmorras. A maior delas era aquela onde Severus Snape ministrava suas aulas de Poções, e, a princípio, parecia o melhor lugar para uma primeira expedição exploratória. Dificilmente seria pego, uma vez que Filch e Snape estavam às voltas com a ceia e a probabilidade de deixarem a mesa do banquete com rapidez era mínima; assim, valia muito a pena arriscar...

Sat aproximou-se com cuidado da porta e testou a maçaneta. Para sua surpresa, a porta abriu-se mansamente; distinguiu as carteiras, o armário e a mesa de Snape em meio à penumbra. Levou a mão à veste para pegar sua varinha e usar um lumus para deixar as coisas mais visíveis; porém, antes que conjurasse o feitiço, um barulhinho suspeito o fez estacar. Apurou olhos e ouvidos: tudo quieto. Entretanto, Sat achou melhor prosseguir a exploração no lusco fusco até que estivesse certo de que podia clarear o ambiente sem ser descoberto ou correr o risco de acordar alguma coisa.

Sat passeou ao redor da Masmorra os olhos já quase acostumados à pouca iluminação. Divisou a estante cheia de potes com ingredientes sinistros, capazes de dar vida a qualquer tipo de poção... Era muito tentador, ainda que cozinhar demorasse muito mais que fazer um feitiço; entretanto, havia efeitos impagáveis de poções pelos quais valia a pena esperar... Ah, se valia!

Porém, melhor ainda que a estante cheia de vidros, era o armário... Ali dentro deveria estar o fino dos ingredientes para se fazer qualquer coisa, tanto que Snape o mantinha trancado não só com feitiços, como também com uma chave que trazia sempre consigo. Hm, se houvesse um jeito alternativo de se abrir aquele armário...

Um novo barulho leve e rasteiro cortou o raciocínio de Satanio. Decidido a enfrentar fosse o que fosse que o espionava, o garoto virou-se de frente enquanto sacava sua varinha. O gesto repentino o fez trombar em cheio com uma coisa, e essa coisa soltou um grito pavoroso ao ser atingida; o grito alarmou Satanio que, instintivamente, também se pôs a gritar a plenos pulmões.

Assim como começou, a coisa parou de gritar; Satanio a imitou, quase sem fôlego. Um lumus minima se fez ouvir e, iluminado pela leve claridade, apareceu à frente do sonserino o rosto assustado e também ofegante de uma garota magrela com negros cabelos bagunçados que ele já vira antes pelos corredores da Sonserina.

- Hm... Quem é você? – arriscou o garoto, para quebrar o incômodo silêncio pós-escândalo – Eu sou Satanio Goddriac, e acho que sou seu colega de Casa...

- E-eu sou Raven Sinclair... somos colegas sim, já o vi em nossa Sala Comunal e você acaba de me dar o maior susto da minha vida! – respondeu a garota, com um suspiro.

- Ah, eu que assustei? Você apareceu do nada na minha frente! – exclamou o loiro.

- Acho que preciso lembrá-lo de que você também surgiu do nada na minha frente! – a menina devolveu, apontando o dedo para o peito de Sat.

- Está bem, está bem, vamos fingir que conseguimos furar o bloqueio de Hogwarts e aparatamos aqui exatamente agora, pode ser? – sugeriu Satanio, conciliador – E agora, o que vamos fazer? Melhor, o que você está fazendo na Masmorra de Poções bem na noite de Natal, Srta. Sinclair?

- Hm... Pesquisando... Observando o ambiente – ela respondeu, evasiva, correndo os olhos pela estante forrada de potes sinistros – E você?

- Bem, mais ou menos a mesma coisa, só que eu pretendo me divertir – explicou Sat, com um sorrisão – Veja só todas essas melequeiras em conserva, imagine a quantidade de coisas legais que se pode fazer com elas!

- Melequeiras? Mas que falta de respeito! – exclamou Raven, chocada – Aqui pode ter muita coisa de aparência horrível, mas são ingredientes sutis para poções importantes! Você não presta atenção nas aulas do Professor Snape?

- Sim, presto, mas acho que não tanto quanto você – devolveu Satanio, risonho, encarando a sonserina – Me diga então qual poção importante se pode fazer com essa... hã... coisa aqui – ele desafiou, pegando da estante um pote cheio do que parecia uma estranha gosma amarelada.

- Hm... Eu posso estar enganada, mas ou isso é sumo de Visgo do Diabo ou então é baba de macaco javanês – respondeu Raven, avaliando o pote com o cenho franzido – Bem, um ou outro podem potencializar poções mais simples, e não entendo porque o Professor Snape deixou um ingrediente perigoso assim tão à vista...

Satanio avaliou a menina de cabelos negros ainda distraída com o pote. Ela parecia estranha, mas também inteligente. Ele sabia que os colegas a achavam meio freak e não era muito bem vista pelos sonserinos tradicionais por sua amizade com uma menina ruiva da Grifinória. E, seria impressão de Satanio, ou a forma de ela pronunciar o nome do Diretor da Sonserina parecia querer expressá-lo todo em letras maiúsculas?...

- Como é que você sabe essas coisas, Sinclair? – Sat perguntou, realmente curioso.

- Eu gosto muito de Poções, é a única coisa para a qual tenho um certo dom... E também tenho uma tia que entende do assunto – a menina respondeu, colocando o pote de volta na estante – E você pode me chamar de Raven, Goddriac – ela completou, com um sorriso tímido.

- Satanio, para os íntimos – disse o garoto, numa reverência brincalhona – Mas, Raven, estamos perdendo tempo, vamos fazer algo de legal por aqui. Que tal alguma poção para animar coisas? Para sair voando? Para transformar coisas em ouro? Ou em comida?

- Em chocolate! – exclamou Raven, e um fugaz brilho de cobiça acendeu seu olhar – Isso, Satanio, eu infelizmente não sei fazer e nem sei se é possível... vou procurar saber. Ah, mas eu sei fazer chiclete!

- Sabe?!? – exclamou Sat – Aquele chiclete que vende na Dedos de Mel? Por que não disse antes?? Mãos à obra! O que eu posso fazer para ajudar?

- Mas, e se o Professor Sna...

- O Snape está ceando, duvido que ele ou o Filch abandonem toda aquela comida tão cedo – afirmou Satanio, animadíssimo – Pode ficar sossegada que ninguém irá nos descobrir... O fogo é alto ou baixo?

- Nada de fogo ainda, menino, só se esquenta o caldo no final do preparo! – disse Raven, impedindo o gesto da varinha de Satanio – Bem, já que você garante que não seremos pegos e quer ajudar, então vá pegando na estante para mim os potes que eu pedir, está bem?

- Claro, claro, tudo pelo chiclete! Um caldeirão de chiclete!!

Despreocupados, os garotos foram dando corpo àquilo que em pouco tempo se tornaria um delicioso chiclete, ainda que Satanio tivesse suas dúvidas...

Jingle-bell, jingle-bell, jingle-bell rock,
Jingle bells swing and jingle bells ring.
Snowin' an blowin' up bushels of fun,
Now the jingle hop has begun.


- Raven, tem certeza de que esse negócio aí vai dar certo? Nunca vi chiclete líquido! – ele perguntou, coçando a cabeça enquanto avaliava o conteúdo do caldeirão com olhos nada confiantes.

- É assim mesmo que começa, Satanio, confie em mim. Só quando tudo estiver bem misturado é que a gente acende o fogo e o caldo pega consistência de grude, entendeu? Para fazer poções não se pode ter pressa, tem que ter paciência...

Jingle-bell, jingle-bell, jingle-bell rock,
Jingle bells chime in jingle-bell time.
Dancin' and prancin' in Jingle Bell Square
In the frosty air.


Depois de um resmungo de Sat e mais algumas mexidas no caldeirão, Raven pediu-lhe que acendesse o fogo; assim que abriu fervura o caldo começou a engrossar e a formar belas bolhas cor de rosa, fora o delicioso cheiro doce que se espalhava pela Masmorra...

- Deu certo! Bem que você disse! – exclamou o garoto, entusiasmado, enquanto Raven sorria, sem descuidar do caldeirão – E quando vamos poder atacar essa maravilha?

What a bright time, it's the right time
To rock the night away.
Jingle-bell time is a swell time
To go glidin' in a one-horse sleigh.


Giddy-yap jingle horse; pick up your feet;
Jingle around the clock.
Mix and mingle in a jinglin' beat;
That's the jingle-bell rock.


- Assim que terminar de ferver nós a espalharemos ali naquele mármore e, quando esfriar, poderemos cortar a massa em quadradinhos e mandar ver! – a menina exclamou, feliz.

- Isso se eu permitir, o que me parece muito pouco provável, Sr. Goddriac, Srta. Raven – disse repentinamente uma voz profunda e fria.

Os garotos ergueram os olhos e deram com a austera figura do Diretor da Sonserina que, enrolado à capa, os observava com cara de muito poucos amigos. Eles estavam tão distraídos com o que faziam que sequer notaram a chegada de Severus.

- P-professor Snape eu... eu posso explicar – começou Raven, subitamente trêmula e corada até a raiz dos cabelos – É que eu estava...

- Ela estava estudando aqui na Masmorra, professor, quando eu apareci e a desafiei a fazer alguma coisa com os ingredientes da estante – cortou Satanio, assumindo corajosamente a situação.

Raven encarou o garoto loiro e chegou a abrir a boca para objetar; entretanto, um gesto de Snape a fez calar-se.

- Estudando ou bisbilhotando, eu não admito ninguém entrando nas minhas Masmorras sem minha autorização – ele sentenciou, ríspido.

- Era por uma boa causa, professor – disse Satanio, abrindo seu sorriso mais sedutor – Pretendíamos depois distribuir todo esse chiclete para nossos amigos como presente de Natal.

- É sim, Professor Snape – corroborou Raven, tentando demonstrar inocência.

- Ah, que bonito, isso... Estou sinceramente emocionado com tamanha gentileza – debochou Severus, mexendo displicente o róseo conteúdo do caldeirão – E, para aproveitar o espírito natalino dos senhores, convido-os a passarem os próximos dois dias areando os caldeirões daquela pilha e eviscerando aquela bacia de lagartas... – sugeriu, enquanto seus olhos negros passavam dos garotos para os fundos do cômodo – Acredito que não me negarão essa demonstração de generosidade - completou.

- Não, senhor professor Snape – Satanio e Raven, vencidos, responderam em uníssono, depois de se entreolharem, meio enojados.

- Pois muito bem. Estejam aqui amanhã às oito em ponto. Podem ir – ordenou Snape.

Raven seguiu até a porta, com Satanio em seus calcanhares. O loiro, porém, a fim de não dar a noite como perdida, voltou-se para Snape e perguntou, com ar angelical:

- Mas, professor, o senhor vai nos deixar mascar o nosso chiclete enquanto trabalhamos, não vai? Seria uma pena desperdiçar essa massa tão boa...

Severus ergueu a sobrancelha, incrédulo, e Raven conteve a respiração. Sat, então, pegou a garota pela mão e ambos saíram disparados pelo corredor, sem esperar a resposta de Snape...

Para escutar a música, basta clicar AQUI

No comments: