Friday, November 07, 2008

Laços - Parte 1



Desde que chegara a Londres, aquela era a primeira vez em que ele via o céu claro. O sol brilhava forte e estava um pouco abafado. Ele já tirara a jaqueta com que saíra de casa e arregaçara as mangas da camisa de algodão. Estava agora sentado em um banco de parque, observando não muito longe um vendedor de sorvetes.

A idéia de tomar algo gelado não era de toda ruim. Contudo, ele saíra de casa sem avisar a ninguém e não trouxera consigo qualquer dinheiro.

Bem, não é como se ele tivesse planejado andar tanto. Quando enxergara o dia bonito que fazia lá fora através de sua janela, ele simplesmente soubera que tinha de sair. Precisava de um pouco de ar. Precisava esvaziar, nem que fosse apenas por algumas horas, tudo o que pesava em sua cabeça.

Ele se deitou no banco, os braços cruzados atrás da cabeça. Se estivesse em casa, na Grécia, àquela hora, estaria certamente na praia, juntamente com Leda, Ariadne e Órion, mergulhando ou talvez sentado na areia, debaixo de um guarda-sol, conversando qualquer besteira, talvez roubando alguns beijos da gêmea mais velha, lábios sabor de morango por causa do picolé de pouco antes.

Kyle deu um meio sorriso ao refletir sobre tudo isso. Ele poderia voltar. Poderia fingir que nada daquilo que tinha descoberto existia... Poderia ser a pessoa que sempre fora, despreocupada, feliz...

O rapaz cerrou os olhos, o sorriso tornando-se melancólico. Não se pode fugir ao destino. Ele aprendera isso desde cedo. Mesmo que ele voltasse para a Grécia com a mãe, os acontecimentos que se tinham precipitado desde sua chegada à Inglaterra acabariam por alcançá-los mesmo lá.

Seria apenas uma questão de tempo.

Mais alguns minutos se passaram antes de ele se levantar, jogando a jaqueta sobre o ombro. Em algumas semanas, ele estaria partindo para a Escola de Magia e Bruxaria de Hogwarts. Por conta das novas políticas do Ministério da Magia, ele se vira obrigado a se matricular na escola.

Antes disso, porém, ele tinha contas para acertar com o passado. Antes de partir... precisava ver a mãe.

*****


Lucy Renfield colocou a chaleira no fogão, acendendo-o para preparar um chá. Embora já passasse, em muito, a hora do almoço, ela não sentia fome. Jack Mercury e o sobrinho tinham saído juntos bem cedo, para resolver alguns assuntos. Como o homem não entrou em detalhes, apenas comunicando a Lucy que estariam de volta apenas no fim do dia, ela preferiu não perguntar nada.Aquilo não era assunto dela.

Jack já fazia muito deixando que ela permanecesse na casa dele por tanto tempo. Além disso, com um pouco de sorte, ela estaria fora do país, com o filho, nos próximos dias. Era apenas uma questão de conseguir se reaproximar de Kyle. Ela não desejava ficar na Inglaterra, não com a situação piorando quase a olhos vistos.

Tudo o que ela queria era levar o filho de volta para casa. Para um lugar seguro, onde Ludovic não os pudesse descobrir e alcançar.

Lucy foi resgatada de seus pensamentos ao escutar o som da campainha, insistente, na porta de entrada. Pegou a varinha que deixara em cima da mesa. Jack fora bastante explícito para que ela tomasse cuidado, mesmo Notting Hill sendo um bairro trouxa, mesmo apenas Frida e os mais próximos saberem que ele a hospedara ali.

Ela desceu a escada que ligava a casa de Mercury à sua loja. A mulher sentiu o coração disparar ao perceber que o vulto que estava parado diante da vitrine era Kyle. Ela saiu correndo, sem pensar sobre o que fazia. Destrancando a porta de entrada, ela a abriu com ansiedade e pressa.

- Filho? – ela murmurou, observando o rapazinho.

Ele a observou em silêncio por alguns instantes, parecendo um tanto hesitante.

- Eu posso entrar?

- Claro. – ela respondeu, refreando o desejo de abraçá-lo ao perceber que Kyle ainda parecia um pouco reticente.

Os dois percorreram todo o espaço da loja de Jack Mercury em silêncio, Lucy na frente, e o filho logo atrás. A mulher apenas voltou a falar quando chegaram à sala de estar.

- Estava preparando um chá para mim pouco antes de você chegar. Também quer? – ela disse, tentando aparentar calma, apesar do imenso nervosismo que sentia, afinal, era a primeira vez que de fato conversava com Kyle desde a noite em que ele descobrira a verdade sobre sua concepção.

Kyle apenas assentiu, sentando-se quando ela indicou o sofá, antes de sumir na direção da cozinha. Em silêncio, ele esperou pela volta da mãe, enquanto sua mente registrava cada detalhe da sala de estar - as fotos, os quadros, os pôsteres de filmes antigos. Aquela era uma boa maneira de desviar a mente do problema que tinha em mãos - perder-se na observação desinteressada do meio.

Não demorou muito para que Lucy voltasse, depositando uma xícara na frente dele, antes de também se sentar, observando-o com atenção. Ele respirou fundo antes de fixar os orbes verdes sobre a mãe.

- Eu me matriculei em Hogwarts. - ele começou, um tanto abruptamente.

- Se matriculou? Como assim você se matriculou? - ela balbuciou, nervosa, tentando digerir aquela notícia, tentando compreender o que exatamente teria levado o filho a tomar aquela atitude.

- Foi uma decisão do Ministério. Todos em idade escolar são obrigados a irem para Hogwarts agora. - Kyle respondeu - Eu não tive muita escolha. Eles já sabiam que eu estava aqui, de uma maneira ou de outra. Me disseram que existe um feitiço ou alguma coisa do tipo que faz com que eles possam nos localizar enquanto somos menores de idade.

Lucy levantou a mão colocando-a sobre os olhos. Em parte aquilo havia sido culpa dela. Quando viera para a Inglaterra, não tinha conhecimento do fato de que os comensais já haverem tomado o Ministério. Ela entrara no país com seus documentos bruxos, e, entre os dados, estava o fato de que ela tinha um filho. Ela dissera com todas as letras na alfândega que havia vindo apenas buscar o filho que estava de "férias" no país. Embora, parte daquela obrigatoriedade de Kyle se matricular em Hogwarts não fizesse sentido, pois ele, tecnicamente era cidadão grego. Ela, contudo, sabia que, considerando quem mandava agora, explicações racionais e legais não tinham a mesma validade de antes.

A mulher levantou-se de supetão, sentindo que não poderia ficar parada, a espera que mais uma tragédia ocorresse em sua vida.

- Nós vamos embora hoje à noite. – ela disse, de modo quase frenético – Pelo pouco que eu sei, Jack ajuda pessoas em situação semelhante à nossa. Ele vai nos arrumar documentos trouxas... Nós vamos embora, eu vou te tirar daqui... eu não vou deixar que... eunão posso deixar que...

Kyle também se levantou, segurando-a pelo pulso e, para completa surpresa da mulher, abraçando-a com força. Apesar da idade, ele era bem mais alto que ela, de modo que ela se pegou com a cabeça apoiada contra o peito do rapaz.

- Kyle...

- Eu sinto muito. - ele murmurou com a voz quase sumida - Sinto muito, materas.

Lucy correspondeu ao abraço do filho com a mesma intensidade, parte do coração dela aliviado por novamente ter seu menino em seus braços. Ela sentiu as lágrimas descerem quentes pelo seu rosto.

- Você não tem que pedir desculpas, Kyle. Eu devia ter te contado a verdade antes. Mas eu não tive coragem, eu queria te proteger, mas acabei piorando tudo. Eu queria apenas nos proteger

- Eu sei disso agora. - ele respondeu - Mas, mãe... eu não vou voltar para a Grécia.

Ele se soltou dela, encarando-a com seriedade.

- Não! - ela quase gritou, o pânico expresso em cada uma das linhas do rosto dela.

Um medo tão terrível que ele nunca antes vira não apenas na mãe, mas em ninguém que conhecia. O mais próximo daquilo foi a expressão de urgência que Meridiana manifestara na primeira vez que conversaram. Contudo, a visão que tinha agora era muito mais forte e aflitiva.

- Você tem que ir embora... nós temos que ir. Você não entende? Eu não posso deixar que ele saiba sobre você... não posso... eu não posso deixar que ele nos encontre.

Kyle meneou a cabeça.

- Mãe... você não se lembra do que a madrinha dizia? Voltar não vai adiantar mais. - ele suspirou, dando um passo para trás - Não podemos fugir da roda do destino. Se voltarmos, poderemos adiar as coisas... mas elas acabarão nos alcançando. - abaixando a cabeça, ele se lembrou do estado em que Meridiana chegara ao apartamento de Frida - E o que poderá acontecer com nossa vila então?

Lucy sentiu um espasmo involuntário percorrer por todo o corpo, tentando não imaginar o que Ludovic poderia fazer com qualquer pessoa que se interpusesse entre ele e sua "família".

- Eu não me importaria em adiar, Kyle, não se eu pudesse ganhar outros quinze anos de felicidade. Entretanto, se o preço para isso resultar no sofrimento das pessoas da vila, que me acolheram como parte daquele lugar, eu não poderia pagar. Mas, eu não posso deixar que ele se aproxime de você, por favor, não me peça isso.

- É inevitável – ele respondeu, meneando a cabeça de modo melancólico. – Se ele for como vocês todos dizem, ele vai me achar.

- Você... você tem razão – ela aceitou, por fim, deixando que um suspiro doloroso lhe escapasse pelos lábios. Ela conhecera a obsessão e determinação de Ludovic. Ele iria até o fim do mundo e além para encontrá-los.

- Eu preciso ir agora. - Kyle disse - Eu saí sem avisar a ninguém.

A mulher segurou a mão do filho por alguns segundos, relutante em deixa-lo partir, contudo, ela sabia que Frida e os demais deveriam estar preocupados com a ausência de Kyle. E, principalmente, ela sentia que, apesar da iniciativa daquela reaproximação ter partido do rapaz, ele ainda não estava completamente preparado para voltarem aos antigos termos de seu relacionamento. O filho ainda precisava de um tempo para si.

- Tudo bem. – ela desvencilhou-se dele aos poucos – Vá e tome cuidado... me ligue avisando que chegou bem. Volte quando quiser também, ainda temos muito que conversar. – ela fez uma pausa antes de prosseguir – E não se esqueça, você é meu filho. Meu. Eu te amo e sempre vou amar.

Ele deu um meio sorriso, assentindo.

- Eu sei disso, mamãe. - Kyle respondeu, deixando transpirar afeto na voz - Eu também amo você.

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