Frida olhou novamente para o papel com os dados da nova identidade de Lucy Renfield que Kamus havia arrumado. A secretária havia pedido uma chance de recomeçar a vida após os anos que estivera sob a custódia de Ludovic, espionando para o comensal sob o efeito do Imperius. A polonesa compreendia a atitude da moça, conseguia imaginar o trauma que se incutira no espírito da inglesa depois de tanto tempo submetida aos desejos de alguém tão pérfido e insano quando o cunhado de Frida.
E, agora a polonesa estava ali, em uma pequena vila no literal da Grécia, prestes a pedir Lucy para retornar para o pesadelo que certamente a inglesa desejaria manter afastado de si pelo resto de seus dias. Tudo pelo bem-estar de outra garota, tão inocente quanto Lucy foi um dia, e que agora também estava sob o jugo de Ludovic. Tudo por Meridiana.
Mesmo Kamus trabalhando há anos no Ministério, conseguir a nova identidade de Lucy demorou um pouco. Casos como os dela são considerados sigilosos, e exigem dezenas de protocolos especiais para se ter acesso. Contudo, o auror possuía os contatos certos que lhe facilitaram o acesso aos dados da ex-secretária.
A viagem demorara um pouco mais que a polonesa previra. Frida precisou viajar por meios trouxas. Não era recomendável que uma mulher grávida aparatasse, considerando que o bebê crescia um pouco todos os dias, não se podia correr o risco de deixar algo para trás, não com uma vida tão frágil e ainda em formação. A Rede de Flu deixava a loira consideravelmente indisposta e enjoada devido ao estado dela. Assim, a solução foi viajar por meios trouxas, utilizando um avião. Um pequena parada na embaixada bruxa inglesa em Atenas para conseguir o atual endereço de Lucy...E agora, ali estava Frida, prestes a reencontrar a mulher que agora se chama Cassandra O'Neil.
-{Boa noite} - ela virou-se para o estalajadeiro da pequena pensão em que se hospedara, falando grego graças às pílulas tradutoras que trouxera consigo - {como consigo condução até este endereço?}
O homem de meia idade e cabelos grisalhos virou-se, encarando a loira por cima dos óculos quadrados.
-{Nós quase não usamos carros aqui, são muitas ladeiras. Mas, na porta, temos algumas táxi-scooter, basta pedir que te levam}
-{Obrigada} - a loira assentiu, saindo pela porta do estabelecimento.
Poucos minutos depois, Frida estava na parte alta da vila, diante de uma casinha branca, com portas e janelas azuis. Ela pediu ao motorista que voltasse para a pensão, pois não sabia quanto tempo demoraria ali.
A polonesa deu algumas batidas na porta, sendo recebida, logo em seguida, por uma morena de olhos azuis, que a fitava com uma expressão que parecia mesclar surpresa, medo e culpa.
Lucy sentiu-se paralisada ao ver Frida Black-Thorne parada na frente de sua porta. Ela simplesmente não sabia como reagir diante da mulher, em parte, porque a polonesa representava um passado do qual ela desejava manter afastado de sua vida, por outro lado havia uma culpa avassaladora que Lucy carregava consigo por ter participado, ainda que indireta e forçadamente, da morte do falecido marido da loira, o auror Aldebaran Black-Thorne.
-Boa noite, Lucy - Frida cumprimentou, para não deixar dúvidas de que ela realmente sabia que Cassandra O'Neil era na realidade Lucy Renfield.
-Bo...boa...noite... - Lucy balbuciou, ainda hesitante sobre como agir - Acho melhor você entrar...
A loira assentiu, entrando na casa da outra mulher. Frida passou discretamente o olho pela sala, observando o ambiente. Um hábito que adquirira em seus tempos de espiã, era quase automático para ela avaliar cada novo ambiente que adentrava. Era uma casa pequena e aconchegante, com alguns porta-retratos espalhados em estantes e móveis antigos e detalhados.
-Sente-se - Lucy indicou um sofá. - Quer água, café, chá? - ela perguntou, como se a visita da polonesa fosse algo trivial, embora, na realidade, aquele fosse o modo da inglesa tentar esconder todo o nervosismo que lhe assaltava.
-Não é necessário - Frida retorquiu, de modo polido.
Lucy sentou-se no outro sofá, diante da loira, abaixando o rosto, encarando as próprias mãos, pousadas no colo, as quais ela apertava apreensivamente uma contra a outra. Mesmo depois de todos aqueles anos, ainda se sentia incapaz de encarar a outra mulher.
-Me desculpe... - a morena murmurou - Eu não queria...eu sinto tanto...eu ajudei ele a atrair Aldebaran para aquele depósito...e Elizabeth...foi a mesma coisa... eu nunca vou me perdoar...nunca vou poder reparar o mal que causei a você, a Nicholas e à filha de Betsy...
Frida avaliou a outra por alguns segundos antes de responder. Ela podia ver em cada um dos gestos da outra a culpa avassaladora que a dominava. Por um breve momento, a polonesa se sentiu imensamente mal pelo que iria pedir a Lucy.
-Você não teve culpa - ela respondeu, com uma voz serena, tentando tranqüilizar a outra - Você foi tão vítima quanto todos nós, Lucy. O único culpado de tudo é Ludovic.
A inglesa levantou o rosto, notando que havia sinceridade no fundo das orbes ambarinas da outra mulher, mesmo assim, aquilo não foi suficiente para apagar aquela ferida cujas cicatrizes ainda marcavam a alma de Lucy.
Por alguns minutos, as duas mulheres permaneceram em silêncio. Frida procurava um modo de expor a situação de modo delicado, contudo, percebeu que não havia outra opção a não ser sincera e franca sobre os motivos que a levaram até a casa de Lucy.
-Ludovic escapou de Azkaban há alguns anos atrás - ela disse, de modo seco e direto.
Lucy sentiu um espasmo involuntário ao escutar a notícia, abraçando o próprio corpo para se conter, e ansiosa pelas próximas palavras de Frida.
-Recentemente, ele matou Nicholas Johnson e seqüestrou Meridiana, a filha de Elizabeth... - Frida continuou, percebendo que Lucy abriu a boca como se quisesse soltar um grito que morreu em sua garganta antes que pudesse alcançar o ar. - Nós não temos pista alguma de Meri. E, chegamos a conclusão que apenas uma pessoa seria capaz de persuadir Ludovic a revelar o paradeiro dela: você.
Uma mistura de espanto e horror tomou conta do rosto de Lucy, o que não passou despercebido à polonesa.
-Lucy... eu não pediria sua ajuda se existisse outra opção. - Frida falou em um tom mais baixo e ameno, quase uma súplica. - Eu conheço Ludovic, sei do que ele é capaz. Eu não gosto de imaginar o que ele pode estar fazendo a Meridiana.
-Você não precisa me dizer isso. Eu passei dois anos morando com ele, eu...não quero me lembrar das coisas que ele fez a mim ou das coisas que me obrigou a fazer. Eu sei que tenho um débito com você e com a filha de Elizabeth, mas eu não posso, Frida.
A inglesa mordeu os lábios de leve, abraçando a si mesma com mais força. Ela estava dividida, parte dela realmente desejava ajudar a polonesa, seria um modo de expiar o que aconteceu durante a primeira guerra. Contudo, havia algo que a impedia de aceitar plenamente o pedido.
Lucy suspirou ruidosamente
-Eu menti a minha vida inteira sobre quem eu sou, sobre o meu passado, para a pessoa que mais me importa. Eu não posso fazer isso com ele...Sinto muito.
Frida levantou o rosto, focando o porta-retratos que estava na estante, logo atrás de Lucy. A imagem se conectando às palavras da morena, fazendo com que a polonesa compreendesse o peso do dilema pelo qual a outra mulher passava.
-Eu entendo, Lucy - ela respondeu, pesarosa - Talvez eu fizesse o mesmo se estivesse em seu lugar.
Frida abriu a bolsa, retirando de lá um papel quadrado, onde se via a imagem de uma garotinha loira abraçada a um casal que provavelmente eram os pais da menina. Ela balançou de leve o papel, murmurando algo inaudível. A imagem mudou para um texto que se revelava como o endereço do apartamento da polonesa em Londres.
-Caso mude de idéia ou se lembre de qualquer coisa que possa nos ajudar - ela disse, baixinho, colocando o papel sobre a mesinha de centro, e levantando-se em seguida.
Lucy apenas assentiu, levando Frida até à porta. Em silêncio, as duas se despediram. Depois que a porta se encerrou atrás dela, a loira permaneceu alguns segundos, parada, observando a vista do alto do morro.
Realmente, aquilo parecia um pequeno pedaço do paraíso, e, Lucy realmente tinha fortes razões para não querer abrir mão de tudo aquilo.
Ela deu um suspiro resignado, fazendo o caminho, ladeira abaixo, até o hotel. Com a esperança de que, ao menos, a caminhada pudesse lhe trazer alguma outra solução para resgatar a sobrinha. Apesar do fracasso com Lucy, Frida não iria desistir de Meridiana, nunca.
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