Wednesday, April 23, 2008

Quando chegou frente àquele grande galpão aparentemente abandonado nos arredores de Londres, ele se perguntou se de fato valia a pena vir até ali ou se melhor seria dar as costas e deixar para lá, o que, pela lógica, deveria ser a melhor opção.

Porém, Lucas Hunter não era homem de deixar nada para lá.

Como fizera da outra vez em que ali estivera, o ruivo contornou o galpão e, aos fundos, apontou a varinha para uma pequena porta travada com ripas de madeira e a abriu com um alorromora. Depois de alguns passos para dentro, afastou uma cortina de veludo preto e viu-se no estúdio-moradia de August Sinclair.

O tio de Raven, a príncípio, não notou a presença do rapaz, apesar dos alarmantes crocitos de Edgar, seu corvo de estimação. August trabalhava, concentrado, em um bloco de pedra, onde já se adivinhavam algumas formas lapidadas; o artista parecia lutar com a matéria bruta, que volta e meia lhe lascava mãos e braços, no esforço de libertar alguma musa ali aprisionada. Luke não ousou interrompê-lo.

Irritado por ver-se ignorado daquela forma, Edgar voou para cima da pedra e bicou as mãos de August; e foi ao zangar com o corvo que o homem finalmente reparou no jovem ruivo.

- Bom dia, Sr. Sinclair – cumprimentou Luke, estendendo-lhe a mão – Desculpe aparecer assim, sem avisar, mas...

- Oh, filho, não se preocupe, seja bem-vindo! – exclamou August Sinclair, batendo o pó das mãos nas calças e cumprimentando amistosamente o rapaz – Você é... Hunter, não é mesmo, colega de Raven em Hogwarts?

Luke assentiu.

- Eu... eu vim saber dela, Sr. Sinclair – prosseguiu, meio encabulado – Ela está morando ainda com o senhor, não está? Tenho mandado corujas pedindo notícias, mas não recebi sequer uma linha de resposta. Cheguei a pensar que ela estivesse na Escócia com Sir McAllister, e escrevi também para lá; porém, a Srta. Urganda me respondeu dizendo que Raven estava em Londres, com o senhor...

August Sinclair suspirou, passou as mãos pelos longos cabelos grisalhos presos num displicente rabo de cavalo, e convidou Luke a sentar-se numa pequena poltrona junto à lareira, onde ardiam ainda algumas brasas. Sentou-se em seguida numa cadeira frente ao rapaz e, mal o fez, um crepitar das brasas fez saltar um fragmento que lhe quase lhe ateou fogo à barra das calças. Luke tentou ajudá-lo, mas August declinou, batendo as cinzas:

- Não se preocupe, filho, há anos estou acostumado com isso, com esse maldito azar... Você sabe, não sabe? Ah, sim, claro que sabe, esteve aqui nas férias passadas, pôde ver como a Mão do Invisível manipula os fios de minha vida... Mas, não foi para isso que você veio, foi por Raven, então falemos dela – completou, com um meio sorriso.

- Ela está mesmo com o senhor aqui em Londres? A última vez em que a vi foi no enterro do Sr. Johnson, o pai de Meridiana, e Raven estava muito abalada.

- Sim, filho, Raven está aqui comigo, ainda que Angus tenha envidado todos os esforços para levá-la para a Escócia. Vou lhe ser muito sincero, meu jovem: Raven não está nada bem – respondeu Sinclair, baixando a voz e inclinando-se para frente – Tento apoiá-la como posso, fazendo-me presente quando ela deseja minha companhia, mantendo-a alimentada e abrigada, mas, mais do que isso, ela não me permite. O que aconteceu com os Johnson a desnorteou, fora a morte de Dumbledore e talvez algo mais que possa ter acontecido em Hogwarts que Raven guardou apenas para si...

A imagem de Severus Snape fugindo com os Comensais surgiu, clara, na mente de Luke, embrulhando-lhe o estômago.

- Ela tem ficado só em casa? – perguntou o ruivo.

- Sim, filho. Passa os dias enfurnada no quarto revirando os Profeta Diário que chegam em busca de alguma nota sobre a jovem Johnson e acompanhando as manobras dos Comensais; também estuda sem parar, tão concentrada que preciso lembrá-la de se alimentar e até mesmo de cuidar de si... – respondeu August, balançando a cabeça em desamparo.

- Raven está estudando nas férias? O quê, exatamente? Poções? – perguntou Luke, sabendo que era indiscreto, mas sem poder conter a curiosidade movida por um mau pressentimento.

- Não, filho, não é Poções, isso ela sabe desde que nasceu – respondeu August, grave – Ela está estudando Arte das Trevas.

- O QUÊ?!? – exclamou Luke, erguendo-se da cadeira, mas logo voltando a sentar-se, vexado – Por Merlin, perdão, Sr. Sinclair, mas... Arte das Trevas? Onde ela conseguiu material para isso? E, por Deus do céu, como o senhor permite uma coisa dessas? Quer dizer, eu não tenho o direito de perguntar-lhe isso, mas...

August Sinclair sorriu diante da preocupação do rapaz. Aquecia-lhe o coração aquela espontaneidade, aquela generosidade. Coisas assim ainda me fazem ter esperança, pensou.

- Compreendo sua preocupação, filho, e fique sossegado, não estou ofendido. Os livros de Arte das Trevas que Raven tem lido são meus. Houve uma época em que tentei recorrer àquelas artes para tentar coibir a maldição que me atormenta; cheguei a obter algum resultado, mas logo percebi que isso acarretava prejuízo e dor a outras pessoas e, por isso, abandonei todas as práticas. Mantive os livros comigo para lembrar-me sempre de que aquele não é um bom caminho para ser seguido.

Fez uma pausa, bateu outro fragmento de brasa desejoso de incendiar-lhe as calças, e prosseguiu:

- Não é de hoje que Raven estuda aqueles livros. Desde que os encontrou aqui em casa me pediu permissão para lê-los e eu a concedi. Ela segue a linha de raciocínio do pai, meu saudoso Alexander Sinclair, que dizia que para se enfrentar o Mal de forma eficaz, mister conhecê-lo.

- Compreendo, Sr. Sinclair, esse pensamento é muito válido, porém... Se o senhor me perdoa o atrevimento, acho uma temeridade permitir que Raven se aprofunde em Artes das Trevas nesse momento... – disse Luke, corando - O senhor sabe, há tanta coisa envolvida, fora as más influências que Raven recebe, mesmo sem querer, daquele pessoalzinho infame da Sonserina...

- Filho, há quantos anos minha sobrinha se relaciona com os colegas de Casa, há quanto tempo lê sobre Arte das Trevas, há quanto tempo tem como professor um alguém altamente suspeito... e desde quando ela deixou de ser a Raven que conhecemos? – respondeu August, estendendo as mãos abertas na direção de Luke – Conheço minha menina e confio plenamente nela; pode ficar sossegado, filho, pois por mais que ela se aproxime, nunca chegará ser um deles. Não me pergunte nem como nem porque eu tenho essa certeza; eu simplesmente sei.

Luke baixou os olhos por alguns instantes. Depois, ergueu-os de volta para August.

- Bem, acho que devo acreditar no senhor, que conhece Raven melhor do que eu... Mas, eu poderia conversar com ela um pouco, Sr. Sinclair? Seria possível?

- Claro, filho, venha comigo. Vou levá-lo até dela. Só peço a você que não repare no arranjo improvisado que fiz para dar a Raven um quarto aqui neste galpão; você sabe, faz pouco tempo que ela mora comigo...

- Sem problema, Sr. Sinclair! Eu gosto daqui – comentou Luke, com um sorriso – Como bem diz Raven, essa bagunça de artista é bastante aconchegante.

August sorriu de volta e caminhou com o rapaz na direção dos fundos do galpão, até um biombo de madeira trabalhada que Luke acreditou tratar-se de uma obra do tio de Raven. Contornaram o biombo e, sinceramente, Luke não gostou do que viu.

continua...

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