O espaço que August destinara à sobrinha era bastante amplo, e ali havia uma cama, uma escrivaninha com cadeira e um armário, tudo com o mesmo tipo de trabalho do biombo. O problema é que, à primeira vista, parecia que um bando de Diabretes da Cornualha havia passado por ali: a cama estava desarrumada, com algumas roupas jogadas por cima; livros abertos e pergaminhos escritos, amassados ou rabiscados espalhados por toda parte. À escrivaninha, jazia uma Raven absolutamente absorta que murmurava encantamentos de natureza bastante duvidosa para os ouvidos de Luke. Sentado sobre a escrivaninha, em frente à sua dona, Jack a observava, como se por ela velasse. A moça usava uma blusa de lã pelo avesso, jeans surrados e calçava apenas as meias; seu cabelo, que já de algum tempo vinha crescendo à sua vontade, estava enrolado em um coque mal feito que ela prendera, Valha-me Merlin, pensou o ruivo, com a própria varinha.
Raven dedicava tamanha atenção ao livro que não notou a presença dos dois homens, e assim permaneceria se August não lhe tivesse pousado carinhosamente a mão no ombro.
- Raven, que tal um intervalo em seu curso intensivo de DCAT? – ele perguntou, sorrindo – Você tem uma visita.
A jovem estremeceu, olhou para o tio, esfregou um pouco os olhos cansados da leitura e olhou na direção que August lhe indicava. Ao ver Luke, cumprimentou-o com o esboço de um sorriso, mas pareceu ao ruivo que sua visita não era tão bem vinda quanto ele esperava.
- Bem, meus jovens, se me dão licença, vou deixá-los conversando e voltar para meu bloco de pedra – disse August, afagando a orelha de Jack – Se precisarem de alguma coisa, basta chamar, ou, se quiserem ficar lá no salão, também podem... Se bem que correrão o risco de a Mão do Invisível se voltar contra vocês... Nunca se sabe.
- Obrigada, titio, acho que vamos ficar por aqui mesmo – respondeu Raven, com um sorriso triste. August fez uma mesura e se afastou.
Raven encarou Luke como a perguntar o que ele fazia ali. Incomodado, o ruivo quebrou o silêncio:
- Rav, você me deixou preocupado. Mandei várias corujas e você não me respondeu nenhuma! O que aconteceu?
- Luke, você tem notícias da Meri? – ela perguntou, sem fazer caso da dúvida do rapaz – Alguém comentou alguma coisa com você por esses dias? O Herman, o Lucien?
- Infelizmente não, Rav. Tudo continua do mesmo jeito, sem qualquer sinal de Meridiana... Eu sinto muito.
- Ah, você sente muito? – cortou Raven, levantando-se da cadeira e pondo-se a caminhar pelo quarto – Que bonito! Estou impressionada!
Luke respirou fundo e cruzou os braços. Conhecia aquela reação de Raven, de tornar-se ríspida e desagradável quando se sentia preocupada ou pressionada com problemas onde não era capaz de intervir para solucionar. Porém, ter sua preocupação retribuída com ironia irritou o rapaz, que não pôde conter a resposta:
- Sim, Rav, eu sinto muito por não saber de Meridiana assim como senti muito não saber de você! Eu estava – e ainda estou – preocupado com você, veja só o seu estado! E essa porcariada toda sobre Artes das Trevas, o que lhe deu na cabeça de mexer com isso?
- Obrigada pela sua atenção, Sr. Hunter, mas eu estou muito bem – respondeu Raven, postando-se frente ao ruivo – Não respondi às suas prestimosas corujas porque tinha trabalho a fazer; afinal de contas, alguém tem que fazer alguma coisa, nem que seja entender como o inimigo se movimenta!
- E você acha que encher a cabeça com Arte das Trevas vai ajudar a trazer Meridiana de volta? – exclamou Luke, irritado.
Raven encarou o rapaz com perplexidade.
- Bem, meu caro, se você ainda não se deu conta, Ludovic Black-Thorne & Cia são Comensais da Morte, e Comensais da Morte mexem com Artes das Trevas! Assim, se você juntar as pecinhas, vai perceber que é preciso saber com o quê eles mexem para poder compreendê-los e, assim, derrotá-los. Entendeu agora, ou quer que eu desenhe?
- É claro que eu entendi, Raven, não sou tão burro quanto pareço – resmungou Luke, mordido – Seu raciocínio é brilhante, mas é igualmente perigoso. Não gosto de ver você metida com Arte das Trevas, é perigoso demais. Minha avó sempre diz que todo cuidado com essas Artes é pouco, porque elas dão uma enorme ilusão de poder que fascina, envolve e, quando se percebe, já é tarde demais e o caminho não tem volta.
- Mais uma vez, Luke, agradeço a sua preocupação, mas eu sei muito bem o que estou fazendo e com o quê estou lidando – devolveu Raven, baixando um pouco o tom – Pode não ser o caminho mais adequado para você, mas pelo menos eu estou fazendo alguma coisa. E você? O que tem feito para tentar mudar essa situação em que estamos agora?
Luke descruzou os braços e afagou, meio sem jeito, o dorso gordo de Jack, agora sentado, ronronante, na beirada da escrivaninha bem próximo ao ruivo. Depois, voltou a encarar Raven, dizendo:
- Eu estou tentando cuidar de v... de quem ainda está aqui, porque sei que mais do que isso não posso fazer agora.
Raven observava o rapaz, perplexa. Como alguém podia ser tão ingênuo a ponto de se preocupar com o bem estar de uma só pessoa enquanto o mundo se acabava lá fora em morte e crueldade? Só o ruivo, mesmo! Quando é que ele ia acordar para a vida? Então, num gesto involuntário, a moça cruzou os braços e, lentamente, um sorrisinho perigoso assomou seus lábios. Luke sentiu seu sangue ferver, não só pelo desdém da moça ao seu cuidado, como também por aquela reação ser exatamente a mesma de alguém cujo nome ele passara a não suportar sequer ouvir.
- Era só o que faltava! – exclamou, emputecido - Como se não bastasse agora pegar-lhe o gosto pela Arte das Trevas, ainda lhe copia os trejeitos? Raven, pelo amor de Merlin, será possível que você não se envergonha de usar esse sorrisinho cretino típico daquele... daquele assassino? – rosnou Luke.
- Ah, eu sabia!! – exclamou Raven, descruzando os braços e erguendo-os num gesto irritado – Já era de se esperar um comentariozinho desse naipe! Mais um anti-Snape encaixado na bitola de Harry Potter, o Divino Escolhido cuja palavra é lei!
- Como é que é, Raven? Não vá me dizer que... – começou Luke, pasmo.
- Vou dizer sim, ruivo, que tudo o que vocês têm para embasar aquela teoria de assassinato de Dumbledore é a história do Potter que, obviamente, odeia Severus Snape! Tendo em vista as circunstâncias, que situação melhor para incriminá-lo? Porém, eu lhe digo: sabe-se lá o que realmente se passou entre Snape e Dumbledore no alto daquela torre?
O ruivo não sabia o que dizer nem o que pensar. A argumentação de Raven o estupidificara a tal ponto que o fazia se sentir um rematado idiota, sem contra-argumentação. Será possível que o amor de Raven por Snape fora capaz de cegá-la a tal ponto?
- Ruivo, eu odeio quando você faz essa cara de boca aberta! - exclamou a jovem, pegando um livro de Arte das Trevas, abrindo-o numa página previamente marcada e postando-o rente ao nariz de Luke – Olha esse feitiço aqui; sim, faça essa cara de nojo, porque isso aqui é uma das coisas mais barra pesada que eu já vi na minha vida. Sabe quais são os efeitos irreversíveis dessa porcaria? Não, você não sabe, e é melhor nem saber; mas eu digo que uma das conseqüências desta maldição é a mão preta e morta, igualzinha à que Dumbledore tentava esconder de nós. Meu filho, resumindo, se nosso saudoso diretor recebeu algum feitiço deste naipe, ele teria morrido com ou sem o Avada de Severus, era apenas questão de tempo. Sabe-se lá o que ele e o Senhor do Meu Coração podem ter passado naqueles meses? Luke, pense bem, existem dezenas de explicações para aquela tragédia além da que o Todo-Poderoso Potter apresentou; basta você colocar esse miolo aí para funcionar!
Desnorteado com as informações com que Raven o bombardeou, Luke sacudiu a cabeça, tomou o livro das mãos de Raven, atirou-o sobre a cama como se fosse algo extremamente repugnante e exclamou, exaltado:
- Raven, pelo amor de Deus, quem tem que colocar o miolo para funcionar direito é você! Pense bem no que está dizendo! Porque, se continuar nessa linha de raciocínio, vai acabar encontrando justificativas até para as crueldades que Ludovic Black-Thorne cometeu com Meridiana e com o Sr. Johnson!!!
- O QUÊ?!?
O grito de Raven surpreendeu Luke; quando deu por si, ela estava parada à sua frente, lívida, olhos arregalados, e a mão trêmula erguida à altura do rosto do rapaz. Encararam-se por alguns segundos; então Raven baixou a mão, recuou alguns passos e deu-lhe as costas.
- Some daqui – ela murmurou, entre dentes – Some daqui agora.
Extremamente magoado, Luke cravou as unhas nas palmas das mãos cerradas, controlando-se para não dizer nem fazer mais nada; quando a raiva cedeu lugar à mágoa, ele se retirou em silêncio. Notou que Jack o seguia, mas não fez caso do gato; tudo o que queria era sair dali o mais rápido possível e tentar entender que tipo de loucura era aquela. Quando chegou ao salão, despediu-se o melhor que pôde de August Sinclair e partiu logo em seguida, para não lhe dar tempo de comentar seu desassossego.
Enquanto isso, no quarto, Raven sentiu um bolo formar-se em sua garganta e as lágrimas assomarem seus olhos; contudo, cerrou os punhos, respirou fundo, pegou o livro que Luke atirara sobre a cama, abriu-o e voltou a estudar.
Aqueles não eram tempos de fraquezas. Mas, de sacrifícios.
fim do arco
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