Após a sorte que tiveram, os dois rapazes corvinais estavam ainda aflitos e assustados por tudo que havia acontecido a eles até ali. Terem chegado a tempo em King's Cross foi uma questão não apenas de sorte, mas também de confiança que os alunos tiveram em si mesmos, em todo o conhecimento adquirido na escola. Darien e Jamal, agora, poderiam sorrir sossegados, mas seria hora ainda para que todos os Comensais passassem a temê-los?
O dia em Londres realmente estava gostoso, com o início do verão, uma pigmentação esverdeada era perceptível pelos arredores da estação, pois os canteiros já apresentavam vida que renascia mais uma vez, sem cessar, como sempre aconteceria pelos anos seguintes.
A movimentação pela estação estava estranha. Os meninos perceberam que muitos dos alunos que antes faziam apostas para quem entraria primeiro na plataforma 9¾ não estavam ali, assim como outras meninas que choravam aos ombros dos pais pelo medo da distância, mal sabiam elas que em Hogwarts ninguém estaria longe, ninguém estaria sozinho; bem, não literalmente.
Eram poucos os alunos que iam e vinham empurrando suas malas com ora corujas, ora sapos e animais típicos. Um secundarista da Grifinória, por descuido, deixou seu fiumm escapar da gaiola; se não fosse por seu irmão mais velho os trouxas ao redor teriam visto o dócil animal.
- Acho que este ano teremos mais comida em Hogwarts. - Dissera o esfomeado Jamal. - É impressão minha ou o número de alunos diminuiu? Havia o dobro no ano passado!
- Você só pensa em comida mesmo, não é!? Mas é verdade sim, será que alguns pais estão com medo devido ao retorno de sabemos quem? Ou será medo de Hogwarts não ser mais tão segura, já que nesse ano não o teremos... - Disse Darien, lembrando-se tristemente da morte do antigo diretor, o símbolo referencial de toda a Escola.
-Não acho que seja isso, Semo. Esqueceu a obrigatoriedade de irmos para Hoggy? E que alunos nascidos trouxas não são mais permitidos?
Os meninos ficaram por ali conversando mais um pouco, até que o sineiro anunciou a chamada para partirem. Ambos contavam em verem alguns amigos de suas casas. Apenas Bruce fora visto, acompanhado por um menino, porém, no instante seguinte, souberam que seria seu irmão mais novo, pois era idêntico ao amigo.
Darien viu alguns conhecidos, como Lorelai e Satanio, passando ao longe. Olhou por todos os cantos, pegando sua mala pelas mãos, subiu junto com o amigo, ao penúltimo vagão.
Mesmo tendo tardado em entrar para o trem, ainda havia espaço de sobra para ser escolhido, mas as melhores cabines já haviam sido ocupadas. E, por incrível que pareça, em sua maioria pelos novatos.
- Espero entrar para a Lufa-lufa! - Disse uma menina de cabelos encaracolados e loiros.
- Eu já prefiro Sonserina, todos da minha família entraram lá, espero não ser motivo de piadas, nem de vergonhas. – Disse uma outra menina, tão pálida quanto uma folha de jornal envelhecido, que agitava os dedos pelas madeixas acobreadas.
- Novatos, nunca mudam; sempre especulando em que casa ficarão. - Darien sorrira a Jamal, enquanto prosseguiam caminho para o vagão anterior.
Passada uma cabine lotada de alunos, que festejavam sabe-se lá o quê, os dois encontraram uma que não era tão ruim assim. Ao menos oferecia a eles duas poltronas amplas, o que lhes permitiria deitar e relaxar até chegarem ao castelo; viagem curta, mas que serviria de grande valia pelo descanso oferecido.
- Enfim, um local de descanso, estou mais do que louco por uma relaxada nas pernas. - Desabafou Jamal, com o olhar fundo nas duas safiras que Darien tinha ao rosto.
O menino entendeu, sem que perguntasse, onde o amigo queria chegar; só andou um pouco para mais próximo a ele, quando Darien viu uma cabeleira negra azulada vestindo vestes negras esverdeadas passarem pelo corredor: Raven Sinclair, do sétimo ano, aluna da Sonserina que morria de paixões pelo professor Snape. Há tempos ela e Darien não conversavam, e o menino percebeu que ela procurava por alguém, talvez por sua amiga inseparável Meri, que por mais estranho que pareça, era da Grifinória.
Abrindo a porta da cabine, Darien olhou para o lado direito do corredor e chamou pela menina.
- Raven!!! Aqui... sou eu, o Darien – ele preferiu se denunciar, antes que fosse confundido com alguém, subestimando a memória da sonserina.
- Darien!? Quanto tempo! Por acaso você não viu o Luke por aí?
- Lucas Hunter, da Lufa-lufa? Não vi, não. Você procurando por ele assim, se não te conhecesse diria que esqueceu o seu antigo ídolo... - O menino tentou brincar, mas percebeu que Raven não pareceu muito interessada em brincadeiras do tipo.
- E o que tem de estranho nisso? – ela perguntou, erguendo um pouco os ombros - Ele é um aluno como eu ou você...
Visivelmente havia alguma coisa no ar, e Darien não sabia o que era, mas juraria que não era um romance entre os dois; francamente, Luke e Raven juntos... O menino pensou bem, mas achou melhor varrer essa idéia da cabeça. Darien convidou Raven para entrar na cabine, a menina ainda carregava as malas nas mãos e, mesmo com o trem mais vazio do que o habitual, demoraria um pouco mais a achar o lufano. Fez as apresentações necessárias de Raven a Jamal, e iniciaram uma conversa sem assunto. Os rapazes estavam tão empolgados que mal perceberam quando Darien pôs a mão em cima do ombro de Jamal, sorrindo para ele, com os olhos brilhando incessantemente. Raven percebeu, preferiu não comentar nada, mas se sentiu estranhamente curiosa. “Não é nada, Raven, é apenas a aproximação dos dois”, pensou, por fim.
Percebendo a curiosidade discretamente exibida pelo olhar da garota, Darien, que agora estava sem graça com toda a situação, retirou o braço do ombro do amigo e falou. Contou à amiga da viagem que fez para o Canadá, do que havia acontecido em Gaspésie, e da viagem junto a Jamal para Lyon. Raven ouviu tudo sem piscar, sem molhar os lábios; ela sentiu o quanto Darien confiava nela para ter tocado em tal assunto e viu que os dois corvinais estavam ansiosos em confidenciar aquilo a alguém, pelo menos a alguém que demonstrasse segurança a um deles. E Darien sabia e bem o quanto Raven fora discreta com ele no passado, fora que ter um professor como objeto de desejo apaixonante e ter de conviver isso muito bem sem fazer alardes por todos os corredores por onde passa são pontos que contam.
- Darien, eu ainda não compreendo algumas coisas... Mas entendo a situação; tenho um primo, o Clark, que também é assim. E uma coisa ele tem que, pelo que eu já sei, você tem de igual: são muito engraçados e prestativos, sempre aptos a ajudar...
- É, mas não sou nenhum palhaço, tá bom!?
Disse um sorridente Darien; agora, ele e Jamal poderiam confiar em alguém em Hogwarts. Enquanto Jamal e Raven conversavam coisas sobre a escola e sobre alguns professores, o que, por estranho, não incluía Snape, Darien observava as paisagens ao redor; nunca fizera aquilo antes, e ficou perplexo com a beleza e calmaria que aqueles lugares passavam. Por um instante relembrou-se de sua velha Gaspésie e suas montanhas de neve, com pinheiros que balançavam de um lado para o outro.
- ... é mesmo! Darien, eu e Raven estávamos lembrando daquele plano no quinto ano contra os sonserinos. E agora eu sei de onde eu já a tinha visto. Ela era a amiga da... - Não era preciso falar o nome de quem, todos ali sabiam.
- E eu me lembro daquele plano perfeitamente. – Disse a sonserina, com um brilho no olhar – Eu e Luke ficamos com muita raiva de vocês na época. Como podem achar que todo sonserino é da categoria Comensal? Francamente!...
De súbito a menina teve um estalo no pensamento, recordou-se do motivo porque estava perambulando pelo trem: ela pretendia, como informou sem maiores detalhes a seus companheiros de vagão, encontrar seu amigo ruivo e oficializar as desculpas que lhe devia por ocasião de um desentendimento que tiveram durante as férias; porém, até então a sonserina não o havia encontrado em parte alguma do trem. Além disso, ficou boa parte do tempo conversando com Darien e Jamal e quase se esqueceria por completo de procurar o amigo, se não fosse a lembrança de coisas já acontecidas rememoradas por Jamal.
Raven, então, agradeceu aos rapazes pela companhia e saiu em busca de Luke. Ela estava convicta de que precisava conversar direito com o lufano, esclarecer as coisas. Apesar da briga que tiveram, Luke era para ela um grande amigo e Raven sabia o quanto a amizade deles seria importante e também útil para ambos durante esse ano tão difícil...
- A Raven é muito legal, D! - Jamal falava, enquanto abocanhava alguns feijõezinhos de todos os sabores. – Mas, você tem total confiança nela?
- Jamal, confiaria minha alma a ela!
Enquanto o trem chegava a Hogsmeade, Jamal e Darien observavam os vultos moverem-se pelas florestas ao redor. Coisas estranhas aconteceriam naquele ano, coisas onde a sorte tida no dia anterior poderia não aparecer para eles, coisas que talvez fosse bom não pensarem sobre. Eles sentiam que o segredo deles seria o menor fator de interesses em Hogwarts. Agora seria questão de se aglomerarem aos demais alunos da escola e não mais ficarem percorrendo os corredores aos poucos números, pois o passado poderia voltar à tona, e o futuro, talvez, jamais seria escrito novamente.
Enquanto os rapazes observavam as janelas e confabulavam coisas, viram que a sonserina ainda tentava achar o amigo, Luke. Raven tinha a certeza do quanto este ano seria revelador a sua vida; como boa teimosa, tratou de forçar pensamento para seu tão ansiado e ao mesmo tempo tão temido destino naquela noite: a Escola... e seu novo Diretor.
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