Tuesday, January 20, 2009

O Último Embarque - Final


- Preciso de um minuto a sós com Adhara. – Kamus disse, dirigindo-se à esposa – Vocês se importam?

Frida sorriu ternamente para ele. Ela compreendia que, apesar de agora todos fazerem parte de uma só família, ainda havia momentos que preferiam que fossem compartilhados em separado. A própria polonesa sentia a necessidade de ter alguns instantes a sós com a sobrinha para se despedir.

- Nenhum pouco – foi a resposta dela, enquanto desenlaçava seu braço do de Kamus.

O Auror agradeceu-a com um discreto sorriso antes de voltar-se para Meridiana. Ele estendeu uma mão na direção da ruiva, esperando que a garota a apertasse.

A moça deixou um esboço de sorriso surgir, conhecendo a personalidade reservada do padrinho, sentiu-se lisonjeada com o gesto, estendendo a mão em retorno. A verdade é que desde que fora morar com a tia, ela percebeu que, nas vezes em que conviveu mais diretamente com o Auror, ele, a seu modo e em pequenos gestos, tentava fazer com que ela se sentisse acolhida.

Contudo, foi com enorme surpresa que ela sentiu a mão livre dele pousar de modo quase paternal em seu ombro.

- Tenha um bom ano letivo, Meridiana. Se precisar de alguma coisa, escreva-nos. Se achar que as corujas estão sendo interceptadas, use um Patrono.

- Farei isso sim, senhor – Meridiana anuiu, e, voltando novamente a sorrir de modo mais amplo, permitindo transparecer toda a imensa gratidão e consideração que sentia naquele instante. – Muito obrigada... Por tudo.

O russo apenas assentiu antes que Frida tomasse carinhosamente uma das mãos da ruiva, indicando que desejava conversar com Meri.

Adhara observou pelo canto dos olhos a madrasta e a prima se afastando antes de voltar sua atenção para o pai. Ela já esperava por aquilo, é claro. Kamus Ivory sempre parecia ter algo importante para dizer antes que ela embarcasse para a escola – no último ano, por exemplo, ele até a incumbira de entregar pessoalmente uma carta à Severus Snape assim que chegasse ao castelo. Carta a qual, a propósito, até hoje ela não descobrira do que se tratava.

- Eu estou a par do que você andou fazendo no último ano, é claro. – disse Kamus.

A garota arqueou uma sobrancelha. Será que o pai falava da parte em que ela se tornara amiga de Meri e Suzannah Deveraux, namorara Trowa Barton, terminara com Trowa, se envolvera com dois jornais clandestinos, se aproximara de Theodore Nott, espionara os Jovens Comensais e, finalmente, combatera três Comensais da Morte na companhia de Samantha Blair quando a escola fora invadida no final do ano?

Provavelmente seria tudo aquilo.

- Foi um ano... Atribulado, em diversos aspectos. – o Auror ponderou, encarando a filha com atenção.

Adhara sorriu com certa melancolia. Atribulado era uma boa maneira de definir as coisas.

- Eu não espero que este ano seja muito diferente, pai.

E ela estava sendo sincera. Primeiro porque havia uma guerra acontecendo e, segundo, porque ela não poderia se manter inerte se as pessoas com quem se importava acabassem na linha de fogo daquele embate.

Kamus a observou em silêncio, daquela forma com que fazia quando estava tentando decifrar os pensamentos dela. Adhara nunca chegara a perguntar ao pai se ele de fato sabia usar legilimência, embora ela não fosse se sentir surpresa se um dia descobrisse que o Auror dominava aquela arte.

O que quer que Kamus tenha visto na filha naquele momento, ele pareceu satisfeito, pois em seguida elevou uma das mãos e pousou-a sobre a cabeça de Adhara.

A morena sorriu levemente. Seu pai costumava fazer aquilo quando ela era criança e, por mais que ela já estivesse crescida (ainda que mal alcançasse a linha dos ombros de Kamus), não podia evitar sentir-se transportada por um segundo ao passado. Um passado ingênuo e ignorante de menina, quando ela ainda não sabia que sua mãe havia sido assassinada por seu tio e que seu pai assassinara o irmão, quando Eric Delacroiss ainda era um nome desconhecido e não a ensinara que ela, também, poderia tirar a vida de alguém.

Foram tempos felizes, somente ela e o pai. Eram lembranças agradáveis que guardaria entre suas maiores preciosidades para o resto de seus dias. Mas, se tivesse que escolher entre a alegria daquela época de seus primeiros anos de vida, e a vida que levava hoje em dia... Ela escolheria manter o presente, apesar de todo o caminho atribulado – como o próprio russo definira – que tivera que percorrer para chegar até ali. A felicidade de hoje parecia mais completa quando ela tinha pessoas com quem compartilhá-la.

O Expresso de Hogwarts soltou seu primeiro apito e o motor da locomotiva vermelha começou a ganhar vida para mais uma viagem. Era hora de partir.

Adhara sorriu e abraçou Kamus Ivory, sentindo os braços dele circundando-a de imediato.

Pai e filha permaneceram silenciosamente naquele abraço pelo máximo de tempo que puderam, até que o trem apitou novamente e eles sabiam que era hora de se separarem.

- Cuide-se bem.

A morena buscou os olhos de Kamus.

- O senhor também.

Eles trocaram um último olhar de compreensão mútua antes que a sonserina se virasse e corresse na direção do trem. Ainda tinha que se despedir da madrasta.

- Tenha um bom ano, niña. – disse Frida, abraçando rapidamente a enteada quando Adhara parou à sua frente.

- Obrigada. Escreverei para a senhora. – a garota respondeu, correspondendo também ao abraço que durou poucos segundos.

Os agentes do Ministério gritavam ordens de chamada, quase todos os alunos já estavam dentro do Expresso – o embarque havia sido muito mais rápido agora que havia um menor número de passageiros.

Adhara olhou para o trem que já soltava nuvens repolhudas de fumaça e então de volta para a mulher à sua frente. Havia ainda uma última pessoa de quem se despedir. Ela desceu seu olhar até o ventre da polonesa, onde a gravidez de quatro meses já começava a se tornar perceptível. Olhou uma última vez para os olhos castanhos da madrasta, como se pedindo permissão, antes de pousar uma mão sobre a barriga de Frida.

A mulher sentiu o toque, a princípio tímidos e hesitantes, dos dedos da enteada sobre seu ventre. O calor do carinho da morena pelo bebê ainda não nascido emanando amena e delicadamente.

- Tchau. – ela disse em um murmúrio destinado ao seu irmão.

Aquilo emocionou a loira de tal modo que Frida não ousou dizer coisa alguma, apenas sorriu, sentindo também lágrimas se formarem discretamente no canto dos olhos.

E então o trem soltava seu último apito de advertência e Adhara correu, sem olhar para trás, embarcando por um triz antes de darem onze horas e as portas do Expresso de Hogwarts serem fechadas.

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