Monday, March 12, 2007

The First Step

Normalmente após o jantar Adhara já estaria recolhida em seu dormitório terminando deveres, lendo algum livro em companhia de seus travesseiros ou então organizando alguma coisa para o dia seguinte. Naquela noite, entretanto, ela fazia o caminho até a biblioteca do castelo. Abril estava no fim e no mês seguinte estava marcada a data de entrega da monografia de Defesa Contra as Artes das Trevas, sendo que as apresentações orais aconteceriam ao longo dos últimos meses de aula. Chegara a um ponto em que não poderia mais renegar aquele trabalho.

No entanto, não fora apenas interesse acadêmico que a levara a marcar com sua dupla naquele trabalho, Theodore Nott, para que se encontrassem naquela noite a fim de discutirem os pontos finais da monografia. Havia outro motivo, um motivo chamado “Olho do Grifo”.

Não se esquecera do pedido que Meridiana lhe fizera em março, e nem do que prometera à ruiva. Aquele assunto poderia não fazer diferença alguma para si, mas fazia diferença para Mina e seus amigos. Mais do que nunca ela compreendera a importância disso para eles quando vira o sorriso e o brilho de confiança nos olhos da jovem MacFusty na ocasião em que ela lhe entregara as pistas que já haviam sido capazes de obter até o momento. Não entendia realmente como havia se metido naquela história... Mas, bem ou mal, ela representava uma esperança para aquelas pessoas. E ela reconhecia que poderia não ter realmente uma personalidade leal ou altruísta, mas palavra empenhada era algo a que dava valor e não voltaria atrás com a sua.

Nott já insinuara, por mais de uma vez, que mantinha algum tipo de contato com a rede Comensal que havia dentro da escola, talvez ele até fizesse parte disso. Assim decidiu que o primo poderia ser um bom começo. Não duvidava que, tendo paciência e jogando com as cartas certas, ele lhe diria tudo o que sabia e talvez até o que não soubesse. E julgava já ter desvendado o caráter de Nott o suficiente para saber o que ele queria ouvir dela.

Quando adentrou a biblioteca, rumou diretamente para a mesa em que havia combinado de encontrá-lo, uma que ficava mais para o fundo do local, escondida atrás de uma das estantes de livros de poções e venenos. No entanto, Nott não estava sozinho como esperava: ele conversava de cabeça baixa e em sussurros com outro rapaz. Foi somente quando parara em frente à mesa e pigarreara de leve para anunciar sua presença que os dois sonserinos a notaram.

Theodore sorriu como se mais nada no mundo pudesse dar-lhe satisfação semelhante quanto a aparição dela ali o outro, porém, encarou-a de forma impassiva.

- Pontual como sempre, minha prima. Agora, se me der licença por um instante, irei pegar os livros que havia separado com Madame Pince. – ele levantou-se da cadeira e então virou-se para o outro garoto com o intuito de despedir-se – Continuaremos nosso assunto em outra hora, Draco.

O loiro assentiu em silêncio e, no instante seguinte, Adhara viu-se sozinha na companhia de Draco Malfoy. Fazia tempo que não via o colega de Casa assim tão de perto, parecia que ele não estava comparecendo a nenhuma aula com muita freqüência, exceto talvez a de Snape.

O rosto pálido e fino parecia mais magro do que antes, haviam olheiras profundas sob os olhos cinzentos e as pálpebras cansadas reforçavam a impressão de que ele não deveria estar dormindo muito bem. O uniforme do rapaz, que ela lembrava ser geralmente engomado e impecável, também parecia incrivelmente desleixado, acentuando o descuido do loiro para com a própria aparência.

- Está olhando o que, Ivory? – perguntou Malfoy, ríspido.

Adhara, no entanto, não intimidou-se em nada com o tom dele.

- Você está um lixo. – foi a resposta da moça.

Draco a encarou com descaso antes de levantar e apanhar seus pertences, mas parou em meio a tal ação quando ouviu a voz da garota a lhe chamar. Adhara não fazia idéia do que a motivara a dizer as seguintes palavras, talvez fosse a consciência sobre os verdadeiros motivos de estar se encontrando com Theodore naquela noite que começavam a lhe influenciar.

Era fácil de notar que havia alguma coisa de errado com Malfoy, que havia um peso sobre os ombros dele, talvez um peso maior do que ele pudesse carregar... E, após ver Meridiana e seus amigos lidando com algo semelhante, algo maior do que eles mesmos, e lutando para fazerem frente aquele desafio, de certa forma ela desejava que ninguém mais fosse se meter a fazer algo parecido...

Eles ainda eram jovens demais e, por mais que tivesse concordado em ajudá-los e por mais que evitasse demonstrar isso na frente de Meri e dos demais, Adhara sentia que aquela história viria a terminar apenas em tragédia.

- Você pode ser um idiota, Draco, mas não creio que se encaixe entre os piores tipos. Então não vá fazer algo que possa te trazer arrependimento depois.

Olhos cinzentos a encararam, duros e impenetráveis que não abaixavam a guarda por sequer um instante, como se temessem que ela pudesse captar algum vislumbre que lhe entregasse. Ainda assim, Draco não respondeu nada e ela sequer esperava que ele o fizesse. Tudo o que o sonserino fez foi proceder em afastar-se dela.

Foi somente quando o loiro já havia sumido entre as estantes que Theodore retornou com os livros que prometera.

Os dois jovens acomodaram-se, folheando páginas, esparramando pergaminhos sobre a superfície escura da mesa, apanhando pena e tinteiro. Nott até executara um feitiço de imperturbabilidade ao redor deles para que não fossem atrapalhados por eventuais burburinhos pelo restante do local, muito embora Adhara suspeitasse que não era exatamente por causa do trabalho que o garoto resolvera fazer aquilo.

E, menos de cinco minutos depois, suas suspeitas se provaram corretas...

- Ouvi dizer que você terminou seu namoro com o Barton. – Theodore comentou, com os olhos grudados na página de um velho livro de maldições e em um tom de voz que pretendia parecer desinteressado, mas não enganava a sonserina.

A moça quase sorriu quando constatou o quão fácil havia sido. O próprio Theodore não resistira a tentar quebrar o gelo entre eles e, se deixasse o garoto ficar com a impressão de que poderia arrancar confissões pessoais dela, que os dois seriam, no mínimo, íntimos, então mais fácil ainda seria conseguir dele o que precisava.

- Você ouviu certo. – respondeu de forma neutra, mas não fria o bastante para que o primo não se sentisse encorajado a tentar a própria sorte e perguntar novamente.

- E terminou por qual motivo?

Dessa vez, Adhara sorriu minimamente. Theodore não era bom naquele jogo, havia uma nota discreta, mas ainda muito distinta, de ansiedade na voz dele. Virou seu rosto na direção do outro, constatando que ele também se esquecera de fingir que estava lendo o livro que tinha em mãos.

- Oh, ele estava começando a me irritar, só isso. Grifinórios, você sabe como eles são... – completou com um ligeiro menear de cabeça, apenas para reforçar a impressão de que os integrantes da Casa dos Leões lhe irritavam.

- Ah, eu sei. – ele apressou-se em concordar – Bando de arrogantes que se metem no que não devem, campeões da plebe de sangues-ruins que crêem que podem salvar o mundo todo com suas tendências heróicas. Esse tipo de ralé é a primeira que irá cair...

Ainda com seu discreto sorriso, Adhara observou o garoto que não parava de destilar palavras venenosas à sua frente. Theodore fora uma alvo muito fácil, mais fácil do que havia suposto, e isso provava justamente que ele estava muito longe de ser um dos indivíduos que encabeçavam os esquemas do “Olho da Serpente”.

Naquele jogo, Theodore Nott era um peão e, depois que ele a ajudasse a entrar no tabuleiro, teria que dar um jeito de descartá-lo se quisesse realmente chegar até o rei.


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Adhara Ivory aproveitou o último horário livre que teria antes do almoço para descer à biblioteca da escola. Estranho como nas últimas semanas passara a freqüentar aquele lugar por mais vezes do que geralmente fazia durante um trimestre inteiro.

Talvez aquela nova tendência tivesse alguma coisa a ver com a carga duplicada de trabalhos que os professores estavam passando com a chegada do último bimestre letivo ou talvez, e ela suspeitava que essa última hipótese fosse a mais correta, aquilo se devia à sensação desconhecida que lhe acometera desde que retornara à escola e encontrara uma pessoa a menos em seu dormitório.

Quanto mais ocupada se mantivesse, menos tempo teria para olhar a cama vazia de Suzannah... E para imaginar o que a dona dela estaria fazendo naquele exato instante.

Perambulou a esmo pela biblioteca parcialmente lotada antes de rumar para a seção de livros cujo empréstimo era liberado apenas para alunos a partir do quinto ano, devido ao seu conteúdo mais denso e perigoso, e decidiu que provavelmente não lhe faria mal ler mais um pouco sobre o assunto da tal monografia de Snape.

Passou por um corredor, examinando superficialmente a lombada dos livros sem encontrar nenhum título relacionado ao que procurava. Quando fez a curva para adentrar o corredor da próxima estante, seus olhos registraram a figura de Draco Malfoy mais adiante. Como se pressentisse que não estava mais sozinho, ele virou o rosto, seus olhos cinzentos como um céu nublado encontrando o límpido azul meia-noite dos orbes dela.

Adhara estancou em seu lugar, relembrando-se naquele exato instante sobre o conteúdo da última conversa que tivera com o loiro. O rapaz, entretanto, não deu mostras de desconforto, apenas cumprimentando-a com um aceno de cabeça vago e desinteressado. Diante disso, a jovem Ivory aproximou-se, afinal não tinha culpa se Malfoy estava escolhendo livros justamente na seção em que ela entrara.

- Hei. – disse a moça, apenas para não parecer mal-educada por não tê-lo cumprimentado.

Draco limitou-se a respondê-la com o mesmo monossílabo e Adhara decidiu que não seria sensato exceder aquilo.

O barulho de livros sendo retirados, folheados e recolocados nas prateleiras envolveu-os durante aquele período em que nenhum dos dois fez questão de dizer coisa alguma. Era como se estivessem procurando ignorar um ao outro, mas ainda com o cuidado de se tratarem com mútua educação.

Ivory guardou um livro de pragas perpétuas que estava consultando, mas não pareceu-lhe muito promissor, e estendeu seu braço para apanhar um volume que falava sobre maldições que agiam progressivamente. Entretanto, a ponta de seus dedos apenas resvalaram de leve na lombada sem que conseguisse realmente apanhá-lo, visto que a prateleira era alta em demasia para ela.

Suspirou, conformando-se de que teria que começar a dar pulinhos na frente de Malfoy se quisesse tentar alcançar o livro em questão, quando viu que dedos compridos e magros haviam apanhado o volume com imensa facilidade por cima de sua cabeça.

A sonserina virou-se, encontrando Draco parado atrás de si e com o livro em mãos. Sem dizer nada, ele estendeu o objeto para Adhara.

- Obrigada. – disse ela, ao apanhar o volume que tinha a capa em couro escarlate.

O loiro deu de ombros, desviando-se dela e voltando à sua tarefa de folhear os livros das prateleiras mais próximas.

Ela olhou para a encadernação que tinha em mãos e sem seguida para o colega de Casa. Quase não conseguia esconder que o gesto de Draco havia deixado-a, no mínimo, surpresa. Era de senso comum saber que membros de famílias de sangue puro e sobrenome tradicional costumavam ser bem educados ou, pelo menos, haviam tido uma boa porção de aulas de etiqueta, mas raro era ver tal educação ser usada longe dos salões de festas ou jantares em família.

Esse gesto tornava-se especialmente mais raro se vindo do garoto que havia chegado a Hogwarts em seus onze anos agindo como se fosse o dono de todo o castelo. Mas, pensando bem, ela não era assim tão diferente naquela época... Em seus primeiros anos na escola, Adhara de fato costumava olhar para os outros alunos como se eles fossem um bando de retardados. Não era com admiração que constatava que, mesmo até aquele dia, sua popularidade não havia aumentando em nada se comparada ao status que gozava ao término de seu primeiro trimestre ali. Nem mesmo dentro da Sonserina as coisas haviam evoluído.

Abraçou o livro contra seu peito, tentando ponderar se faria bem ou mal dizer mais alguma coisa a Malfoy. A verdade é que, de certa forma, sentia falta de ter alguém com quem conversar de vez em quando... Nada profundo ou repleto de confissões, mas apenas simples conversas. Sobre qualquer um ou sobre qualquer coisa... Palavras trocadas sem um segundo pensamento, sem uma vigília constante.

Simplesmente, sentia falta de Suzannah...

Talvez aquele fosse o ponto ruim de arranjar um amigo e aprender a confidenciar com ele. Quando tal pessoa faltava, você sentia-se um tanto perdido.

Antes havia em si aquela certeza latente de que poderia procurar por Trowa caso houvesse algo que realmente lhe incomodasse, o parentesco haveria de falar mais alto e ele certamente a ajudaria... Agora, entretanto, Trowa não era uma opção e provavelmente nunca mais o seria.

Havia Meridiana, e ela não duvidava que a ruiva se sentiria feliz e a ouviria de bom grado caso fosse procurada... Mas, ainda assim, não era a mesma coisa. Havia um motivo, afinal, para Meri ter sido selecionada para a Grifinória e ela para a Sonserina. Em algum ponto, a essência das duas divergia completamente.

Poderia aprender a conviver com Meridiana e a apreciar o valor dela, mas sabia que não conseguiria abrir-se realmente com a ruiva. Não se tratava de confiança ou de mérito, mas apenas de diferenças imutáveis em certos aspectos e em certos pontos de vista. E, no fundo, era o mesmo com Trowa... Acima de tudo, havia sido por isso que não conseguira permanecer ao lado dele.

- Você já terminou sua monografia? – subitamente as palavras haviam vindo até sua boca e ela não sentiu um impulso verdadeiro em refreá-las. Se aquilo se provasse inadequado, não iria importar-se.

Malfoy virou-se de volta para a garota, o cenho franzido, visivelmente estranhando o fato de Adhara estar iniciando uma conversa educada com ele.

- Blaise está dando os retoques finais. – respondeu, meio incerto se estava fazendo realmente a coisa certa ou se teria sido melhor ignorá-la.

A jovem assentiu.

- Engraçado como Snape foi categórico na questão das duplas serem sorteadas, mas eu não vi muitos sonserinos formando pares com alunos de outras Casas. – ela comentou em um tom leve, que não parecia contestador. E, de fato, ela não discordava do professor. Poderia não ser popular dentro de sua Casa, mas, ao menos, era respeitada pela maioria.

- Bem, não há nada de errado em privilegiar aqueles que fazem por merecer. – disse Draco.

A moça de olhos azuis sorriu de forma extremamente discreta.

- Acho que você está certo, quando se faz realmente por merecer...

O loiro fez um vago gesto de concordância antes de voltar sua atenção para a estante e pegar outro volume. Já ela, por sua vez, abriu o livro de maldições que Malfoy lhe alcançara, começando a consultar o índice para ver se encontrava algum tópico correspondente à maldição Maleficium. Concluiu que, por ora, aquelas parcas palavras haviam sido o suficiente.

por Adhara

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