Friday, December 07, 2007

Revelações - Final

A Maior de todas elas....



Lágrimas grossas e peroladas escorriam ainda pelos olhos escuros, que, pela primeira vez ao que ele podia lembrar-se, via sem os óculos. Sentada no chão frio, diante da bacia de prata, ela parecia uma figura tão extremamente frágil que qualquer sopro de ar poderia fazê-la se desvanecer no ar. Era raro ver Mina daquela maneira, sem estar em guarda, pronta para responder com algum comentário ácido qualquer coisa que lhe fosse dita.



Ela ainda não o tinha visto. Sem os óculos e com a visão borrada pelo choro já seria difícil ela notá-lo. Mas, além disso, a atenção dela estava completamente voltada para o espectro que se levantava das memórias dentro da penseira - uma sombra envolta em chamas, correndo cegamente. E, embora não se ouvisse som além dos soluços ocasionais da garota, ele sabia que aquela lembrança gritava, ecoando dentro da mente dela.



Fechando a porta da sala atrás de si, ele aproximou-se da figura da domadora, ajoelhando-se de frente a ela, e, com um gesto negligente, forçando a imagem a se dissipar.



Só então ela percebeu a presença dele. Engolindo o choro, os olhos castanhos levantaram-se, ainda brilhantes. Os rastros que as lágrimas tinham deixado apresentavam-se sobre a pele pálida, muito mais pálida do que normalmente era. Mina contraíra o rosto, os dentes pequenos mordendo com força o lábio inferior. Se pudesse, ela teria se afastado - entretanto, estava entre ele e a parede.



Assim, não teve como se esquivar quando ele estendeu os braços, puxando-a pelos ombros de encontro a si. Isaac sentiu a garota esconder o rosto junto ao seu peito, sabendo que ela fazia força para não se mostrar fraca diante dele. Era estranho como ele conseguia compreender a natureza da jovem, a necessidade de se provar capaz, de fazer as coisas por si mesma e, ao mesmo tempo, a fragilidade e a tristeza que se escondiam atrás do sorriso voluntarioso.



Enquanto um braço envolvia as costas dela, ele levava a outra mão até a boca, tirando com os dentes a luva que usava para proteger-se do frio noturno. Os dedos então correram livres pelos fios finos e sedosos dos cabelos dela, tentando passar a calma e a segurança que ele desejava poder oferecer a ela.



- Mina? - ele chamou finalmente, com a voz rouca, como se há muito tempo não usasse suas cordas vocais - O que aconteceu?



Ela não fez menção de responder, ou mesmo de se mexer. Isaac esperou pacientemente, até que sua mão correu dos cabelos para o queixo dela, forçando-a a levantar a cabeça.



- Mina? - ele perguntou de novo.



- Você viu David? - ela retorquiu com um murmúrio, quase fraco demais para que ele entendesse.



Mesmo assim, ele ouviu. E, no peito, o coração deu uma volta inteira, ao mesmo tempo em que ele sentia o lábio latejar. E era sem orgulho algum que ele reconhecia que aquilo não provinha de uma preocupação pelo que acontecera ali mais cedo. Não. O que ele sentia agora, e sentira muitas vezes naqueles últimos meses era mais egoísta.



Ciúmes.



- Eu contei a ele. - ela continuou diante do silêncio dele, fechando os olhos, enquanto seus dedos prendiam-se com força à capa do rapaz - Eu queria estar errada, Isaac, eu queria desesperadamente estar errada, queria que David e Victor se reencontrassem, que o comensal que eu vi...



- Mina... - ele a interrompeu, e ela reabriu os olhos, deparando-se com o semblante sério dele - Você gosta do Fenwick?



A pergunta saíra de forma quase inconsciente. Entretanto, agora que a fizera, ele queria saber a resposta. Entretanto, as orbes castanhas dela se arregalaram, sem compreender o significado daquela pergunta.



- Como assim eu gosto... Mas que raios de pergunta é essa, Isaac? - ela se afastou dele, empurrando-o pelos ombros, fazendo com que ele, que até então estivera ajoelhado, caísse sentado - Eu me importo com ele, como me importo com todos os meus amigos. Como me importo com qualquer inocente que se veja no meio desse fogo cruzado. Como me importo... como me importo com você!



Se ela esperava uma resposta para aquilo o que dissera, certamente não era aquela que imaginara que teria. Isaac a observou em silêncio por alguns instantes, antes de voltar a levantar a mão, limpando o rosto ainda úmido dela com a ponta dos seus dedos.



Mina nunca conseguiria se lembrar exatamente como aquilo acontecera. Só sabia que num instante estava vermelha e ofegante de raiva pela hipótese absurda que o garoto lhe apresentara e, no segundo seguinte, ele a abraçava forte, como se tivesse medo que ela se fosse de um momento para o outro. E, quando ela preparava-se para perguntar o que estava acontecendo, sentiu novamente os dedos dele deslizarem suavemente por sua face, até que, por fim, ele a estava beijando.



Os lábios dele eram mornos e gentis e, instintivamente, Mina acabou por corresponder, mesmo sem saber exatamente o que estava fazendo.



Mas, ao mesmo tempo em que ela se deixava perder nos braços do corvinal, uma parte incômoda de sua mente gritava com ela, dizendo que aquilo era errado, que ela não podia simplesmente corresponder a sabe-se lá que loucura que passara na cabeça do Cão de Guarda naquele momento. Assim, ao perceber afinal o que estava fazendo, Mina soltou-se dele com violência, pulando em pé, os olhos muito arregalados.



- Desculpe, eu... Eu...



Sem encontrar palavras, ela mordeu os lábios e pôs-se a correr, passando pela porta quase como um raio e sem dar tempo a que Isaac reagisse. Ainda entorpecido pelo beijo, o rapaz levantou-se, observando a passagem aberta e dando um pequeno suspiro.



Não sabia o que poderia acontecer dali em diante. Mas ele não pretendia desistir tão fácil...





por Mina


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