Sunday, April 13, 2008

Blind - Parte 1


Adhara Ivory acordou cedo naquele dia, como fazia todos os dias desde que chegara à casa de Mira e Christopher Timms. Seu quarto ficava virado para o leste e as finas cortinas de linho cor de creme não eram nem de longe o suficiente para aplacar os raios de sol. Uma semana depois acabara adaptando-se e sempre encontrava-se desperta e alerta quando o astro mal despontara no horizonte.

Em todas as manhãs nos últimos quinze dias ela levantaria-se antes de dar seis e meia, tomaria um longo banho morno e lavaria os cabelos. Secaria os fios com esmero, trocaria de roupa e às sete e meia em ponto estaria pronta para tomar café da manhã em companhia dos avós. Precisava estar com o estômago forrado para tomar seu remédio quando desse oito da manhã. Uma pílula de manhã, outra às quatro da tarde e a última à meia-noite, ordens do curandeiro de St. Mungus para quem o pai a levara a fim de consultar-se um dia antes de sua partida para a Escócia.

A garota não tinha realmente muita certeza do que era aquilo que estava tomando. Lembrava-se que o curandeiro havia explicado que a pílula liberaria alguma substância que estimularia uma glândula de seu cérebro a produzir alguma coisa que estava faltando em seu organismo... Mas não havia realmente prestado atenção enquanto ele explicava. De qualquer jeito, parecia importante. Kamus insistira duas vezes para que não se esquecesse de tomá-los e de oito em oito horas seus avós lhes perguntavam se tinha se lembrado das pílulas.

Se aquilo já era ligeiramente irritante quando estava tomando o remédio corretamente, não queria nem pensar em como as coisas seriam insuportáveis caso ela não o tomasse.

Mas o que quer que fosse, o dito medicamento parecia estar desempenhando bem o seu papel, não sentia mais tanto sono e desânimo quanto sentira nas semanas anteriores e também conseguia dormir melhor durante a noite.

Fora a rotina do tratamento suas ocupações também costumavam seguir uma linha predeterminada e com poucas alterações. Quando permanecia na casa, passava seu tempo ora ajudando a avó a cuidar da coleção de orquídeas que a senhora mantinha, ora lendo algum livro do acervo que havia pertencido à sua finada mãe. Todo fim de semana seu avô insistia em levá-la até o clube para assistí-lo em uma partida de golfe. Até agora Adhara falhava em compreender a real finalidade daquele jogo, mas gostava de sentir os raios de sol matutinos queimando mornos em sua pele e também do suco de melancia que era servido na lanchonete.

Porém na maioria dos dias ela deixava a casa dos Timms logo após o desjejum e apanhava um veículo trouxa de condução coletiva que se assemelhava ao noitebus - exceto pela velocidade, os sacolejos e a ausência de camas, mas sim bancos - e rumava até o centro da cidade. Após apenas alguns dias já havia decorado os horários, as paradas e as linhas de transporte e utilizava-as com tal desenvoltura como se vivesse há anos em Edimburgo.

Não fazia muito pelo centro exceto andar de um lugar para o outro, transitando entre a Old Town, a "cidade velha" que ainda preserva sua fisionomia medieval, e a New Town, lar de comerciantes, banqueiros, profissionais liberais e professores da Universidade, visitando pontos turísticos populares, entrando em lojas apenas para olhar as mercadorias ofertadas pelos trouxas e se distrair em geral...

Mas a maior parte do tempo ela passava no Princes Street Garden, sentada em um dos bancos próximos às árvores, com um copo grande de cappucino para viagem ao seu lado e um caderno aberto em seu colo.

Por horas a fio ela apenas ficaria ali, observando o movimento ao seu redor quando cansava de preencher as folhas brancas com sua caligrafia pequena, inclinada e cheia de espaços.

E em grande parte das vezes Adhara nem fazia idéia sobre o que estava escrevendo. Geralmente apenas transcrevia a primeira cena que vinha em sua mente. Era um passatempo bastante relaxante, não se prender em nenhum pensamento em particular e apenas inventar coisas que não aconteceram na realidade. Após mais de dez dias de escrita havia colecionado várias dessas cenas sem nexo e alguns desenhos também.

No preciso momento ela estava finalizando os acabamentos em um retrato da avó no qual já estava trabalhando por algum par de dias. Mira se provara uma pessoa interessante de retratar, ela tinha traços fortes. Os olhos dela, em um tom forte de verde, eram especialmente atraentes. Sua avó parecia borbulhar sob a superfície, como se estivesse pronta para explodir a qualquer instante, mesmo quando aparentava calmaria.

Já seu avô, Christopher, era o exato oposto. Enquanto Mira parecia ser a água que bate violentamente contra as pedras, as destruindo pouco a pouco, Christopher era como um rio que seguia seu caminho serenamente, desviando dos obstáculos que apareciam pelo caminho, apenas sendo levado pela corrente.

Eles eram boas pessoas e de fato estavam tomando boa conta dela. Pensando naquilo agora, Adhara não conseguia pensar em bons motivos para não gostar de seus avós.

Adhara parou com seu desenho por alguns instantes para conferir a hora no relógio de pulso. Podia ouvir o barulho do tráfego de veículos aumentando em Princes Street, o que geralmente indicava que o expediente trouxa havia terminado e os trabalhadores estavam retornando para suas casas, aquela era geralmente a sua deixa para apanhar também o coletivo e retornar para a casa dos avós a tempo do jantar.

Sem surpresas ela constatou que estava correta e já passavam um quarto das cinco horas da tarde. A moça então juntou seus pertences, o caderno e o lápis de grafite, guardou-os dentro da bolsa, apanhou a boina, o casaco e o copo grande e vazio de cappucino que jogaria na primeira lixeira que visse. Assim, seguiu pela passarela entre as áreas verdes até o ponto de ônibus.

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