Feliz aniversário, Herman Mercury!
Sentado no fundo da loja de colecionáveis de seu tio, Herman limpava, concentrado, algumas pingüins de diversos tamanhos que figuravam em uma estante estreita, lado a lado com imagens de anjos, globos de neves, havaianas, quebra-nozes e papais noel.
Herman decidira ajudar Jack no estabelecimento. Não se sentiria bem em ficar com o padrinho sem contribuir com alguma coisa. Contudo, por mais que ele estivesse ajudando o tio desde que saiu da casa dos pais, o rapaz ainda se sentia completamente perdido no modo como os itens - que iam desde quadrinhos antigos, discos de vinil, brinquedos, máquinas fotográficas, pôsteres, lancheiras até armas antigas - eram organizados. Era um caos que apenas Jack parecia capaz de compreender.
Contudo, não era nisso que o rapaz pensava enquanto fazia seu trabalho. Ele pensava na conversa que tivera com o sogro na última vez que visitara Lorelai. Maddison McGuire era um homem fechado, portanto, foi com certa surpresa que Herman escutou o sogro compartilhar com ele as preocupações sobre possíveis mudanças no ministério. A situação pareceria ser muito mais preocupante do que a maioria dos bruxos acreditava, ou melhor, do que o Profeta Diário fazia parecer.
Exatamente por isso, e também pelo modo como Felicity fora afetada pela traição de Melinda, é que a família de Lorelai decidira mandar a menina para os Estados Unidos, junto com a irmã dele, Heather. Os McGuire fizeram os arranjos com Andie, a tia de Herman que morava em Nova York, pouco depois do rapaz ter deixado Manchester.
O Mensageiro deu um suspiro, olhando o relógio. Naquele exato momento, o avião da irmã e da cunhada mais nova estava decolando no Heathrow. Pelo que Lorelai lhe contara por telefone na noite anterior, ela e os irmãos se despediriam de Felicity em York. Apenas os pais seguiriam para Londres com ela, via Rede de Flu.
Ele imaginava que seus pais e seus sogros não trocariam mais que amenidades no aeroporto. A saída dele de casa se tornara uma espécie de tabu entre os Mercury.
Se as coisas tivessem sido diferentes, ele poderia também estar se despedindo da irmã. Sentiria imensa falta de Chispinha. Contudo, como costumam dizer, o que não tem remédio, remediado está.
-Herman? - o rapaz escutou seu nome sendo chamado por Jack, que vinha caminhando até ele com uma caixa de papelão não muito grande nas mãos.
-Oi? - ele levantou-se, observando o padrinho com certa curiosidade, incapaz de decifrar a expressão séria e ao mesmo tempo amena do homem.
Jack levantou a tampa da caixa, revelando em seu interior um pequeno muffin recoberto por uma calda de chocolate e granulados coloridos.
-Feliz aniversário! - ele disse, entregando o doce para o sobrinho.
Herman sorriu de lado, meneando a cabeça.
-Meu aniversário foi no começo ontem, tio.
-Eu sei, mas, não foi possível comemorarmos. Contudo, achei que não deveria passar em branco. Dezessete anos é a maioridade bruxa, não é?
O rapaz assentiu, entretanto, sem compreender onde o tio pretendia chegar.
-Você é oficialmente um adulto, Herman e acho que chegou a hora de tratá-lo como tal - Jack falou em um tom tão sério como nunca antes o rapaz se lembrava de ter ouvido - Eu refleti muito sobre isso antes de decidir contar para você, mas, se eu pude escolher, acho que você também deveria ter esse direito.
Herman arqueou a sobrancelha, cruzando os braços, ainda sem conseguir decifrar as intenções do padrinho.
-Escolher o que, tio?
-Depois que Nick morreu, eu conversei com Frida. Eu queria ajudar de alguma forma nessa guerra em que vocês se meteram.
Herman deu um rápido e discreto sorriso, pensando consigo que aquilo não o surpreendia. Ele sabia que puxara o tio em muitas coisas, inclusive em suas convicções.
-Muitas pessoas já estão saindo do país, como sua irmã. - Jack continuou - Agora as coisas ainda estão relativamente fáceis, entretanto, Frida acredita que a situação possa se complicar e, através dos contatos dela, já começou a organizar um "plano de evacuação" a longo prazo.
-O que você quer dizer com isso? - o rapaz perguntou.
-Bem...documentos falsos, especialmente trouxas...O tio da sua amiga Raven, ele indicou alguns "amigos" dele para nos "ajudar", se é que você me entende. E meios de transporte... e outras coisas.
-Eu ainda não entendo como você entra nisso tudo...
Jack deu um sorriso matreiro como se estivesse falando não de um crime, sob a perspectiva das leis trouxas, tampouco de uma ação arriscada sob as circunstancias da guerra bruxa. Era quase como se ele estivesse falando de uma brincadeira de "espião".
-Eu me propus a usar a loja como ponto de acesso para essas pessoas...digo, eles viriam até aqui e eu providenciaria os passaportes e as encaminharia para a próxima pessoa, responsável pelos transportes. Eu te contei tudo isso porque acho que isso te daria a chance de realmente fazer alguma coisa. É o que você quer, não é?
Herman demorou alguns segundos para responder, fitando, boquiaberto, o tio. Se por um lado, tudo o que ele dissera reforçava as palavras do sogro de que o prognóstico para a guerra era dos piores, por outro, ele se espantou com a forma como uma possível resistência já começava a se formar e estruturar.
-Eu quero ajudar - o rapaz respondeu por fim.
-Ótimo! Não esperava outra coisa de você - Jack falou, sorrindo, sem esconder o orgulho que sentia do sobrinho. - Acho que agora você realmente merece isso.
O homem finalmente entregou o pacote para o rapaz.
-Aproveite bem o seu muffin, Herman. Você merece. - ele disse, dando um tchauzinho para o sobrinho, enquanto se encaminhava para a parte da frente da loja.
-Obrigado, tio - Herman respondeu, grato não apenas pelo doce, mas pelo melhor presente que seu tio poderia ter lhe dado naquele momento de sua vida: confiança.
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