Friday, December 07, 2007

A lareira crepitava agradavelmente diante dela. Sentada, abraçando os joelhos, observava as chamas dançarem com alguma corrente de ar que eventualmente corria pela sala comunal. Relanceou o olhar pelo relógio de bolso que deixara pousado sobre o chão. Faltava mais dez minutos para o encontro que marcara com Meridiana.

Aquelas reuniões de madrugada estavam começando a se tornar uma constante entre elas. Apesar de saber que podia contar com Lore e Sam, havia coisas sobre as quais só conseguia se abrir de verdade com Meri... Era-lhe muito mais fácil pedir a ajuda da ruiva do que a de qualquer outra pessoa. E, nesse momento, ela realmente precisava de ajuda.

Dois dias tinham se passado desde o atentado com os chocolates e, desde então, ela passara todo o tempo que tinha pensando nas alternativas que tinha diante de si. Contando o que acontecera com Heather antes da páscoa e com Lore nas férias, aquele já era a terceira vez em que eram ameaçados. Tinham colocado apenas uma poção do sono para ela, mas quem garantiria que na próxima vez não haveria veneno de verdade?

Quem garantiria que, na próxima vez, alguém não sairia machucado de verdade?

Pouco depois, passos abafados soaram na escadaria que vinha do dormitório feminino e, levantando a cabeça, Mina divisou a figura da amiga surgir no final dos degraus, lançando-lhe um olhar gentil. Em silêncio, Meri cruzou o espaço entre elas, sentando-se no chão ao lado da mais nova.

- Pode falar, Mina... Sou toda ouvidos, para o que você precisar dizer. - a mais velha disse, pousando suavemente uma das mãos sobre o ombro de Mina.

- Obrigada, Meri. - ela murmurou, sorrindo ligeiramente - Bem, eu acho que tive uma idéia, já que todas as pistas que tínhamos nos levaram a nada... O cerco está se fechando e está na hora de termos algum trunfo real para apresentar quando for a hora. Mas, antes... Você tem tido alguma notícia da Adhara?

A ruiva assentiu. Desde que a prima se prontificou a ajuda-las nas investigações, ela e Adhara evitavam de se encontrar em público , mesmo os encontros na Torre de Astronomia foram interrompidos. Mas, a sonserina conseguiu outros meios de manter a grifinória informada da evolução de sua missão. Eram contatos esparsos e as duas tomavam cuidado para serem acessíveis apenas uma a outra. Iriam se encontrar pessoalmente apenas quando Adhara tivesse algo mais substancial em mãos...

- Ela já conseguiu dar o primeiro passo, Mina, já fez contato e ganhou a confiança de alguém que acreditamos ser capaz de introduzi-la ao círculo de jovens comensais infiltrados em Hogwarts. Ele é muito bem relacionado, mas estúpido o suficiente para se deixar enganar por Adhara.

Meri quase sorriu ao pensar que não se surpreendera ao descobrir as aptidões de Dhara para aquele tipo de trabalho. Ela não sabia se conseguiria ter o mesmo discernimento da prima algum dia, especialmente para lidar com tipos como o primo das duas, Theodore Nott, por quem a ruiva sentia imensa antipatia.

- "Pessoas muito bem relacionadas" em geral, dão importância demais a si mesmas e às suas próprias capacidades. - Mina observou, sem grande emoção, os olhos perdidos nas chamas - Preocupam-se apenas com sua própria grandeza, ou com a grandeza que imaginam possuir. São facilmente manipuláveis. - ela voltou a atenção para a ruiva - Um tanto assustador me ouvir falar assim, não? Na minha idade, eu não deveria ter esse tipo de pensamento ou preocupação.

Meridiana deixou um suspiro escapar por entre seus lábios. Realmente, todos eles não deveriam estar pensando em coisas como investigações, atentados, infiltrações. Se os tempos fossem outros, as preocupações deles se restringiriam a estudos, provas, namoros, passeios, como a maioria dos adolescentes, bruxos ou trouxas. Entretanto, eram tempos de guerra, e eles não poderiam simplesmente se alienar.

- Sei que não é justo... mas... de certo modo, foi o que escolhemos, não? Não fecharmos os olhos para os acontecimentos a nossa volta, fazer alguma coisa para mudar a situação...

Mina assentiu.

- Sim... Fazer alguma coisa... - ela deu um sorriso triste, desviando o olhar - Para começar, uma resposta à altura para o que fizeram. Eu estou com o novo texto da domadora quase pronto. Só falta um título. O que você acha? Será que dessa vez colocam veneno? Teremos que ficar de olhos mais abertos do que já estamos porque, a essa altura, eles vão entender que estamos desafiando-os abertamente. E não ficarão muito satisfeitos.

-Eles vão ficar verdadeiramente irritados, disso eu não tenho dúvidas, mas duvido que cheguem a algo tão drástico quanto matar qualquer um de nós. - Meri afirmou com seriedade, com um tom de voz tão frio e distante que quase se surpreendeu consigo mesma - Se fosse para matar alguém, ele já o teriam feito. Tiveram várias oportunidades. Eles querem nos assustar, nos intimidar para fazer com que paremos as investigações. Eles não desejam se expor, e eliminar um de nós, acabaria por nos dar a prova de que realmente existe algo de podre em Hogwarts...

- Há algo de podre no reino da Dinamarca, vossas excelências. - Mina assentiu - Meri, você se lembra que, na noite em que Victor Fenwick morreu, havia dois comensais nas Hébridas?

A mais velha anuiu.

- Sim... Victor e o outro que você não conseguiu ver o rosto, não é? Mas não entendo no que isso pode nos ajudar. Os dois morreram, e desvendar todo o mistério ao redor do Fenwick está se tornando uma tarefa mais árdua do que pensávamos.

- Eu não sei se o outro morreu. - Mina respondeu, virando-se para encará-la - E eu vi o rosto dele em algum momento, tenho certeza disso. Apenas não consigo me lembrar. Mas eu estava pensando esses dias... E existe uma maneira de acessar essas memórias, Meri. E, através delas... se pudéssemos descobrir quem era o outro comensal, se pudéssemos ligá-lo a alguém aqui de Hogwarts... As implicações disso podem ser grandes. Ou podem nos levar a lugar algum de novo.

Meridiana mordeu os lábios, processando o que Mina acabara de lhe dizer. Eram informações novas e possivelmente úteis. Realmente poderiam leva-los a um novo beco sem saída, mas também poderiam fazer com que obtivessem as respostas que tanto procuravam.

- O que exatamente você está pensando em fazer? -ela perguntou, encarando Mina de volta - Vai pedir ao Lusmore para acessar suas memórias, como ele fez no Natal?

- O poder de Lusmore não permite que ele acesse às minhas memórias de maneira completa. Ele experimentaria as mesmas emoções que eu experimentei, sua observação seria parcial demais. Ele veria tudo o que vi, mas não enxergaria verdadeiramente o que estava acontecendo. - Mina meneou a cabeça - Além disso, essa magia é uma experiência dolorosa tanto para a pessoa que a executa quanto para a pessoa em que ela é executada. Não, eu não acho que seja a hora de recorrer à Antiga Magia. Eu pensei em algo mais palpável... algo que permitiria acessar detalhes da memória que o próprio possuidor nunca se aperceberia sozinho... Uma penseira.

Meridiana desviou o rosto, olhando pensativamente para os próprios pés. A idéia era excelente, mas parecia-lhe praticamente impossível de ser executada.

-Tudo bem... Seria excelente se a gente soubesse onde encontrar uma... Ouvir dizer que Dumbledore tem uma, mas não acho que ele nos emprestaria e não consigo imaginar como entrar na sala do diretor e pegar a dele sem causar alarde... especialmente considerando que a maior parte do tempo, ele está fora da escola e a sala está trancada...

- Por isso que eu chamei você. - Mina respondeu - Dizem que duas cabeças pensam melhor do que uma. Minhas idéias me levaram até aí. Mas daí em diante, eu não sei como prosseguir. Não acho que iríamos conseguir encomendar uma. Pensando bem, eu nem sei se há algum lugar para se encomendar esse tipo de coisa...

A ruiva pousou a cabeça nos próprios joelhos, fitando a chama da lareira, como se o tremular do fogo pudesse trazer alguma resposta para ela. Deixando os pensamentos livres, em busca da solução daquele dilema, ela acabou por se lembrar de uma tarde, no começo das férias de verão do segundo ano para o terceiro ano...

Os pais de Satanio haviam recém-adquirido uma casa em Hogsmeade, para ficarem mais próximos do filho quando estivessem no país. Grande parte dos artefatos dos estudos arqueológicos do casal Goddriac estava entulhado na pequena biblioteca da casa. Ela se lembrava do sonserino mostrando as peças para se exibir para ela e Raven. Foi a primeira vez que Meridiana soube o que vinha a ser uma penseira.

- Talvez eu tenha a solução, Mina. Os pais do Sat tinham uma penseira antiga, se eles não a tiverem remanejado para algum museu, pode ser que ainda esteja na casa deles.

Os olhos de Mina brilharam, esperançosos.

- Você acha que ele poderia nos emprestar?

- Claro! - Meridiana respondeu um pouco mais animada - Ele não vive contrabandeando cervejas amanteigadas para as nossas festas? Ir na casa dos pais buscar a penseira deve ser fichinha para ele! O que nos deixaria apenas com uma outra questão. Como tirar as lembranças da sua cabeça...

- Esse é outro problema mais imediato... Pesquisei em alguns livros e não descobri muito sobre feitiços para retirar memórias de alguém e colocá-las numa penseira. Para desmemoriar, confundir e coisas do tipo, entretanto, eu já quase me tornei uma especialista... - ela revirou os olhos - Quais as chances de algum professor desconfiar das nossas atividades se formos perguntar com interesses acadêmicos?

- Hum...Acho que eu poderia tentar descobrir alguma coisa com o Flitwick... - Meridiana respondeu pensativa - Afinal, Feitiços é a matéria dele, não pareceria tão suspeito se eu usar os NIEMs do próximo ano como desculpa. Se não der certo, tento pensar em outra coisa.

- Então eu falo com o Sat. - Mina concluiu - Talvez dessa vez conseguimos deitar as mãos num peixe grande, Meri.

A ruiva deixou que um sorriso quase triunfante se estampasse em seu rosto, observando que algo parecido tomava o semblante de Mina, afinal, era a primeira vez desde que voltaram do feriado de Páscoa que as coisas pareciam realmente caminhar para a resolução daquela trama sinistra em que acabaram por se envolver.

Por Mina e Meri

No comments: