Wednesday, April 30, 2008

Blefe - Final


O italiano arqueou discretamente a sobrancelha, começando verdadeiramente a se interessar pelo que a mulher estava dizendo, contudo, permaneceu calado, deixando que ela prosseguisse livremente em suas explanações.

-Toda a minha situação desde o começo foi um grande mal-entendido. - Frida continuou, tentando imbuir uma pretensa sinceridade em cada uma de suas palavras.- È verdade que Aldebaran descobriu que eu o estava espionando, assim como é verdade que eu me dispus a agir como agente dupla. Mas fiz tudo isso para manter meu propósito inicial. Minha lealdade sempre permaneceu com o mestre.

-Se é assim, caríssima, - Jarno interrompeu - por que não falou isso ao Signor Oscuro na época? Ou por que esperou todo esse tempo, desde que voltou para a Inglaterra, para tentar se retratar?

Frida deu um sorriso insinuante para o conde, sabia que em algum momento perguntariam isso a ela, e já havia se preparado para dar aquelas respostas.

-Não é obvio? Simplesmente porque o mestre não acreditaria em mim se eu chegasse de mãos vazias. Por isso continuei fingindo estar do lado dos inimigos do Lorde, ganhando a confiança deles...Por isso me tornei amante de Kamus Ivory. Acredito que o chefe da subseção de Infiltrações, Busca e Apreensão do Departamento de Aurores seja uma presa mais interessante para nossa causa que um mero auror, como era meu falecido marido.

O italiano deixou seu sorriso felino se ampliar ante as palavras da mulher, se ela estivesse falando a verdade, teria que admitir que era um plano engenhoso.

-Se puder provar que tudo que diz é verdade, o Signor Oscuro ficará troppo contento.

A mulher assentiu, mantendo o sorriso discreto em seu rosto, embora por dentro a ansiedade parecesse querer crescer.

-Acredito que ele ficará mais que feliz, Camposanto - ela continuou - Segundo meus contatos, o Lorde deseja expandir seu domínio em toda a Europa e pretende ter os Ivory como aliados na Rússia. Foi por isso que Ludovic seqüestrou Adhara na última Páscoa, para entrega-la para a avó. A garota serviria como moeda no acordo, mas, infelizmente, as coisas não saíram como meu cunhado esperava.

Frida fez uma breve pausa antes de prosseguir. Agora vinha a parte mais difícil, revelar parcialmente uma das principais razões que a fizeram procurar Jarno.

-Um herdeiro da casa de Asterion é tudo que Betelgeuse precisa para reconquistar seu poder entre os Ivory e assim firmar a aliança com o Lorde. Pois se é isso que ela quer, é isso que ela terá. Eu estou grávida de Kamus.

Os olhos de Jarno se arregalaram momentaneamente. Apesar do conde estar mais que acostumado a guardar seus verdadeiros sentimentos por debaixo de sua aura maliciosa e sedutora, daquela vez foi realmente surpreendido.

-Tudo o que eu peço é que o mestre me dê o prazo de nove meses para que eu me apresente a ele. - ela continuou - Antes disso, podemos ter problemas com Kamus...prefiro que ele não desconfie de nada por enquanto. Assim que a criança nascer, volto ao seio dos seguidores do Lorde, e vocês podem entregar o bebê para Betelgeuse.

-São notícias excelentes, caríssima. - o conde disse, com inegável contentamento impresso na voz. - Tem minha palavra de que vou transmitir seu recado para o Signor Black-Thorne, e que faremos o possível para interceder por sua sorte junto ao Lorde.

Frida assentiu com um suave menear de cabeça, e, a passos leves, deixou a sacada. Agora que Camposanto não mais a observava, deixou que sua expressão revelasse toda a preocupação que a abatia nos últimos dias...Desde que descobrira a gravidez, desde que Meridiana foi seqüestrada...

Quando soube sobre a aliança entre Ludovic e Betelgeuse, seus temores ampliaram-se sobre o destino de sua criança...E, com o comensais ganhando cada vez mais terreno na guerra bruxa, passou a temer pela própria vida...

Foram essas as razões que a levaram a criar aquele embuste.

Ela sabia que Kamus não aprovava por completo aquela decisão. Ele poderia não ter dito nada explicitamente, mas ela podia ver o receio que ele tentava não demonstrar impresso no fundo das orbes azul meia-noite do homem. Sabia que ele havia sugerido que Frida procurasse Lucy para não ter que recorrer a uma medida tão extrema. Ela prometera a ele que usaria aquele blefe apenas se não houvesse opção.

Mas que escolha Frida tinha agora? Não estava mais sozinha no mundo...Havia muitos que dependiam dela...Principalmente Meridiana e a criança que crescia em seu ventre.

Independente de Camposanto ou Ludovic acreditarem nela, um herdeiro dos Ivory era precioso demais para ser ignorado. Eles não a matariam enquanto estivesse grávida. Se aquilo protegesse o filho por algum tempo enquanto ela continuava a trabalhar por aqueles que realmente precisavam de seu auxílio, ela estava disposta a barganhar.

A polonesa se pegou desejando que Kamus estivesse em Londres, a presença dele teria deixado as coisas um pouco menos difíceis. Embora soubesse que ele estava fora em missão, combatendo comensais e também procurando Ludovic, ela simplesmente não podia evitar em sentir falta dele.

O conde Jarno permaneceu na sacada por algum tempo, mesmo depois da presença da polonesa ter se esvaído por completo. Somente quando tinha a certeza de que estava completamente sozinho, é que se permitiu falar em voz alta:

-Acredita na história dela?

Aos poucos, a figura de Ludovic Black-Thorne começou a surgir nítida, ao lado do italiano, desfazendo o feitiço da desilusão que o encobrira. Ele nunca imaginou que Kamus e Frida se envolveriam, mas, no dia que eles resgataram Adhara, o comensal soube da verdade. Apenas amantes lutavam como os dois lutaram juntos na ocasião.

-Em nenhuma vírgula - o ruivo respondeu, com sua voz soturna e pesada - Mas vamos dar o prazo que ela pediu. Assim que a criança nascer, matamos Frida e entregamos o bebê para minha tia. Mas, por enquanto, peço que essa história fique restrita apenas a nós dois e ao mestre. Quanto a minha tia , pretendo contar a ela pessoalmente.

-Imaginei que diria isso. E sobre nosso outro assunto, quando será o encontro? - Jarno perguntou.

-Talvez demore um pouco. - o ruivo respondeu - Minha sobrinha precisa se acostumar com a nova vida dela, mas, tenho certeza que ela irá ficar realmente feliz com a sua visita quando chegar a ocasião.

O conde assentiu, deixando transparecer um brilho de pérfida satisfação em suas orbes castanhas.Ludovic, por sua vez, deixou que um sorriso de deleite se insinuasse em seu rosto, pensando consigo mesmo que o destino estava lhe dando as ferramentas perfeitas para alcançar tudo aquilo que sempre almejou.

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