Let It Be - Parte 1
Deitado no próprio quarto com as mãos cruzadas atrás da cabeça, imerso na semi-penumbra que reinava no ambiente, o rapaz fitava o teto. Uma sensação de impotência e inutilidade preenchia o peito dele.
Quando ele achou que as coisas não poderiam ficar piores, depois da morte do diretor...depois da revelação de que Melinda era uma comensal...eis que outra tragédia acontece. Meridiana sumiu completamente e o sr. Johnson foi assassinado...
Herman não pôde fazer nada pela amiga, e, queria ter feito muito mais pela namorada.
Ficar em casa quase não ajudava a melhorar aquele sentimento ruim. Pelo menos em Hogwarts ele tinha O Olho do Grifo. Lá ele sabia que estava envolvido com algo que fazia alguma diferença... Agora ele não tinha absolutamente nada. Sentia-se com os pés e mãos atados, e, com isso, uma raiva germinava na alma do rapaz, reclamando um espaço cada vez maior. Era como se Herman estivesse prestes a explodir. Por tal razão, ele preferia manter-se, na maior parte do dia, recluso em seu quarto, não queria ser injustamente grosseiro com ninguém.
Batidas leves fizeram com que Herman desviasse sua atenção para o batente da porta, onde o rosto sério da mãe se revelava por uma fresta.
-Seu pai quer conversar com você e a Heather na sala.
O rapaz assentiu silenciosamente, seguindo a mãe para o andar de baixo. O pai já estava sentando no sofá de dois lugares e a caçula se encontrava em uma das poltronas defronte a David. Herman sentou-se na poltrona ao lado da irmã, enquanto a mãe se acomodava junto ao marido. O Mensageiro fitou com gravidade o pai, sabia que quando ele convocava uma reunião de família significava algo importante.
-Herman, Heather - David começou em um tom sóbrio e firme - O fato de eu e sua mãe não sermos bruxos não significa que estamos alienados ao que está acontecendo no mundo de vocês. Nós sabemos que a situação é grave, e, depois de conversar com a sua tia, tomamos uma decisão. Vamos mandar vocês dois para os Estados Unidos. Andie já está providenciando os detalhes da transferência.
-Eu não vou - Herman disse, sem levantar a voz - Eu não posso ir.
David remexeu de leve no sofá, será que o filho não compreendia que estava fazendo aquilo para protege-los?
-Eu não estou perguntando, Herman, estou comunicando a decisão para vocês dois. - o homem disse, com tom de autoridade - Não posso simplesmente deixar você e Heather aqui no meio de uma guerra. Seria irresponsabilidade de minha parte.
-E eu não posso simplesmente virar as costas para os meus amigos - o rapaz disse, ligeiramente alterado - Eu não posso fugir deixando todos para trás. Eu não sou covarde a esse ponto!
O homem encarou o filho, cerrando os punhos para não perder a paciência. Amava Herman e sentia orgulho dele, mas, David era um homem prático e acreditava que esse idealismo do menino apenas tornaria as coisas mais difíceis. Ele sabia que a razão estava do lado dele e não queria ser contrariado, não gostava de ter que argumentar quando sabia que estava certo.
- Não percebe que tudo o que eu quero é ver vocês dois seguros?
Herman levantou-se, sentindo a raiva que represara durante todos aqueles dias querendo finalmente fluir. Era verdade que ele compreendia as preocupações do pai, mas será que David não conseguia perceber que o filho era praticamente um adulto agora, que era o momento de Herman começar a tomar suas próprias decisões. Não eram as intenções do pai que o estavam irritando, mas o modo como ele não abria espaço para conversa, apenas impondo o que achava melhor.
-Eu não sou mais criança, pai - ele tentou ainda conter a ira dentro dele ao dizer isso - Você não pode me obrigar a fazer o que você quer, você tem que escutar o meu lado também.
Os olhos de David se estreitaram, a paciência dele estava começando a se esgotar. Quando tomou aquela decisão não achou que Herman poderia ser um obstáculo.
- O seu lado? Você quer que eu deixe meu filho se meter no meio de batalhas ou sabe se lá o que?
Carolyn colocou a mão no ombro do marido, tentando apazigua-lo.
-Calma, Dave...Herman é um menino sensato, ele sabe que apenas queremos o melhor para ele.
-Calma, Carol? - David começou a falar quase ríspido - Será que você não está vendo que nosso filho quer jogar a vida dele fora? Será que ele acha que a situação toda é uma brincadeira?
-Eu sei que não é brincadeira, pai - Herman falou quase gritando - Eu sei exatamente onde estou me metendo, talvez mais do que você possa imaginar. È por isso que eu não quero ir embora!
-Mas você vai! Enquanto você estiver sob meu teto, vivendo às minhas custas, você faz o que eu achar melhor para o seu bem - o homem esbravejou.
Herman sentiu finalmente o último fio que ainda segurava a cólera que se contorcia dentro de si rebentar.
-Se a questão é essa, eu resolvo seu problema em dois tempo. Estou indo embora, só vou pegar algumas roupas e saio daqui neste instante.
Carolyn postou a mão nos lábios, nervosa, sentindo um nó na garganta.
-Herman...filho...por favor...Seu pai não queria perder a cabeça...nem você, eu sei...Tudo o que queremos é o bem de vocês...
Heather apenas se mantinha calada, completamente amuada, olhando ora para os pais, ora para o irmão, sem saber o que dizer. Nunca antes ela vira o pai ou Herman tão zangados.
Herman fechou os olhos, trincando os dentes, para tentar se conter.
-Eu sei, mãe, isso eu entendo. Mas queria que vocês entendessem que se eu for embora, vou me arrepender pelo resto da vida.
Sem dizer mais nada, ele virou-se, seguindo em direção ao seu quarto, ainda escutando a mãe romper em soluços na sala, enquanto o pai dizia "Se é o que o garoto quer, deixe ele quebrar a cara sozinho".
Enquanto juntava as roupas na mochila, escutou o trinco da porta do quarto. Heather entrou timidamente no recinto.
-Herman... - ela balbuciou - você vai mesmo embora?
O Mensageiro largou a mochila, aproximando-se da irmã caçula, colocando as duas mãos nos ombros dela.
-Eu preciso, Chispinha. Se eu quiser que você possa voltar para a casa algum dia, eu tenho que ficar aqui e fazer alguma coisa.
-Eu queria ir com você - a menina falou em um tom de voz quase choroso, abaixando os olhos.
-Eu sei disso, mas você vai ter que ir para a casa da tia. - Herman a puxou para si, abraçando-a carinhosamente e sentindo os braços finos da irmã envolvendo seu pescoço - Ela vai cuidar bem de você e você vai gostar da escola nova, E quando você menos esperar, vai estar de volta.
A menina nada disse, apenas abraçou o irmão com mais força. Depois de um tempo imersos naquele abraço de despedida, Heather se pronunciou:
-Promete que toma cuidado? Promete que vai estar aqui quando eu voltar?
-Eu prometo, Chispinha... - ele respondeu, fazendo um carinho leve na cabeça da irmã, sabendo que aquela possivelmente seria a última vez que ele a veria em muito tempo.
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