Not Alone
Parada na bifurcação que ligava o corredor à sala de estar, Adhara observava quietamente Meridiana despedir-se do namorado à porta de entrada. A ruivinha havia tido alta do St. Mungus naquela manhã e acabado de chegar ao apartamento de Frida.
Kamus Ivory estava ocupado no ministério, como sempre, e Frida tivera que sair com Kyle naquela manhã para resolver alguns assuntos, fato pelo qual Adhara até sentia-se grata. A prima ainda não sabia nada sobre o filho de Ludovic, e a sonserina acreditava que seria melhor ter Meridiana já tranqüila e instalada antes de tratarem de um assunto assim tão delicado.
Estando os adultos todos ocupados, Adhara foi designada para ir buscar Meridiana no hospital, bem como entregar à garota o pergaminho escrito do pulso de Kamus, no qual ele revelava a localização do apartamento.
Havia pego o metrô trouxa para ir até o St. Mungus, e acabaram voltando pela mesma condução, visto que o único entre eles que tinha licença para aparatar era Lucien. O lufano havia se oferecido para acompanhá-las.
Na verdade, agora que parava para pensar, Adhara constatava que o rapaz estivera ao lado de Meridiana em todas as vezes que a visitara no hospital. Ele parecia ser extremamente dedicado à ruiva.
E a adoração de Meridiana pelo namorado também era palpável nos olhos esmeraldinos da moça. Ambos pareciam estar em uma sintonia mais que perfeita aos desejos do outro, até pareciam ser um casal há muito mais tempo do que verdadeiramente eram.
De longe ela viu Lucien beijar carinhosamente a testa de Meri e abraçá-la pela última vez antes que a ruivinha abrisse a porta para ele.
O austríaco ainda foi cortês o suficiente para acenar para Adhara antes de partir.
A grifinória fechou a porta e virou-se então para a prima, com uma expressão mais serena em sua face, e Adhara sentiu-se intimamente satisfeita em ver como a ruiva melhorara nos últimos dias.
Meridiana fitou a outra jovem, percebendo algo que ela já havia notado no hospital, mas que parecia mais claro agora que estavam completamente sozinhas pela primeira vez desde que ela retornara. A expressão de Adhara era bem mais suave que aquela que Meri guardava em sua memória. Como em todos os demais, os fatos dos últimos meses também se refletiram em sua prima.
- Você mudou. – a ruiva disse, de maneira suave. – Todos mudaram um pouco.
Adhara esboçou um sorriso diante daquilo, reconhecendo que a conclusão de Meri era a mais pura verdade. Realmente, ela sentia-se mudada por dentro... Mais centrada e serena, talvez até mais madura. E ela podia ver um brilho semelhante de mudança impresso no fundo dos olhos de Meri.
Tivera tato o suficiente durante suas visitas à prima no St. Mungus para não mencionar o seqüestro e nem perguntar nada à Meri sobre os dois meses que a ruivinha passara com Ludovic, afinal já conhecia o comensal o suficiente para saber na própria pele que nenhum encontro com ele poderia resultar em uma experiência prazerosa.
Meridiana deveria ter passado pelo maior trauma de sua vida durante aqueles meses, e, com a presença de Kyle ali, algumas revelações um tanto difíceis ocorreriam logo mais... Da parte de Adhara, o que pudesse fazer para distrair a prima e fazer com que a ruivinha se sentisse à vontade antes disso, ela faria.
- Você diz isso porque ainda não viu o meu pai. – a sonserina respondeu, com um tom levemente maroto – Ali sim, a metamorfose foi assombrosa.
Meridiana arqueou a sobrancelha, curiosa. Era verdade que o padrinho foi uma das primeiras pessoas que ela viu depois que conseguiu escapar, mas, não notara uma mudança tão drástica quanto Adhara deixava a entender.
- Como assim? – ela perguntou, afastando-se da porta, caminhando em direção à prima, e parando diante da morena com os braços cruzados.
Adhara encarou a outra garota com benevolência.
- Vamos comer alguma coisa e eu te conto as novidades. – disse ela, chamando a prima para segui-la até a cozinha.
Meri sentou-se na ponta da mesa, observando a desenvoltura com que Adhara abria a geladeira e separava os ingredientes que ela supunha seriam usados como recheios de sanduíches. Era surpreendente imaginar que, cerca de alguns meses atrás, aquela mesma garota mal sabia como segurar uma faca para cortar legumes e chegara a perguntar como se "media o tamanho" que se desejava cortar.
Realmente, as coisas haviam mudado muito mais do que poderia imaginar.
Depois de praticamente esvaziar toda a geladeira, Adhara sentou-se defronte a Meri, abrindo um pacote de pão e depositando-o no prato da ruiva.
- E então? – Meridiana perguntou novamente – O que você quis dizer quando falou que o Sr. Ivory sofreu uma metamorfose?
A sonserina sorriu levemente enquanto se sentava, apanhando duas fatias de pão e a faca.
- Ah, não é algo que você nota assim, só de olhar. – ela começou a explicar enquanto passava patê no pão – Mas eu tive uma longa conversa com ele depois que cheguei de Edimburgo... – e então apanhou dois tipos de queijo e salame para colocar sobre o pão – E ele parece estar bem mais... Empático. – por fim, ela juntou a segunda fatia e fechou o sanduíche, empurrando o prato na direção da ruiva.
- Empático? – Meridiana repetiu a última palavra da prima tentando imaginar exatamente como o termo poderia ser aplicado ao padrinho, para logo em seguida, dar uma mordida no sanduíche, constatando, que estava realmente delicioso - e não pensava aquilo por ter passado os últimos dias a base de "comida de hospital".
Adhara anuiu, apanhando outras duas fatias de pão para começar a preparar um sanduíche para si própria.
- Ao que tudo indica, ele anda mais apto a ouvir outra pessoa que não seja ele mesmo. – nesse ponto ela levantou seus olhos para a prima – Não me entenda mal, eu gosto do meu pai. Só não gostava da maneira com que ele me tratava às vezes. Como se eu fosse sua subordinada... Ao invés de sua filha.
Meridiana sorriu ante as palavras da prima. Ela não convivera muito com o padrinho, mas, nas poucas vezes que viu Kamus e Adhara juntos, apesar de perceber que ele realmente amava a filha - especialmente durante o incidente do seqüestro da morena -, havia sempre uma formalidade, excessiva na opinião da ruiva, no modo como ele se relacionava com Adhara.
- Fico feliz que as coisas estejam se encaminhando bem entre vocês, Dhara.
A sonserina concordou silenciosamente e as garotas passaram os instantes seguintes apenas saboreando seus respectivos lanches, até que Adhara manifestou-se novamente.
- Mas essa não era exatamente a novidade que eu tinha para te contar. – diante do olhar curioso da ruivinha, ela continuou – O caso é que a sua tia, Frida, e o meu pai estão tendo um "relacionamento", como Kamus Ivory em pessoa escolheu classificar.
- Confesso que havia notado certa "clima" entre eles dois no feriado de Páscoa, mas, ainda assim, é uma notícia surpreendente. – ela respondeu, deixando o sorriso ampliar ainda mais. Como ela pensara na ocasião em que começou a suspeitar do relacionamento dos dois, se Frida estava feliz, ela também estaria.
- E essa ainda nem é a parte mais chocante. – a sonserina retomou a palavra, pegando Meri de surpresa – Frida está grávida. Parece que daqui uns sete meses eu estarei ganhando um irmão ou uma irmã.
Meridiana interrompeu em pleno ar a mordida que iria dar em seu sanduíche, encarando Adhara com os olhos arregalados e a boca parcialmente aberta. Aquilo, de fato, era uma notícia surpreendente. Assim como também era o modo como Adhara estava contando tudo aquilo, quase como se estivesse se divertindo com a situação.
A ruiva simplesmente continuou fitando a prima, incapaz de responder, esperando pela próxima revelação que a morena faria, e esta não demorou a vir:
- Ah, e o meu pai disse que você pode ir morar conosco no casarão, se quiser.
Dessa vez, Meridiana desviou o olhar, colocando o sanduíche de volta no prato, e sentindo-se ligeiramente melancólica. Ela ainda não pensara sobre para onde iria agora que não tinha mais o pai. Evitava pensar qualquer coisa que a lembrasse da morte de Nicholas.
- Eu não quero dar trabalho a vocês. – ela balbuciou sem olhar para a prima.
And I, don't know what to do, what to say, yeah
Adhara suspirou, deixando também seu sanduíche de lado. Talvez não devesse ter tocado naquele assunto... Ainda era cedo demais, Meri ainda deveria estar muito machucada pela morte tão abrupta do pai.
Podia compreender a dor que a prima estava sentindo: a incerteza por ter diante de si um pedaço tão importante de sua vida destruído além de qualquer chance de reparo... Podia até mesmo compreender a necessidade da ruiva de evitar pensar no que aconteceria a partir daquele momento...
So uncontrolable now they think I'm fake, yeah
Porque a própria Adhara estivera fazendo o mesmo desde que se encontrara com Ludovic durante a Páscoa, estivera evitando pensar no assunto. Mas sabia por experiência própria que apenas evitar não faria a dor ou o medo desaparecerem. Pelo contrário, faria com que caíssem como uma enxurrada quando se tornassem insuportáveis demais. E ela não queria que aquilo acontecesse com Meridiana.
- Você esteve na minha casa na última Páscoa, certo? – ela perguntou, com um tom suave – O lugar é enorme, tem montes de quartos que não são usados e os elfos vão ficar deleitados em ter mais gente para quem limpar e cozinhar.
Yeah my tired radio, keeps playing tired songs
And I know, that there's not long to go
When all I wanna do is just go home
Diante da falta de reações da ruivinha, Adhara estendeu uma de suas mãos sobre a mesa até alcançar a mão direita da prima, segurando-a com um aperto firme e, com isso, fazendo Meridiana levantar o rosto para fitá-la de forma um tanto surpresa.
- Você não vai ser um fardo, Meri. – afirmou a morena, usando uma voz segura e até um pouco severa – Você é da família. – completou.
- Obrigada... – ela disse a meio tom, mas com as orbes esmeralda presos aos olhos azuis escuros da prima.
But I'm not alone, no no no no
A ruivinha deixou um sorriso sincero, ainda que levemente melancólico, tomar conta de seu rosto, compreendo o peso do significado das palavras de Adhara. A prima tinha razão. Apesar de tudo o que passara, de tudo o que ela perdera por causa de Ludovic, ela tinha uma família que amava. E saber disso era um bálsamo para as feridas que ainda cicatrizam em sua alma
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