Jingle Bell Rock
De Raven para Sat
Do lado de fora, num galho de árvore coberto de neve, uma grande ave de penas azeviche crocitava escandalosamente.
- Minha Morgana, por que esse pobre bicho grita tanto assim? – resmungou Yvaine, olhando através da janela – Ele podia ser um pouco mais discreto, ou então um pouquinho menos desafinado!
- Coitadinho do corvo, minha Berinjela resmungona – brincou Satanio, enlaçando a namorada pela cintura e passando também a observar a ave, que agora ajeitava as penas da asa e se sacudia para livrar-se dos flocos de neve – ele também tem direito de expressar seus sinceros votos de Feliz Natal!
- Ah, sim, estou vendo a gentileza dele em nos felicitar – retrucou Yvaine, risonha – Agora só falta você me dizer que corvos são amorosos e fofinhos!
- Bem, fofinhos eu não diria, mas sim que são excelentes e fiéis amigos – respondeu o rapaz, com um meio sorriso e uma piscadela – Você não acredita, posso perceber. Então, aninhe-se aqui no colinho do papai Sat porque ele irá contar a você um ótimo conto de Natal – ele completou, conduzindo a namorada para um pequeno sofá perto da lareira.
Assim que se viram confortavelmente instalados, Sat começou, sem abandonar seu irresistível meio sorriso:
- Era uma vez, há alguns anos, em um misterioso e secular castelo chamado Hogwarts...
*******
Meio escondido na penumbra dos corredores que levavam às Masmorras da escola, Satanio observava os arredores com olhos astutos e brilhantes, à espera de encontrar algo que lhe proporcionasse alguma divertida aventura.
Aquele era seu primeiro ano em Hogwarts e também seu primeiro Natal longe de casa. Seus pais estavam em viagem a trabalho e não tinham conseguido encerrar suas tarefas a tempo de retornar a Londres; e, ainda que os avós de Sat o tivessem chamado para passar o feriado com eles, o irrequieto garoto preferiu ficar em Hogwarts, uma vez que o castelo vazio e com menos vigilância seria o terreno ideal para inúmeras traquinagens.
Caminhando o mais silenciosamente possível, Sat virou mais um corredor e encontrou as Masmorras. A maior delas era aquela onde Severus Snape ministrava suas aulas de Poções, e, a princípio, parecia o melhor lugar para uma primeira expedição exploratória. Dificilmente seria pego, uma vez que Filch e Snape estavam às voltas com a ceia e a probabilidade de deixarem a mesa do banquete com rapidez era mínima; assim, valia muito a pena arriscar...
Sat aproximou-se com cuidado da porta e testou a maçaneta. Para sua surpresa, a porta abriu-se mansamente; distinguiu as carteiras, o armário e a mesa de Snape em meio à penumbra. Levou a mão à veste para pegar sua varinha e usar um lumus para deixar as coisas mais visíveis; porém, antes que conjurasse o feitiço, um barulhinho suspeito o fez estacar. Apurou olhos e ouvidos: tudo quieto. Entretanto, Sat achou melhor prosseguir a exploração no lusco fusco até que estivesse certo de que podia clarear o ambiente sem ser descoberto ou correr o risco de acordar alguma coisa.
Sat passeou ao redor da Masmorra os olhos já quase acostumados à pouca iluminação. Divisou a estante cheia de potes com ingredientes sinistros, capazes de dar vida a qualquer tipo de poção... Era muito tentador, ainda que cozinhar demorasse muito mais que fazer um feitiço; entretanto, havia efeitos impagáveis de poções pelos quais valia a pena esperar... Ah, se valia!
Porém, melhor ainda que a estante cheia de vidros, era o armário... Ali dentro deveria estar o fino dos ingredientes para se fazer qualquer coisa, tanto que Snape o mantinha trancado não só com feitiços, como também com uma chave que trazia sempre consigo. Hm, se houvesse um jeito alternativo de se abrir aquele armário...
Um novo barulho leve e rasteiro cortou o raciocínio de Satanio. Decidido a enfrentar fosse o que fosse que o espionava, o garoto virou-se de frente enquanto sacava sua varinha. O gesto repentino o fez trombar em cheio com uma coisa, e essa coisa soltou um grito pavoroso ao ser atingida; o grito alarmou Satanio que, instintivamente, também se pôs a gritar a plenos pulmões.
Assim como começou, a coisa parou de gritar; Satanio a imitou, quase sem fôlego. Um lumus minima se fez ouvir e, iluminado pela leve claridade, apareceu à frente do sonserino o rosto assustado e também ofegante de uma garota magrela com negros cabelos bagunçados que ele já vira antes pelos corredores da Sonserina.
- Hm... Quem é você? – arriscou o garoto, para quebrar o incômodo silêncio pós-escândalo – Eu sou Satanio Goddriac, e acho que sou seu colega de Casa...
- E-eu sou Raven Sinclair... somos colegas sim, já o vi em nossa Sala Comunal e você acaba de me dar o maior susto da minha vida! – respondeu a garota, com um suspiro.
- Ah, eu que assustei? Você apareceu do nada na minha frente! – exclamou o loiro.
- Acho que preciso lembrá-lo de que você também surgiu do nada na minha frente! – a menina devolveu, apontando o dedo para o peito de Sat.
- Está bem, está bem, vamos fingir que conseguimos furar o bloqueio de Hogwarts e aparatamos aqui exatamente agora, pode ser? – sugeriu Satanio, conciliador – E agora, o que vamos fazer? Melhor, o que você está fazendo na Masmorra de Poções bem na noite de Natal, Srta. Sinclair?
- Hm... Pesquisando... Observando o ambiente – ela respondeu, evasiva, correndo os olhos pela estante forrada de potes sinistros – E você?
- Bem, mais ou menos a mesma coisa, só que eu pretendo me divertir – explicou Sat, com um sorrisão – Veja só todas essas melequeiras em conserva, imagine a quantidade de coisas legais que se pode fazer com elas!
- Melequeiras? Mas que falta de respeito! – exclamou Raven, chocada – Aqui pode ter muita coisa de aparência horrível, mas são ingredientes sutis para poções importantes! Você não presta atenção nas aulas do Professor Snape?
- Sim, presto, mas acho que não tanto quanto você – devolveu Satanio, risonho, encarando a sonserina – Me diga então qual poção importante se pode fazer com essa... hã... coisa aqui – ele desafiou, pegando da estante um pote cheio do que parecia uma estranha gosma amarelada.
- Hm... Eu posso estar enganada, mas ou isso é sumo de Visgo do Diabo ou então é baba de macaco javanês – respondeu Raven, avaliando o pote com o cenho franzido – Bem, um ou outro podem potencializar poções mais simples, e não entendo porque o Professor Snape deixou um ingrediente perigoso assim tão à vista...
Satanio avaliou a menina de cabelos negros ainda distraída com o pote. Ela parecia estranha, mas também inteligente. Ele sabia que os colegas a achavam meio freak e não era muito bem vista pelos sonserinos tradicionais por sua amizade com uma menina ruiva da Grifinória. E, seria impressão de Satanio, ou a forma de ela pronunciar o nome do Diretor da Sonserina parecia querer expressá-lo todo em letras maiúsculas?...
- Como é que você sabe essas coisas, Sinclair? – Sat perguntou, realmente curioso.
- Eu gosto muito de Poções, é a única coisa para a qual tenho um certo dom... E também tenho uma tia que entende do assunto – a menina respondeu, colocando o pote de volta na estante – E você pode me chamar de Raven, Goddriac – ela completou, com um sorriso tímido.
- Satanio, para os íntimos – disse o garoto, numa reverência brincalhona – Mas, Raven, estamos perdendo tempo, vamos fazer algo de legal por aqui. Que tal alguma poção para animar coisas? Para sair voando? Para transformar coisas em ouro? Ou em comida?
- Em chocolate! – exclamou Raven, e um fugaz brilho de cobiça acendeu seu olhar – Isso, Satanio, eu infelizmente não sei fazer e nem sei se é possível... vou procurar saber. Ah, mas eu sei fazer chiclete!
- Sabe?!? – exclamou Sat – Aquele chiclete que vende na Dedos de Mel? Por que não disse antes?? Mãos à obra! O que eu posso fazer para ajudar?
- Mas, e se o Professor Sna...
- O Snape está ceando, duvido que ele ou o Filch abandonem toda aquela comida tão cedo – afirmou Satanio, animadíssimo – Pode ficar sossegada que ninguém irá nos descobrir... O fogo é alto ou baixo?
- Nada de fogo ainda, menino, só se esquenta o caldo no final do preparo! – disse Raven, impedindo o gesto da varinha de Satanio – Bem, já que você garante que não seremos pegos e quer ajudar, então vá pegando na estante para mim os potes que eu pedir, está bem?
- Claro, claro, tudo pelo chiclete! Um caldeirão de chiclete!!
Despreocupados, os garotos foram dando corpo àquilo que em pouco tempo se tornaria um delicioso chiclete, ainda que Satanio tivesse suas dúvidas...
Jingle bells swing and jingle bells ring.
Snowin' an blowin' up bushels of fun,
Now the jingle hop has begun.
- Raven, tem certeza de que esse negócio aí vai dar certo? Nunca vi chiclete líquido! – ele perguntou, coçando a cabeça enquanto avaliava o conteúdo do caldeirão com olhos nada confiantes.
- É assim mesmo que começa, Satanio, confie em mim. Só quando tudo estiver bem misturado é que a gente acende o fogo e o caldo pega consistência de grude, entendeu? Para fazer poções não se pode ter pressa, tem que ter paciência...
Jingle bells chime in jingle-bell time.
Dancin' and prancin' in Jingle Bell Square
In the frosty air.
Depois de um resmungo de Sat e mais algumas mexidas no caldeirão, Raven pediu-lhe que acendesse o fogo; assim que abriu fervura o caldo começou a engrossar e a formar belas bolhas cor de rosa, fora o delicioso cheiro doce que se espalhava pela Masmorra...
- Deu certo! Bem que você disse! – exclamou o garoto, entusiasmado, enquanto Raven sorria, sem descuidar do caldeirão – E quando vamos poder atacar essa maravilha?
To rock the night away.
Jingle-bell time is a swell time
To go glidin' in a one-horse sleigh.
Jingle around the clock.
Mix and mingle in a jinglin' beat;
That's the jingle-bell rock.
- Assim que terminar de ferver nós a espalharemos ali naquele mármore e, quando esfriar, poderemos cortar a massa em quadradinhos e mandar ver! – a menina exclamou, feliz.
- Isso se eu permitir, o que me parece muito pouco provável, Sr. Goddriac, Srta. Raven – disse repentinamente uma voz profunda e fria.
Os garotos ergueram os olhos e deram com a austera figura do Diretor da Sonserina que, enrolado à capa, os observava com cara de muito poucos amigos. Eles estavam tão distraídos com o que faziam que sequer notaram a chegada de Severus.
- P-professor Snape eu... eu posso explicar – começou Raven, subitamente trêmula e corada até a raiz dos cabelos – É que eu estava...
- Ela estava estudando aqui na Masmorra, professor, quando eu apareci e a desafiei a fazer alguma coisa com os ingredientes da estante – cortou Satanio, assumindo corajosamente a situação.
Raven encarou o garoto loiro e chegou a abrir a boca para objetar; entretanto, um gesto de Snape a fez calar-se.
- Estudando ou bisbilhotando, eu não admito ninguém entrando nas minhas Masmorras sem minha autorização – ele sentenciou, ríspido.
- Era por uma boa causa, professor – disse Satanio, abrindo seu sorriso mais sedutor – Pretendíamos depois distribuir todo esse chiclete para nossos amigos como presente de Natal.
- É sim, Professor Snape – corroborou Raven, tentando demonstrar inocência.
- Ah, que bonito, isso... Estou sinceramente emocionado com tamanha gentileza – debochou Severus, mexendo displicente o róseo conteúdo do caldeirão – E, para aproveitar o espírito natalino dos senhores, convido-os a passarem os próximos dois dias areando os caldeirões daquela pilha e eviscerando aquela bacia de lagartas... – sugeriu, enquanto seus olhos negros passavam dos garotos para os fundos do cômodo – Acredito que não me negarão essa demonstração de generosidade - completou.
- Não, senhor professor Snape – Satanio e Raven, vencidos, responderam em uníssono, depois de se entreolharem, meio enojados.
- Pois muito bem. Estejam aqui amanhã às oito em ponto. Podem ir – ordenou Snape.
Raven seguiu até a porta, com Satanio em seus calcanhares. O loiro, porém, a fim de não dar a noite como perdida, voltou-se para Snape e perguntou, com ar angelical:
- Mas, professor, o senhor vai nos deixar mascar o nosso chiclete enquanto trabalhamos, não vai? Seria uma pena desperdiçar essa massa tão boa...
Severus ergueu a sobrancelha, incrédulo, e Raven conteve a respiração. Sat, então, pegou a garota pela mão e ambos saíram disparados pelo corredor, sem esperar a resposta de Snape...
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