Tuesday, August 19, 2008

Amargo Regresso


Frida caminhava a passos firmes tendo Kyle O'Neil ao seu lado. O rapaz estava com as mãos praticamente enterradas nos bolsos da calça jeans que usava. Ele caminhava cabisbaixo, tentando não fitar a mulher ao seu lado, concentrando quase toda a atenção para os tênis de lona vermelhos que usava.

-Você não precisa falar com ela - Frida repetiu - Eu prometi a você que só falaria com sua mãe quando desejasse, mas ela atravessou um continente inteiro para saber como você está. O mínimo que eu poderia fazer era permitir que ela o visse.

Kyle assentiu em um pequeno resmungo. Ele compreendia as razões de Frida, ainda assim, não queria ver Cassandra...ou melhor, Lucy. Kyle reconhecia que estava sendo infantil e egoísta, mas ele se sentia tão ferido, tão machucado e enganado que se via compelido a ferir a mãe do mesmo modo. Era algo que estava além do controle dele.

Os dois pararam em um parque, próximo da Ponte de Londres. Os olhos verdes de Kyle recaíram imediatamente sobre uma mulher que estava encostada na amurada. Mesmo com o clima ameno, ela abraçava o próprio corpo. Ela ainda tinha os mesmos cabelos negros e orbes azuis que ele conhecia desde a tenra infância. Olhos que agora o observavam com um misto de ansiedade, alívio e culpa.

Por um ínfimo momento, ele se sentiu compelido a abraçar a mãe, mas não foi capaz de cruzar a distância que os separava. Ao invés disso, sentou-se no banco que Frida lhe indicara, evitando olhar para onde Lucy se encontrava.

A polonesa caminhou a passos firmes em direção à outra mulher. Olheiras escuras eram visíveis sob os olhos de Lucy. Ela provavelmente não tinha uma noite de sono decente desde que o filho desaparecera da Grécia.

-Olá, Lucy - Frida cumprimentou.

-Obrigada por vir - ela balbuciou.

-Você viajou muito para chegar aqui, eu não poderia ter feito menos do que vir vê-la - a loira respondeu, de modo suave.

Lucy deu um meio sorriso em agradecimento.

-Ele me odeia, não é? - ela perguntou, sem esconder a melancolia na entonação.

Frida aproximou-se da outra, segurando a mão da morena, tentando, assim, conforta-la.

-Ele não te odeia, Lucy. Apenas são coisas demais para Kyle assimilar em tão pouco tempo. Ele vai acabar descobrindo por si só quem realmente é Ludovic e os motivos que levaram você a mentir e protege-lo.

Lucy meneou a cabeça, abaixando o rosto, olhando em direção às águas escuras do Tamisa.

-Eu fui mais egoísta do que você supõe, Frida - ela disse, pesarosa - Parte de mim mentiu simplesmente porque ser Cassandra O'Neil era menos doloroso que ser Lucy Reinfield. Eu posso ter mentido para proteger Kyle, mas também fiz isso para salvaguardar a mim mesma.

A polonesa abaixou o rosto, se lembrando de uma noite, muitos anos atrás, quando era ela o objeto de obsessão do ex-cunhado. O modo como ele a emboscara e a atacara, refreando-se de toma-la para si apenas porque desejava provar a Frida que a "amava". Ela ainda sentia ânsias ao lembrar do fato, mesmo depois de todos aqueles anos, apesar de todas as lembranças sombrias que o passado dela guardava. Poderia ser ela e não Lucy a estar parada naquele parque, remoendo o período que estivera sob o jugo do ruivo.

-Eu não a culpo - a polonesa disse - eu realmente não a culpo, Lucy. Eu sei do que Ludovic é capaz, e, se fosse eu no seu lugar, talvez eu tentasse também apagar a minha vida e inventar outra nova para mim. Uma em que a perfídia daquele homem nunca tocou.

A morena finalmente levantou o rosto, voltando a encarar Frida, com uma expressão mais leve e também grata.

-Sabe...foi aqui que ele capturou Elizabeth... - Lucy retomou a palavra - Por isso marquei o encontro neste local. Eu queria...queria...não sei...talvez enfrentar um pouco do meu passado, dos erros que ele me forçou a cometer... Precisava fazer isso pelo meu filho. Eu amo Kyle, mesmo não amando o pai dele. Foi a única coisa boa que Ludovic me deu, e, por meu filho, eu passaria por todo aquele inferno novamente.

Frida assentiu, levando inconscientemente a mão no próprio ventre. Ela compreendia plenamente as palavras de Lucy, pois, pelo bebê que trazia dentro de si, ela seria capaz de qualquer sacrifício...e também por Meridiana, a quem aprendera a amar como uma filha...e sabia que, algum dia, sentiria o mesmo pela filha de Kamus.

Contudo, o que mais impressionara à Frida era a determinação escondida sob as trêmulas palavras de Lucy. Havia muito mais sob a casca de fragilidade que a morena mostrava. Uma força que parecia estar dormente sob camadas de medo e culpa. Entretanto, Lucy sobrevivera a Ludovic, recomeçara a vida dela, e, aquilo já bastava para saber o quão forte ela era.

-Eu não vou embora da Inglaterra sem Kyle - Lucy disse, depois de alguns minutos de silêncio.

-Eu sei disso - Frida concordou - Mas, levá-lo embora agora, contra a vontade dele, será bem pior. A minha recomendação é você ficar aqui na Inglaterra, até as coisas se assentarem.

A polonesa abriu a bolsa, retirando de lá um bloco de anotações, onde ela rabiscou um nome e um endereço.

-Basta que você procure Jack Mercury.

-Jack Mercury? - Lucy levantou a sobrancelha, ligeiramente surpresa. Ela conhecera muito brevemente o homem antes de sair em exílio. - O amigo trouxa de Nicholas Johnson?

Frida anuiu.

-Desde a morte de Nick, ele tem me auxiliado a abrigar e encaminhar pessoas que desejem "viajar para fora do país" sem passarem pela burocracia do Ministério. Meios trouxas são um modo interessante de burlar os seguidores do Lorde, pois eles os desprezam. Jack tem um sobrinho bruxo, amigo de Meridiana.

- A menina de Betsy - a morena falou, assentindo ao mesmo tempo que percebia a urgência de sanar aquela dúvida - Vocês a encontraram? Ela está bem?

-Está, dentro do possível. - Frida respondeu, percebendo um suspiro aliviado escapar pelos lábios de Lucy - No momento, estão buscando ela no hospital e levando para meu apartamento.

-Então você precisa ir, não é? - ela perguntou, pousando o olhar no filho, que continuava sentado no banco, cabisbaixo.

Frida olhou na mesma direção que a outra mulher.

-Eu vou apresenta-la a Kyle hoje. Ela ainda não sabe...mas, conheço minha sobrinha, não creio que ela vá rechaçar o primo por causa de Ludovic. E, talvez, conversar com Meridiana possa ajuda-lo a compreender o que você passou, Lucy.

Lucy assentiu, agradecendo a outra por toda a ajuda e despedindo-se. Enquanto a polonesa se afastava mais e mais tendo o Kyle ao seu lado, a morena, sem despregar os olhos dos dois, apertou com força, entre os dedos, o papel com o endereço de Mercury que Frida lhe entregara, pensando consigo que estava de volta ao país que jurara jamais retornar.

Ela percebeu que não havia como escapar do passado que tanto negara. Apesar de todo o medo que sentia, não tinha mais escolha a não ser enfrenta-lo. Por Kyle, e quem sabe por ela própria.

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