Tios - Parte 1
Bastava mais um pouco de fervura e logo o creme de abóbora com bacon e alcaparras estaria pronto. Geralmente era Tio Augie quem cozinhava, mas hoje eu lhe pedi para assumir o fogão, pois sua maré de azar havia retornado, a despeito de nossos cuidados, e eu temia que o fogo lhe trouxesse algum acidente mais sério.
Enquanto cozinhava, mantinha meus os olhos fitos num espelho que pendurara na parede em frente. Como minha paranóia começou a achar o galpão de Tio Augie muito desprotegido, lancei mão de um feitiço não muito recomendável que semelha o circuito interno de vídeo dos trouxas: enfeiticei dois espelhos, e, enquanto um ficava escondido do lado de dentro da entrada do galpão, o outro ficava comigo onde eu estivesse, e por ele podia ver qualquer um que pretendesse entrar na casa de meu tio.
Mexi uma última vez nosso creme de abóbora, desliguei o fogo e abafei a panela; meus olhos pousaram no espelho e eu estremeci. Havia um homem na entrada, que devia ter aparatado naquele momento em que eu desviara os olhos para a panela. Eu não conseguia ver-lhe o rosto; percebia apenas que não era alto, estava enrolado em uma capa preta de viagem e tinha uma boina enterrada na cabeça. Saquei minha varinha e, trêmula, corri para detrás da cortina de veludo que separava a entrada do galpão do salão de Tio Augie. Seja lá quem for o estranho, não entrará tão facilmente quanto espera...
- Sinclair!?! Eh, Sinclair, você está em casa? Responda, August, meu velho! – chamou o homem, batendo palmas antes de entrar.
- Pela Deusa!! Tio Angus!! – exclamei logo em seguida, atirando-me em seus braços assim que ele transpôs a cortina.
Além das saudades, estava muito preocupada com Tio Angus e com sua família. Eu havia escrito a Urganda, sua filha e minha grande amiga, e a coruja que ela me mandou de volta trazia notícias rápidas e confusas que até pareciam boas, mas me deixaram apreensiva justamente pela sua brevidade. Fora o fato de que meu padrinho poderia estar sendo vigiado por Comensais, por conta de sua posição abertamente anti-Voldemort e das possíveis atividades de resistência que ele deveria liderar ou auxiliar na Escócia, tendo como base de operações o seu famoso pub, A Pata do Gato.
Meu padrinho soltou-me de seu abraço, que fora diferente dos que costumeiramente me dava. Em geral me erguia do chão e me girava no ar, todo sorrisos; desta feita, apenas me apertou em seus braços e afagou meus cabelos, num gesto que lembrava, Deus me livre, uma despedida.
- Tio, que saudades! – exclamei, pegando-lhe as mãos e levando-o até o salão. Ele retirou a boina, sacudiu os cabelos, mas não quis tirar a capa. Tinha o semblante triste, em contraposição ao seu costumeiro sorriso amplo, e manchas escuras sob seus olhos verdes os marcavam com tristeza.
- McAllister! Mas que prazer revê-lo! – cumprimentou Tio Augie, surgindo no salão como uma mancha azul ambulante – Desculpe meu estado, mas o tubo de tinta explodiu assim que lhe pus as mãos... Hoje a Mão do Invisível está alerta... Entre, sente-se... Como vão as coisas nas Highlands?
- Nada boas, August – respondeu meu padrinho, irritado – A Escócia está infestada de Comensais, e sou obrigado a tolerá-los quando minha vontade real é dizimá-los. Vários daqueles porcos espiões freqüentam meu pub, porém, obviamente, não descobrem nada, nossas atividades são muito bem dissimuladas... Talvez seja isso que ainda me permite tolerar-lhes a presença em meu estabelecimento: saber que os enganamos bem debaixo de seus focinhos.
- E Tia Lakshime, Urganda, os meninos e as meninas? Eles estão bem? Emily e Diana terão que vir para Hogwarts, não? – perguntei, apreensiva.
Tio Angus suspirou, retirou um pacote do bolso interno da capa e mo estendeu.
- Tome, querida, é para você. Urganda me pediu que entregasse quando viesse a Londres. Na verdade, ela queria mandar via coruja, mas não permiti; não com porcos espiões capturando correspondências por aí. Lakshime e as crianças estão bem; depois de muita discussão, resolvi despachá-los todos para a Índia, onde vivem sob a proteção de meus sogros. Acredito que estão mais seguros do que aqui. A saudade deles acaba comigo dia após dia, mas não podia arriscar-lhes a vida. E não quero minhas meninas numa Hogwarts sem Dumbledore e cheia daquela gentinha mandando por lá. Na verdade, eu acho que nem você devia voltar; o que acha, August?
- Angus, concordo com você, e eu e Raven conversamos sobre isso. Porém, ela é maior de idade, já pode tomar suas próprias decisões, e a dela foi voltar. Não é verdade, filha?
- Sim, Tio Angus, foi o que escolhi – respondi, encarando um escocês descontente – Sei que Hogwarts poderá, como o senhor mesmo disse, se encher daquela gentinha, mas também pode ser um foco de resistência. Não tenho formação para auror, nem estratégias de combate, mas dentro da escola sempre há o que fazer, e meios de se fazer.
- Você fala como uma adulta, mas é apenas uma criança. Dezessete anos, não sabe nada da vida! – exclamou meu padrinho, sacudindo a cabeça com veemência – Maldito Voldemort, estragando suas vidas, precipitando vocês em situações que ainda não estão preparados para viver... Meus pequenos estão sem o pai; os três garotos mais velhos me deram um trabalho imenso para irem para a Índia. Albert e Gibson só concordaram em ir porque argumentei que cabia a eles a segurança da madrasta e dos pequenos. Francis, porém, aquele cabeça dura, recusou-se terminantemente a ir; atirou-me à cara sua maioridade e determinou que ficaria de qualquer jeito para lutar contra aqueles porcos. É claro que, como homem, me orgulho muito dessa atitude; mas, como pai, ela me enlouquece.
- Eu não esperaria outra coisa de seus meninos, Angus – comentou Tio Augie, batendo uma brasa da lareira que lhe queimava a barra da calça – Afinal de contas, você os criou para que serem homens.
- E Urganda? Está na Índia, também? Ela se casou mesmo? – perguntei, apalpando meu pacote.
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