Two of Kind
O Heathrow estava cheio, apesar da hora avançada. Não à toa. Aquele era o aeroporto de maior circulação de passageiros internacionais do mundo. E ele, ali, era apenas mais um deles.
A oficial da alfândega deu uma última olhada em seus documentos, desconfiada, antes de carimbá-los. Ela podia até achar estranha a data de nascimento no passaporte, contrastada com a aparência dele, mas jamais conseguiria perceber o que ele fizera nos documentos de Achernar - afinal, a não ser que a alfândega inglesa possuísse algum equipamento detector de magia, nem mesmo o olho trouxa mais bem treinado seria capaz de descobrir sua falsificação.
Finalmente, a mulher o liberou e, levando sua única valise, o rapaz deixou o saguão do aeroporto para trás. Logo, ele estava olhando para o céu de Londres.
Era diferente de seu lar. Ali, as luzes da cidade e a poluição formavam um véu permanente a cobrir as estrelas. Tecnologia trouxa, hã? O que haveria de tão inteligente em destruir tudo a sua volta para depois tentar consertar as coisas e deixar tudo com a perfeição da artificialidade?
- Idiotas. - Kyle resmungou baixinho, voltando a caminhar.
Um taxista tentou chamar sua atenção. Ele simplesmente ignorou o homem, passando reto por ele, sem se dignar sequer a olhá-lo. Ele tinha apenas um nome, não um endereço. Duvidava que qualquer taxista londrino pudesse lhe dizer onde encontrar Black-Thorne. E, mesmo que ele soubesse como chegar até aquela pessoa, no momento, ele não estava interessado em se anunciar.
O sangue ainda latejava em seus ouvidos ao pensar em tudo o que descobrira. Passara os últimos 15 anos vivendo uma mentira. Agora era a hora de encontrar algumas respostas.
Ainda que para encontrá-las tivesse que trilhar o caminho mais sombrio.
A ruiva fitava o chão abaixo de si, mal sustentando o tronco com os braços semi-adormecidos. O pouco do que sobrara de seus cachos estava grudado em seu rosto, empapado de suor. Se ele lançasse o Tripallium novamente, ela iria perder a consciência... de novo. Mesmo a maldição sendo uma variação mais suave do Cruciatus, ela ainda era bastante dolorosa.
O comensal abaixou-se até a altura da menina encurvada, segurando-lhe o queixo com a ponta dos dedos e erguendo-lhe o rosto até que seus olhos se encontrassem.
-Até quando, Meri, você vai fingir não escutar o chamado do sangue? Até quando vai resistir? Estamos nesse jogo desde que chegou aqui. Já não é hora de você perceber a inutilidade de suas ações?
Meridiana não respondeu, continuou fitando Ludovic. Seus olhos eram de um ódio gélido e penetrante.O comensal levantou-se, limpando a poeira que aderira à calça quando se ajoelhou.
-Por que, sobrinha, você me obriga a fazer essas coisas com você? Por que me faz tomar medidas tão extremas para extirpar esse seu lado trouxa que te contamina?
-Se sou um caso perdido, tio, por que você não desiste de uma vez? Por que perde tempo comigo? Tenho certeza que o seu mestre tem missões mais importantes para ocupa-lo.
-É nosso mestre, querida. E você, sobrinha, não é uma missão. É um prêmio que o Lorde me concedeu pelos excelentes serviços prestados a ele no último ano. Posso dispor meu tempo livre te educando graças à benevolência de meu senhor. E você, meu anjo, não é um caso perdido. Nunca desistirei de você, afinal, é a filha de minha irmã, e meu amor por você é infinito.
A jovem feiticeira pensou em argumentar, mas desistiu. Não adiantava debater com Ludovic. O tio era completamente insano. Nada do que a sobrinha dissesse faria com que a visão distorcida que ele tinha do mundo se alterasse.
O comensal afagou os cabelos da sobrinha, dizendo:
-Infelizmente tenho que partir, minha pequena aprendiz. Tenho trabalho a fazer. Voltarei o mais breve possível, querida.
Ludovic encaminhou-se até um ponto específico do aposento, postando a mão sobre a parede. O local se dissolveu, permitindo a passagem do comensal, tornando-se rocha sólida em seguida. Meridiana tentara muitas e muitas vezes descobrir como o tio fazia aquilo, mas não conseguiu chegar a nenhuma conclusão.
O local onde a ruiva estava presa era relativamente amplo. Uma sala arredondada, envolta por uma lisa e maciça parede de pedra. Não havia portas nem janelas, a não ser uma pequena abertura no teto, que permitia a entrada de ar. Tudo era iluminado por archotes, e a menina não tinha noção de quando era noite ou dia.
Ludovic preparara o lugar com esmero. Havia uma cama macia para Meridiana dormir. Uma mesa para ela fazer as refeições diárias. Um guarda-roupa com peças limpas, e até mesmo um chuveiro e uma banheira para que ela pudesse se lavar. Tudo dividindo o mesmo espaço.
Quem cuidava de tudo aquilo, Meridiana não sabia precisar. Não poderiam ser elfos domésticos, porque ela os teria visto. Talvez os próprios móveis, roupas e talheres se auto-regulassem para se tornarem sempre reutilizáveis pela menina.
Ludovic também providenciara livros -todos de artes das trevas, obviamente- para distrair a sobrinha em sua ausência.
Ainda assim, apesar desse pretenso conforto, aquilo era uma prisão. E qualquer um daqueles mimos, como o comensal costumava chama-los, não era o suficiente para compensar as sessões de tortura a que submetia a sobrinha.
Meridiana levantou-se do chão frio, dirigindo-se até a banheira. Largou as roupas no chão de qualquer jeito, fechando a cortina que rodeava a banheira ao redor de si. Abriu o chuveiro, deixando que a água morna caísse sobre seu corpo, amenizando, ainda que pouco as dores que sentia.
Deixou-se ficar assim, estática, sentado no fundo da banheira enquanto ela se enchia. Abraçou os joelhos e chorou como fazia todas as vezes que Ludovic se ausentava. À exceção do dia da morte de seu pai, Meridiana nunca mais derramou uma lágrima sequer na frente do tio. Nunca mais ela deixaria que ele a visse fraquejar.
A jovem bruxa passou a mão pelos cabelos molhados, agora bem curtos. Uma das primeiras coisas que o tio fizera foi cortar os longos cachos de Meridiana. Um indicativo de que ela estava começando vida nova, e também uma lição de combate, já que em lutas corpo a corpo, cabelos curtos eram mais práticos e minimizavam as vantagens dos inimigos. Palavras do comensal, enquanto passava a tesoura nas madeixas cor de fogo de Meri.
Meridiana fechou os olhos, tentando levar sua mente para longe dali. Mas o som irritante do pogrebim que Ludovic mantinha em uma gaiola dentro do cárcere da sobrinha não permitiu que ela escapasse através de seus pensamentos.
O animal mágico era um dos recursos que o comensal arrumara para tornar a sobrinha mais dócil, já que o pogrebim faz com que uma pessoa fique imersa em uma sensação de futilidade e não deseje fazer mais nada. Outro recurso eram as aplicações periódicas de injeções de secreção de besouro da melancolia. Em grandes doses, essa secreção induz a tristezas profundas, mas diluída, como o comensal utilizava em Meridiana, fazia com que ela entrasse em um estado de estupor durante horas seguidas.
A garota odiava tudo aquilo. Quanto ao pogrebim, parecia que ela havia se acostumado, pois ele não tinha mais efeito sobre Meri. Sua mente estava muito mais clara do que no dia em que chegara ali. Ou ela se tornara imune ao animal, ou o próprio pogrebim também estava cansado de ficar preso e desistira de usar seus poderes sobre a menina, o que era mais provável. Já as aplicações da secreção do besouro continuavam terrivelmente dolorosas.
Meri não sabia por quanto mais tempo suportaria viver daquela forma. Nunca iria se tornar uma comensal. Contudo, também não tinha mais esperanças de ser resgatada. Sabia que não iriam desistir de encontra-la, mas a sua prisão lhe parecia tão bem escondida, que chegava a duvidar que até mesmo o seu padrinho, Kamus Ivory, ou mesmo seu sogro, Alexis von Weizzelberg, a quem muito admirava as habilidades de aurores, fossem capazes de localiza-la.
A cada dia que passava ela chegava mais e mais ao seu limite...Precisava encontrar um modo de fugir dali...
Notas: O Lugui mandou mais dois presentes maravilhosos para a gente (esse menino nos mima ^^) Montagens estreladas por Dhara/Trowa e por Mina. Quem quiser conferir os presentes, basta clicar aqui
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