A Mão da Morte
Sentada em um dos bancos de pedra do jardim próximo à sala de DCAT, eu rodava entre os dedos um pequeno vidrinho lotado de uma poção vermelho sangue enquanto esperava minha amiga Meri. Eu não dormira quase nada na noite passada e meu aspecto devia estar mais horrível que o usual, a julgar pelo olhar de espanto que a ruiva me lançou assim que em mim deitou seus belos olhos esmeraldinos.
- Rav, há quantos dias você não dorme direito? – ela perguntou, sentando-se ao meu lado.
- Uns três, respondi, ainda rolando o vidrinho entre os dedos. Dormir é pior, Meri. Sonho que fiquei muda na hora da apresentação de nossa monografia. Ou que fiquei nua na frente de todo mundo, sem ter como me esconder. Ou que sou atingida por um feitiço que me transforma em galinha e só faço cacarejar na frente do Senhor do Meu Coração. E daí pra pior...
- Calma, Rav, é só uma monografia..., disse a ruiva, pousando a mão em meu ombro. Será mais fácil do que você imagina. Hoje acaba sua agonia e você poderá voltar a dormir.
Sorri para Meri com afeto. Ela tinha plena consciência do quanto aquilo tudo era difícil para mim, de como recordar a morte de meus pais com o estudo da Maldição Necromanus era duro, quase cruel, mas ainda assim tentava me animar, me sustentar. Minha irmã querida, eis o que ela é.
- Rav, o que é isso que você rola sem parar entre os dedos? – perguntou Meri, entre a desconfiança e o alarme.
- Isso aqui, Merizinha, é uma variante da Felix Felicis. Só que, em vez de sorte, ela dá coragem. Um frasco como este aqui faria você enfrentar um rabo córneo húngaro como se fosse uma mera lagartixa. Dois frascos fariam você rir insolentemente na cara do seu tio Ludovic e, de quebra, chamar pessoalmente Lord Voldemort de maricón. Um verdadeiro espetáculo, esse liquidozinho vermelho...
- Mas você não... – começou ela, aflita.
- Claro que não, Meri, eu não poderia!, devolvi, de imediato. Apenas me deixei levar pela tentação de fazê-la. Seria perda de tempo tentar usar um artifício desses para a apresentação de nossa mono, ou você acha que Severus Snape é poia como o Lesmão? Só de me olhar ele saberia que eu estava com a cabeça cheia de poção! E, do jeito que essa coisa é forte, eu não só apresentaria a monografia com arrogância como também correria o risco de encerrar os trabalhos saltando no colo de Severus e plantando-lhe um beijo daqueles que você tem vergonha até de imaginar... Melhor deixar quieto.
- Melhor mesmo, concordou Meri, com uma inevitável careta. Hum, o pessoal já está entrando, acho que o Snape já chegou. Vamos?
Encarei Meri como se estivesse a caminho do cadafalso.
- Se eu fizer alguma lenha e arruinar tudo, você será capaz de me perdoar? – perguntei-lhe, com sinceridade sofrida.
- Acho que sim, mas só depois que eu me cansar de bater em você, respondeu a ruiva, sorridente. Anda, Rav, adiar o problema só o torna pior. Vai dar tudo certo, prometo!
Segurei a mão que me era estendida e segui, a passos pesados, para a sala de DCAT. O Senhor de Meu Coração já estava lá, imponente, extraordinário, de pé, com os braços cruzados, detrás de sua mesa. Lançou-me um olhar profundo e inescrutável assim que me assentei; deixei, temerosa, o vidrinho de poção escorregar para o fundo do bolso de minha veste.
O Senhor de Meu Coração, então, deu início aos trabalhos em sua melhor forma cativante e auspiciosa:
- Acredito que, com todo o tempo conferido para a elaboração das Monografias, não haverá nenhum tipo de pedido de prorrogação ou desculpas pela brevidade dos trabalhos. E, caso haja, não serão atendidos. Em hipótese alguma.
Silêncio. Alguém engoliu em seco. Pobre infeliz.
- Assim, monografias fora do tema, zero. Monografias breves, zero. Monografias extensas para demonstrar erudição, zero. Monografias adaptadas de anos anteriores, zero. Fui claro?
Pergunta retórica; por óbvio, ninguém se dignou a responder.
- Pois bem, então passemos às apresentações. Seguiremos a listagem da distribuição de temas, prosseguiu Severus, deixando a mesa e sentando-se em uma carteira à frente da sala, na lateral esquerda, de onde ele acompanharia as vítimas, digo, os alunos. – Sr. Semog e Sr. Boot, podem começar.
E assim foram-se apresentando os trabalhos, uns muito bons, outros razoáveis, num desfiar de horrores que me torturavam de expectativa e que não parecia ter fim. Eu suava frio, tinha as extremidades dormentes e a boca amargava desesperadamente. Assaltada por sensações contraditórias, ao mesmo tempo em que desejava que todo mundo se apressasse para a minha vez e a de Meri chegar mais rápido, também queria que as apresentações não tivessem fim, que viesse o final da aula e não sobrasse tempo para nós, que ficaríamos para outra vez. Ou, quem sabe, um súbito ataque Comensal à escola... Tudo seria válido!!
- Pois bem, então chegamos à última apresentação. Srta. Johnson, Srta. Raven. Maldição Necromanus.
A voz grave de Severus, sempre tão deliciosa aos meus ouvidos, dessa vez foi letal aos meus nervos. Nunca, até então, eu sentira desespero ao ouvi-lo pronunciar meu nome. Levantar da carteira e seguir Meri até a frente da sala foi um sacrifício, e manter-me de pé sem vacilar, um ato heróico.
Segura e desenvolta, Meridiana utilizou-se do projetor de imagens adaptado magicamente que o Professor Lupin trouxera para Hogwarts em seu período como professor de DCAT e começou sua explanação:
"Como o próprio nome diz, Necromanus significa Mão da Morte. Necro, em latim, significa Morte e manus, mão. É uma maldição bastante antiga, a ponto de seus primeiros registros serem encontrados em textos da Hélade, atualmente parte da Grécia e considerado por muitos o berço da Magia tal qual aprendemos em Hogwarts.
Foi amplamente empregada por ambos os lados durante as Cruzadas Bruxas contra o Grão-vizir Iznogud, no início da Idade Média. Era um modo de punir em médio prazo os prisioneiros de guerra.
A Maldição Necromanus foi considerada feitiço das trevas apenas a partir do séc. XII. Para lançá-la de forma eficaz é preciso muito conhecimento e um coração extremamente duro. Ao ser lançada, toma a aparência de uma esfumaçada mão negra, que envolve por completo sua vítima, erguendo-a no ar.
Ao contrário do Avada Kedrava, que mata instantaneamente, a Necromanus corrói lenta e dolorosamente as entranhas de suas vítimas. É como um Avada Kedavra em doses lentas, homeopáticas, que envolve a vítima numa mortalha invisível e vai matando-a aos poucos, bem devagar, anos depois. Até o momento é irreversível”.
Meri terminou sua apresentação e me olhou, dando-me a deixa para prosseguir. A sala inteira me olhou, também. Senti os olhos negros de Severus pregados em mim; podia intuir aquele perigoso meio sorriso brincando em seus lábios. E senti, também, minha memória se tornar uma folha de papel em branco: tudo o que eu havia ensaiado e premeditado simplesmente... sumiu. Apagou. Evaporou-se. Senti vontade de morrer.
O silêncio era constrangedor, e eu precisava me mexer. Resolvi, então, num último golpe de desespero, fazer a única coisa que me ocorreu na hora: transformar a apresentação em depoimento. E que Merlin me ajudasse!...
- É... Bem... Q-quando a-ainda estávamos n-na Primeira Guerra c-contra o Lord das Trevas... – comecei, vacilante.
- Senhorita Raven, seria um imenso favor para todos nós se pudesse falar mais alto, interrompeu Severus, ríspido.
- S-sim, senhor, respondi. Então, respirei fundo e recomecei: Quando ainda estávamos na Primeira Guerra contra o Lord das Trevas, eu ainda era um bebê de colo. Meu pai, Alexander Sinclair, era instrutor na Academia de Aurores; minha mãe, Gabriella Sinclair, era uma advogada militante na Justiça Comum.
- Não vejo em que isso possa ser interessante para o tema em questão, Senhorita Raven. Por favor, não me peça para dar-lhe um zero, porque posso atendê-la, cortou Severus, uma vez mais. Ouvi risadinhas.
- Dê-me só um momento, senhor professor, e as coisas se esclarecerão – consegui, a custo, revidar. Prossegui: Uma noite, nossa casa foi invadida por uma dupla de Comensais da Morte. Por mais que meu pai fosse um auror experimentado, foi vítima de um feitiço paralisante que o grudou à parede; minha mãe, que voltava do quarto onde havia me colocado para dormir, também foi capturada por eles, submetida a uma Maldição Imperius e atirada ao chão, onde a ela se juntou meu pai, ainda paralisado. Ambos sofreram uma série de Cruciatus, antes do golpe final.
Respirei fundo novamente, e prossegui:
- Meu pai me disse que até então ele nunca imaginara que, além do próprio Lord das Trevas, pudesse existir alguém com o coração tão duro e tão frio a ponto de levar a cabo uma Maldição Necromanus, ainda mais atacando duas vítimas quase ao mesmo tempo. O Comensal atacou primeiro a minha mãe, mais fraca aos feitiços por ser trouxa, e deixou papai para depois, talvez para se divertir com seu sofrimento. Ah, e ele deve ter se divertido muito...
- Meu pai disse que eu comecei a chorar no quarto, e teria me tornado mais uma vítima se Aldebaran Black-Thorne, seu grande amigo e tio de Meridiana, não tivesse aparecido na hora e debelado os Comensais. Porém, o mal já estava feito, e a Necromanus já estava instalada em meus pais. Desse dia em diante, minha mãe começou a apresentar os sinais de desgaste. Por mais que papai lhe ministrasse poções fortificantes, isso apenas adiava de forma insignificante o fim irreversível. O fato de minha mãe ser trouxa também agravava a situação, deixando-a muito mais vulnerável a qualquer feitiço do que um bruxo comum. Assim, depois de definhar por dois longos anos, minha mãe finalmente morreu, em nossa casa, nos braços de meu pai. Eu contava apenas quatro anos incompletos, e tudo o que contei a vocês me foi contado anos depois por meu pai. Na verdade, ele me contou isso quando completei 11 anos e fui chamada a Hogwarts; foi quando ele também morreu.
- Acompanhei o definhar de papai pessoalmente, adiado pelas proteções naturais que ele, como auror, trazia sempre consigo, e pelos medicamentos experimentais, na verdade meros placebos, à época, que lhe eram periodicamente ministrados no St. Mungus. Quantas e quantas vezes o acompanhei ao hospital... E o efeito da Necromanus é cruel porque é claramente perceptível; é como se a pessoa se transformasse em um tanque e nele houvesse um pequeno furo, de onde a vida pinga sem parar, dia após dia, pingo após pingo... E não há nada que se possa fazer a não ser aguardar que o tanque se esvazie por completo... E nos esvazie, também.
Calei-me, de repente. Fiquei parada à frente da classe, cabeça baixa. Se eu tentasse prosseguir, seria impossível me conter, e não poderia chorar na frente do Senhor do Meu Coração.
- A aula acabou, podem se retirar, todos vocês. As notas serão fixadas amanhã no quadro de avisos, exclamou Severus, de repente, quebrando o silêncio. Anestesiada, eu permanecia estupidamente parada no mesmo lugar, enquanto ouvia o rumor característico dos alunos deixando a sala de aula. Senti que Meri se aproximara de mim, mas nem olhar para minha melhor amiga eu conseguia.
- Srta. Johnson, daqui a pouco começará outra aula e por isso preciso de minha sala livre, tornou Severus, sua voz soando às minhas costas. – Leve a Srta. Raven embora, já que ela parece incapaz de se mexer.
Senti, então, o braço de Meri passar por meus ombros e, sob seu amparo, deixei a sala de DCAT.
Por Meri e Raven
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