Tios - Final
O escocês suspirou novamente e torceu a boina entre as mãos.
- Sim, filha, casou-se com Pierre, aquele canadense insistente. Nunca imaginei que Urganda me daria tanto trabalho. Maior de idade, também, agiu exatamente como os irmãos: queria ficar para lutar. É claro que me opus terminantemente, discutimos por dias, cheguei a querer lançar-lhe uma Imperius para que me obedecesse e seguisse Lakshime e as crianças. A única forma de sossegar Urganda então foi aceitar o pedido de Pierre, também preocupado com ela, reconheço, de se casarem e irem viver no Canadá. Assim, antes perder a filha momentaneamente do que me arriscar a perdê-la definitivamente... Nesse pacote estão as fotos do casamento e algumas coisas que ela separou para você. Peço perdão, filha, por não ter vindo buscá-la para a cerimônia, que aconteceu no castelo mesmo e foi extremamente simples, contando só com os meus e os pais de Pierre. Porém, se Deus quiser, quando Aquele Vagabundo for destruído, darei à Urganda o casamento que merece, ainda que aquele sujeito não mereça a minha filha – emendou, num arroubo de ciúme paternal que arrancou um sorriso meu e de Tio Augie.
- Imagino como você deve se sentir, meu caro... Família dispersa, um filho disposto a se arriscar pela causa... – comentou meu tio, compungido.
- Coisas da vida, meu velho. O que não se pode é deixar de lutar.
- Angus, eu sei que meu azar me torna meio desqualificado para combate, mas, caso precise de algum auxilio meu, pode me recrutar – completou Tio Augie, solene.
- E a mim também – emendei, séria.
- Você? – retrucou meu padrinho imediatamente – Você vai tratar de sossegar em Hogwarts e não se meter em combates abertos, está ouvindo? Sei que a semente de Alexander Sinclair pulsa em seu sangue, Raven, mas você vai me prometer moderar seus ímpetos e olhar bem onde anda!
- Mas, Tio Angus, eu...
- Mas coisa nenhuma, mocinha – ele devolveu, apontando em minha direção – Você é como minha filha e, pela expressão de August, ele concorda comigo. Pelo amor de Deus, obedeça. Pensa que não fico louco em saber que você pertence à Sonserina? Que convive diretamente com aquela gentalha? Fora... fora aquele... aquele assassino filho da p... Raven, Raven, me ouça – e agora Tio Angus me segurava pelos ombros – fique longe de Severus Snape, está me ouvindo? Longe! Não lhe dirija a palavra, não lhe dê atenção, sequer olhe em sua direção! Jure para mim que você fará isso, filha!
- Mas, tio Angus, eu nem sei se ele voltou a Hogwarts depois do que... aconteceu...
- Aquele cretino do Snape é capaz de qualquer coisa, Raven! – cortou Tio Angus – Ele é um porco Comensal da Morte e, provavelmente, o queridinho do Maldito; você precisa evitá-lo a qualquer custo! Jure que você não se aproximará dele de forma alguma, Raven! Jure! Não sossegarei enquanto você não jurar!
Uma onda de pânico tomou conta de mim; tratava-se apenas de meu segundo pai me pedindo para jurar contra o Senhor de Meu Coração! Apavorada, olhei na direção de Tio Augie, que assistia a tudo bastante apreensivo.
- Calma, Angus; assim você assusta a menina – disse meu tio, erguendo-se e tocando ombro de meu padrinho de forma conciliadora – Sua preocupação é compreensível, também a partilho, mas não será pressionando Raven que você fará o melhor para ela. Apesar de minha irmã Stella dizer o contrário, Raven tem discernimento e saberá o que fazer em relação aos colegas de Casa e a Snape. Mesmo porque, Angus, se ele retornar a Hogwarts, deverá dar aulas para Raven, e ela não poderá confrontá-lo diretamente; tolerar-lhe a presença não significa juntar-se a ele. E, se Raven tivesse alguma tendência Comensal, em seis anos de Sonserina ela já teria se manifestado. Pense nisso, meu amigo.
Tio Angus me fitou, afagou-me o cabelo e beijou-me a testa.
- Querida, perdoe este escocês estúpido... Tudo isso tem me deixado meio descontrolado. O medo que tenho de perder você é igual ao que tenho de perder meus filhos, por isso me excedi...
- Sem problema, tio, sem problema – respondi, prendendo-lhe a mão entre as minhas – Eu entendi.
- E a família de sua mãe, filha? Estão todos seguros? Sabem o que está acontecendo?
- Bem, Tio Angus, tenho pouco contato com eles desde que mamãe morreu; não é do agrado dos Herrera ter uma bruxa na família. A única pessoa com quem realmente convivo é Tia Maria, para quem enviei uma carta ao estilo trouxa justificando minha ausência nas férias e também para explicar o que ocorre em nosso mundo bruxo e as conseqüências disso. Creio que ela compreendeu.
- Muito bem, filha – disse Tio Angus, apertando minha mão. E, dirigindo-se a Tio Augie, perguntou: Que horas são, August?
- Já deve passar das oito da noite. Fique conosco para o jantar, Raven fez creme de abóbora.
- Obrigado, mas preciso ir. Francis está sozinho no pub e não poso deixá-lo a mercê daqueles porcos – exclamou meu padrinho, erguendo-se e colocando sua boina – Fique com Deus, filha; cuide bem da minha menina, August – exclamou, apertando com firmeza a mão de Tio Augie.
Nós o acompanhamos até a entrada do galpão.
- Tio Angus, só de curiosidade... Os Comensais bebem no seu pub? – perguntei.
- Infelizmente sim, filha, e mais infelizmente ainda eu não poder me aproveitar disso para envenená-los.
- Compreendo... E o que o senhor faz com o dinheiro com que eles pagam a conta?
- Eu faço o óbvio, filha querida. Eu queimo tudo e espalho as cinzas.
Abri um sorriso divertido, enquanto o escocês desaparatava. Aquele era meu Tio Angus...
No comments:
Post a Comment