Sunday, January 25, 2009

Kyle desceu do trem, acompanhando o ritmo dos amigos, ainda não sabia o que fazer ou como se comportar. Tudo era novo para ele, afinal, crescera em uma cidadezinha pequena, estudara a vida inteira em uma escola trouxa, e, fora iniciado na magia por sua mãe e sua madrinha, Lachésis, a curandeira local, cujas origens mágicas eram desconhecidas por grande parte dos moradores da vila.

O rapaz só teve contato com outros bruxos quando Daphne e Achernar, filhos de Lachesis, se mudaram para a vila quando a mãe adoeceu. Foi nessa época, quando Daphne se tornou a médica do povoado e pouco depois se casou com Romulus Lycan, e Achenar começou a se interessar por Lyncis Karaides, que Kyle pôde contar a Leda, Aria e Órion sobre suas origens.

Desse modo, eles acabaram se tornando uma pequena comunidade bruxa no meio daquela vila grega, embora, mais da metade deles fossem completamente trouxas.

Ainda assim era completamente diferente do que via ali, na Inglaterra, especialmente considerando-se que a mãe evitava visitar locais bruxos quando iam até Athenas, à exceção de quando Kyle foi prestar um exame de avaliação de nível de magia quando tinha doze anos.

Agora ele estava adentrando nos terrenos que levavam a Hogwarts, uma das três maiores escolas de magia da Europa, segundo as primas haviam lhe informado.

Ele escutou uma voz que nunca ouvira antes chamar os primeiranistas para acompanhá-los em direção às barcas.

-Nós vamos de carruagens – ele sentiu a mão de Raven Sinclair puxar de leve a manga do uniforme ainda sem emblema que ele usava.

Caminhou alguns passos, seguindo o fluxo de alunos, deixando-se levar pelos acontecimentos antes de raciocinar sobre eles. Era o melhor modo de lidar com todas aquelas novidades.

-Eles são exatamente como você os desenhou, Lucien – Kyle escutou Meridiana falar, em um tom mais baixo, com o namorado.

Foi nesse instante que ele percebeu os cavalos quase draconianos e esqueléticos que estavam atrelados aos carros.

-Eu nunca tinha visto trestálios antes. – ele falou, sem refletir.

-Você pode vê-los? – foi Adhara quem perguntou.

-Nós estávamos junto com a madrinha quando ela morreu - Kyle assentiu, antes de galgar a escada da carruagem.

No resto do caminho, ele mal conseguiu prestar atenção nas conversas dos demais, entretido em apreciar as florestas escuras, tão típicas daquela parte do Reino Unido, tão diferente da paisagem quase pastoril de sua terra natal. Ele não conseguiu evitar em imaginar que a mãe – e também o pai – percorreram aquele caminho anos atrás.

Quando viu as torres do castelo despontando em meio às árvores, ele perdeu completamente o fôlego diante da grandiosa imensidão que Hogwarts se revelava. Como um castelo de contos de fadas ou de cavalaria que ele leu muitas vezes na infância por indicação da mãe.

-Nossa... – ele murmurou com os olhos arregalados.

Assim que chegaram, foram conduzidos através das portas de folhas duplas que davam acesso ao hall de entrada. Uma mulher magra, com o cabelo rigidamente preso e escondido sob um chapéu pontudo, olhar cansado, mas extremamente determinado, se aproximou dele, em meio à multidão de alunos.

-Senhor O’Neil, meu nome é Minerva McGonnagal, sou professora de Transfigurações, preciso que me acompanhe por favor.

Inconscientemente, Kyle olhou de soslaio para Meridiana, que lhe assentiu, com um discreto sorriso. Com o aval da prima, ele acompanhou a senhora até um escritório.

-Sente-se – a mulher falou indicando uma cadeira – Não sei o quanto o senhor sabe sobre a nossa escola, senhor O’Neil.

-Eu li o manual contendo informações sobre Hogwarts que recebi junto com o aviso de que deveria vir estudar aqui – ele respondeu, de modo polido e sério.

Minerva apenas assentiu, pensando consigo o quão útil aquele manual era na convocação de alunos nascidos trouxas, antes da proibição deles na escola. A exceção de Harry Potter, o qual foi necessário um enviado especial para lhe explicar sobre sua situação peculiar, aquele era o procedimento padrão. Pelo menos, o manual foi útil no caso daquele garoto estrangeiro, pego de surpresa em meio ao turbilhão de mudanças que estavam acontecendo desde a ascensão dos comensais.

-Então já sabe que nesta escola os alunos são divididos em casas devido aos seus atributos pessoais. A seleção é feita utilizando-se este chapéu desde praticamente a fundação de Hogwarts.

Só naquele instante, Kyle percebeu um chapéu praticamente aos farrapos em cima da mesa da professora.

-Usualmente ele é apenas acordado para a seleção dos primeiranistas, mas, ocasionalmente, quando um aluno é transferido de outra escola, recorrermos a ele também. Como as barcas dos novatos demorarão um pouco para chegar, achei mais sensato fazer primeiro sua seleção.

Kyle piscou os olhos ao notar o chapéu se mexer, a boca rasgada no tecido grosso soltar algo semelhante a um bocejo.

-Não estamos no Salão Principal – o chapéu falou com sua voz esponjosa, e, após fixar seus olhos em Kyle, disse – Entendo, entendo.

Aquela foi a deixa para que a professora de Transfigurações colocasse o chapéu na cabeça do rapaz, que sentiu o peso do grosso tecido cair-lhe sobre os olhos, trazendo-lhe uma densa escuridão que parecia ter-lhe transportado para outro lugar além.

“Eu vejo coragem...” – a voz esponjosa começou, dentro da cabeça de Kyle – “vejo também inteligência... assim como teimosia e determinação para alcançar aquilo que deseja... qualquer uma das casas poderia lhe servir, garoto... Mas maior do que tudo isso eu vejo lealdade, você é leal àqueles que preza, àqueles que deseja proteger. E é tal sentimento que me faz colocá-lo na...”

- Lufa-lufa – o Chapéu Seletor finalizou em voz alta, e, no mesmo instante o emblema da casa do texugo apareceu nas vestes de Kyle.

Depois daquele anúncio, o objeto voltou a ficar inanimado. A professora McGonagall o recolheu, virando-se para o rapaz.

-Vamos indo, então, para o Salão Principal, senhor O’Neil – ela falou.

O rapaz apenas assentiu, silenciosamente, ainda sem conseguir absorver o que acabara de ocorrer ou o significado daquele resultado nos dias vindouros na Escola de Magia e Bruxaria de Hogwarts.

continua

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