Friday, February 02, 2007

The Break Up

Olhos verdes fitavam os terrenos ensolarados que descortinava-se ao seu redor, mais adiante a superfície escura do lago parecia reluzir ao entrar em contato com os raios de sol. Era um fim de semana agradável em Hogwarts.

Após passar o feriado de páscoa fora daquele castelo e entrar em contato com a situação caótica que se instalara no restante da Grã-Bretanha, mais do que nunca o rapaz chegara à conclusão de a Escola de Hogwarts era um dos últimos refúgios do mundo bruxo, um verdadeiro santuário, um símbolo de esperança. Eram locais e ideais como aquele que precisavam proteger a todo custo.

Hogwarts significava um lugar seguro para o qual retornar. Aquele era seu último ano ali e no próximo outono não estaria subindo a bordo da locomotiva escarlate. No entanto, haveriam outras pessoas retornando... Adhara estaria retornando. Pelo menos por mais um ano ela estaria segura dentro daqueles muros e sob a proteção de Albus Dumbledore. Quem sabe, se tivessem sorte, a guerra acabaria antes disso que o próximo ano letivo se findasse... A queda D’Aquele-Que-Não-Deve-Ser-Nomeado significaria também a queda dos inimigos de Kamus Ivory. Daquela forma, Adhara estaria definitivamente a salvo.

E ele pretendia dar tudo de si para que aquilo acontecesse.

Após o incidente com Ludovic Black-Thorne durante a páscoa, seu objetivo de tornar-se Auror deixara de ser apenas os planos de um menino para vingar seus antepassados mortos pelo Lorde das Trevas. Ele agora tinha algo mais importante do que a vingança e a recuperação da honra: ele tinha alguém para proteger.

O barulho de passos leves sobre o gramado chamou-lhe a atenção e ele virou seu rosto para observar a garota que se aproximava. Por alguns instantes seu olhar prendeu-se no brasão da serpente verde e prata estampado sobre o peito dela e, quase sem perceber, pela primeira vez ele pegou-se pensando sobre o que o Chapéu Seletor haveria visto dentro de Adhara naquela noite de 1º de setembro, há seis anos atrás.

Ele lembrava-se de, do seu lugar na mesa da Grifinória, tê-la visto caminhar altivamente até McGonagall quando fora chamada, de maneira semelhante com a qual ela agora caminhava ao seu encontro. Lembrava-se que o velho Chapéu não ficara sequer dois segundos sobre a cabeça dela antes de sentenciar para todo o salão: “SONSERINA!”.

Agora questionava-se sobre o que refletia a escola do Chapéu Seletor. Sabia que Kamus Ivory, e provavelmente todos os outros descendentes da família Black que vieram a Hogwarts antes dele, possuíam a tradição de serem selecionados para a Casa das Serpentes. Mas a mãe dela, sua prima Anabelle, fora uma corvinal. Os membros da família Barton, em sua maioria, sempre haviam oscilado entre a Grifinória e a Corvinal, com alguns raros lufanos uma vez ou outra. Mas nunca haviam tido sonserinos.

Se fosse tratar-se de ascendência, a moça de olhos azuis poderia ter sido selecionada para qualquer uma das quatro Casas. Além disso, Adhara já provara que não era nenhuma ambiciosa, preconceituosa, assassina de trouxas... Então, por que a Sonserina?

Trowa tentou afastar aqueles pensamentos de si quando a jovem em questão sentou-se ao seu lado sobre o gramado. Tentou sorrir, estendendo uma de suas mãos para envolver as dela. A garota permitiu o contato sem esboçar reações, embora tenha se mantido indiferente ao toque. O grifinório, entretanto, não pareceu reparar neste detalhe. Não havia tido chances de conversar com a namorada desde que ela retornara para a escola, no início da semana, e tinha que reconhecer que estava, de certa forma, ansioso por notícias dela.

- Como você está? – perguntou ele.

Adhara buscou os olhos dele, encarando profundamente aquela íris verde. Havia uma genuína preocupação nos olhos de Trowa. No entanto, aquilo não lhe parecia, em nada, algo encarecedor.

“Como você está?”, repetiu a pergunta dele em sua mente. Como ela estava? Por onde poderia começar? Frustrada, perdida, presa e sem expectativas, sentindo-se fracassada porque seus planos haviam provado-se infrutíferos, humilhada porque tivera que retornar para o pai após ter fugido dele e absolutamente sem saber o qual seria o seu próximo passo?

- Pare de me perguntar esse tipo de coisa. Não vou dizer que estou bem só para que você possa se acalmar. – respondeu, fria.

Trowa encarou-a com um certo espanto. Se possível Adhara estava ainda mais mórbida e brutal do que da última vez em que a encontrara. Imaginara que alguns dias de descanso e tratamento em casa teriam feito com que ela se sentisse mais segura e tranqüila, pelo menos acreditava que era aquilo o que Kamus havia intencionado ao manter sua filha em Londres por mais uma semana após a páscoa.

- Não quero que você diga algo apenas para me acalmar, quero que seja sincera comigo. – com essas palavras, Barton apertou ainda mais as mãos da namorada entre as suas.

Irritada, Adhara puxou suas mãos para longe do toque de Trowa.

- Eu quero terminar o nosso compromisso. – de forma abrupta ela disse as palavras que estavam rondando sua mente continuamente nos últimos dias.

O rapaz achou que não havia entendido direito.

- O que disse?

- Estou terminando com você. – a sonserina repetiu – Aqui... – para demonstrar melhor sua intenção ela tirou de seu mindinho esquerdo o anel que Trowa havia lhe dado como presente de natal e jogou-o sobre o gramado – Pronto, acabou.

Ele observou a jóia de prata incrustada com um rubi que ela tratara com tanta indiferença antes de levantar seus olhos para a face gélida da garota.

- Isso é... É por causa do Black-Thorne? Você está com medo de que devido ao nosso envolvimento eu acabe me tornando um alvo também? É isso, Adhara? Você está tentando me prote...

- Não é nada disso! – ela gritou, interrompendo grosseiramente o rapaz.

Trowa parou e seus olhos tornaram-se também frios antes de voltar a falar:

- Então o que é, Adhara?

A moça não desviou o olhar dele, cerrando seus punhos por debaixo das mangas compridas de sua capa. Como poderia explicar para que Trowa entendesse direito e de uma vez por todas?

- A garota que você tem namorado... – ela começou – Essa não sou eu. A Donzela de Gelo que descobre as maravilhas do mundo e tem suas feridas de abandono curadas por sentimentos como amizade e amor e finalmente aprende a apreciar a vida de uma “garota normal”, essa não sou eu. Eu estava tentando ser essa menina unicamente porque a perspectiva de vida dela é muito melhor, muito mais fácil e mais feliz do que a minha.

Finalmente dizer aquilo em voz alta tornou tudo ainda mais real do que era em sua mente. Ela havia tentando ser aquela garota, havia entregado seu coração ao afeto e aos cuidados de Trowa... No entanto, tudo o que construira ao lado dele naqueles doces meses de felicidade havia sido destroçado com um simples sopro de um vento mais forte, como se fosse um castelo de cartas de baralho. Tudo o que levara foram alguns instantes com Ludovic para que ela voltasse a ser exatamente tudo o que era antes do namorado aparecer.

Diante da incerteza se escaparia viva ou morta do encontro com o Comensal, não fora ao amor e à esperança de reencontrar-se com Trowa que ela se agarrara para obter forças para resistir, mas sim à personalidade que sabia ter herdado de seu pai e os ensinamentos que Eric lhe transmitira.

Ela preferira os dois homens que havia atormentado-a por toda a sua vida ao invés do homem que a amava e, bem ou mal, ela havia sobrevivido. Sobrevivera sem sequer ter um pensamento direcionado em Trowa. E quando tudo acabara, quando acordara em sua cama no casarão dos Ivory, sequer conseguira encontrar conforto nas palavras ou nos braços do grifinório.

- Amor pode ser uma coisa muito bonita nos livros e nos casais que andam por aí de mãos dadas, trocando juras e promessas, mas, para mim, isso não serve de nada. Não me ajuda em nada. E eu não quero mais coisas desnecessárias na minha vida, Trowa. – ela fez uma pausa, encarando-o então como se estivesse pronta para desferir a cartada final – Você é algo desnecessário.

Trowa respondeu ao olhar dela com uma expressão tão dura e fria quanto a da garota à sua frente. Sem dizer mais uma palavra, ele retirou de seu mindinho esquerdo o anel que fazia par ao de Adhara antes de levantar-se e dar as costas para ela, rumando de volta para o castelo.

Após alguns instantes em que observou o rapaz se afastando, Adhara voltou sua atenção para o chão fitando, com uma expressão indecifrável, o par de anéis cujas pedras vermelhas refletiam os raios de sol, brilhando tristes e solitários sobre o gramado.

por Adhara

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