Thursday, March 27, 2008

Let It Be - Parte 2


O rapaz saiu do quarto ainda de pijamas, seguindo para a pequena cozinha do apartamento. Esfregou os olhos, e deu um leve bocejo, ao entrar no recinto.

-Dormiu bem? - perguntou o homem que estava sentado à mesa, lendo o jornal da manhã e sorvendo calmamente um xícara de café escuro e forte.

Herman meneou a cabeça, sentando na cadeira defronte ao tio, dando mais um bocejo.

-Não consegui pregar os olhos...

-Imaginei que não.- Jack respondeu, deixando o jornal de lado e encarando o afilhado - Do meu quarto deu para escutar seus passos na sala de televisão. Espero que o playstation tenha te feito uma boa companhia...

-De fato, acabei jogando um pouco sim - Herman disse, um pouco sem graça - Era isso ou ficar remoendo a conversa com meu pai. Desculpa se te incomodei, tio. Pelo barulho e por ter baixado aqui do nada, mas não tinha a quem recorrer.

Jack levantou-se, colocando a mão sobre a cabeça do sobrinho, bagunçando os cabelos do rapaz com o gesto.

-Deixa de besteira, Herman. Você é meu afilhado, eu estou aqui para você sempre que precisar, afinal, é para isso que os padrinhos servem. Quer panquecas?

Herman assentiu deixando um sorriso pálido surgir nos lábios. Ele sabia que apesar do jeito de menino crescido, o tio era uma das pessoas mais confiáveis que ele conhecia e sabia que nunca lhe faltaria.

-Sabe... - disse o homem, de costas, servindo uma porção generosa de panquecas com melado no prato de Herman - David nunca foi uma pessoa fácil, mas com o tempo ele amolece. Quando eu decidi largar a faculdade, ele reagiu muito mal, pior que seu avô. Ficamos sem conversar na época. Ele dizia que eu ia estragar a minha vida. Dois anos depois, estava eu de volta a Inglaterra para te batizar. O que eu quero dizer é que, com o tempo, ele vai acabar fazendo as pazes com você.

Herman soltou um suspiro resignado, enquanto Jack colocava o prato diante do sobrinho.

-Espero que tenha razão, tio.

-Claro que eu tenho. E enquanto isso, pode ficar aqui o tempo que precisar. - o homem respondeu dando uma simpática piscadela e voltando-se a sentar par terminar seu desjejum - Já decidiu o que vai fazer hoje?

O rapaz anuiu.

-Hum-hum. Primeiro vou terminar de comer essas panquecas que estão muito boas - ele tentou dar um tom um pouco mais descontraído à frase - E depois, vou dar um pulo a York para ver a Lore e contar o que aconteceu.

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A campainha soou na barulhenta residência. Ao menos as crianças pareciam trazer de volta o ar costumeiro da casa, embora a caçula estivesse anormalmente mais carrancuda e chorosa que outrora. Era verídico que todos, talvez exceto Raphael, que era muito novo, estivessem sentidos com os últimos acontecimentos envolvendo Melinda Dashwood, meia-irmã dos quatro filhos dos McGuire.

No entanto, o golpe aparentou ser muito mais intenso em Mary Elizabeth, que a recebeu como sua própria filha, e em Felicity, que apegou-se à irmã como nunca fizera com outra pessoa. Idolatrava e confiava na garota que se revelara uma comensal da morte há aproximadamente duas semanas.

Liz se encontrava abatida e sem vida, num estado constante de semi-estupor, enquanto a menininha canalizava a sua frustração em introspecção e raiva, e foi a contragosto que atendeu à porta, seguida por duas bolinhas de pêlo: Fofoso e Brigitte.

- Oi Herman. – ela cumprimentou sem sorrir – Veio sozinho, né...


O que o Mensageiro pôde observar o deixou um pouco surpreso. A menina estava ainda mais magra e muito mais pálida do que era, em contraste com os cabelos fartos e muito negros, que lhe caíam pesadamente sobre as costas, o que conferia a ela um aspecto etéreo e meio surreal. Ao fundo, um par de garotos mais novos acenavam para ele e, ao contrário da menina, sorriam abertamente.

- Desculpa, Fe, não deu para trazer a Heather desta vez... - ele respondeu.

- Bom, vou chamar a Lolly, ela está na casa da vovó, vou lá chamar. – Felicity avisou, se retirando da sala, deixando Herman em companhia dos animais e dos dois meninos.

O rapaz percebeu que Matthew o encarava insistentemente, e quando perguntou se estava tudo bem, viu o sorriso morrer no rosto do garoto.

- É verdade mesmo que a Mel maltratou você e a Lolly? Que ela trancou vocês e fugiu com os comensais? – o menino perguntou ao cunhado abaixando o rosto para olhar para seus joelhos.

Herman coçou a cabeça, um pouco indeciso sobre o que exatamente dizer ao menino, mas, por mais que a realidade fosse dolorosa, era preferível a contar uma mentira que só aumentaria o sofrimento do garoto no futuro.

-É sim, Matt. - Herman respondeu, com pesar - A Mel fez tudo isso sim. Eu sinto muito.

- Tudo bem... – Mat respondeu ainda sem encarar de novo o cunhado.

Alguns passos apressados puderam ser ouvidos, vindos de fora da casa, denunciando a chegada de alguém pela porta dos fundos. Logo uma garota atravessou a portal que separava a cozinha da sala de visitas, e sem cerimônia, se aproximou de Herman dando-lhe um beijo por cima dos cabelos.

O rapaz se levantou para cumprimentá-la decentemente, e foi surpreendido por um abraço antes que pudesse pensar em fazer qualquer outra coisa.

-Que bom te ver... – Lorelai murmurou baixinho, como que falando mais para si do que para Herman.

O mensageiro deixou-se quedar naquele abraço por algum tempo. Era a primeira vez desde que saíra da casa dos pais que se sentia verdadeiramente tranqüilo, sem qualquer dúvidas ou tormentos sobre sua decisão.

-Também estou feliz em ter ver, MJ - ele sussurrou.

Enquanto permanecia enlaçada no rapaz, Lorelai pôde perceber que ali havia algo mais que uma visita de praxe que um namorado faz à namorada durante as férias escolares. Podia sentir algo descompassado na respiração e na alma do moço, chegou a pensar em questionar o que estava acontecendo, mas preferiu calar-se. Confiava nele e não havia necessidade de perguntar nada. Quando se sentisse bem para tal, ele certamente diria o que o estava preocupando.

Ainda abraçado a Lorelai, com os olhos fechados, sentindo como se aquele abraço fosse o refúgio que ele mais precisava no momento, Herman decidiu desabafar tudo o que estava entalado dentro de si desde que saíra de Manchester.

-Eu saí de casa. Briguei com meu pai e agora estou com o tio Jack.

Ela não disse nada, só o abraçou mais intensamente, enquanto fazia um cafuné na cabeça de Herman. Estava surpresa com o que ele lhe dissera, mas não estava ali para perguntar nada, nem dar conselhos. Aceitou como verdade que sua função era estar por perto para ele.

AVISO: Sábado vai ter postagem de fic e um presente para vocês.

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