"A operação Vôo do Grifo foi um sucesso. Amanhã já poderemos ver a
repercussão da Megera Domada."
Mina amassou o bilhete, jogando-o para dentro do malão antes de afastar
o dossel da cama e se levantar. Todas as outras garotas no dormitório ainda
dormiam. Suspirando, ela olhou para seu relógio de cabeceira.
- Maldito relógio biológico que me faz acordar às seis em plena manhã de
domingo... - ela resmungou baixinho para si mesma, enquanto voltava a guardar o
malão e seguia pé ante pé para o banheiro.
Quinze minutos depois ela deixava silenciosamente o dormitório. Não
havia ninguém na sala comunal.
- Também, nem todo mundo é doido como você, Mina... - ela respondeu em
voz alta aos seus próprios pensamentos.
Decidida a comer alguma coisa, de preferência algo com muito açúcar para
ajudar com seu nervosismo, ela deixou a torre e seguiu para a cozinha. Glicose
certamente seria a solução perfeita para suas preocupações.
Ao chegar lá, deparou-se com uma cena bastante estranha. Uma mocinha de
cabelos negros e despenteados ria a valer, acompanhada de Dobby, que rolava
sobre a mesa e segurava a barriga. Nas mãos da moça, que Mina reconheceu como
sendo uma das amigas de Meridiana, estava um pergaminho bastante suspeito.
- Agora ouça essa, Dobby, que é melhor ainda! - exclamou Raven,
estendendo o pergaminho bem à frente dos olhos, mal contendo um sorriso
triunfal - "Feliz o dia em que a megera que tenta nos manter dóceis às
vontades de um Ministério cego e sem capacidade ganhe um belo pontapé na
bunda!"
- Extraordinário, Raven, extraordinário! Dobby achou o máximo! -
exclamava o elfo, pulando sobre a mesa e batendo palmas - Dobby sente falta de
Alvo Dumbledore, sente muito, e quer essa mulher horrível fora de seu lugar!
- Todos queremos, Dobby, meu filho, todos queremos... Mas, veja só:
temos companhia! - exclamou Raven, apontando na direção de Mina - Eu não sabia
que tinha parceria na fome clandestina - comentou, dando uma grande mordida em
um também grande sanduíche.
Mina não conseguiu responder. Permanecia estática, com os pés grudados
no chão, desde que ouvira o texto que escrevera soar na voz da sonserina.
Entendera afinal o que significava o bilhete que recebera no dia anterior... E,
embora já estivesse esperando há algum tempo a distribuição do texto, ainda
assim, fora um choque encontrar alguém lendo e gostando dele!
- Ih, acho que é mais uma grifinória com medo de uma sonserina... -
brincou Raven, cutucando Dobby.
- Senhorita MacFusty, Dobby a conhece - disse o elfo, fazendo uma
mesura. - Boa moça, só tímida.
- Eu... Eu não esperava encontrar ninguém aqui a essa hora... - arriscou
Mina.
- Eu também não, é um crime acordar tão cedo assim - respondeu Raven,
mordendo mais um pedaço do sanduíche. - Mas é que ontem, por conta dos deveres
de Transfiguração, não consegui fazer meu lanchinho básico da meia-noite e meu
estômago reclamou agora, de uma forma incontrolável... Venha, sente-se aqui
conosco e desfrute de um sanduíche como o meu: o molho é uma receita especial
de Dobby.
Mina sentou-se, tremendo imperceptivelmente. Não tinha certeza se queria
ou não ficar ali e ver o que aconteceria. Seus olhos grudaram-se,
involuntariamente, no pergaminho estendido à frente de Raven. O seu texto. Seu
libelo contra a Sapa Velha.
- Já teve o imenso prazer de ler isto? - perguntou Raven, passando-lhe o
informativo. - É um espetáculo! Olhe, gostaria muito de saber quem escreveu
isso, para dar meus sinceros e comovidos parabéns. Essa Domadora de Dragões é
uma alma abençoada; para ser perfeita, só faltava ter assinado o próprio nome,
ainda que isso acabasse sendo um suicídio acadêmico. Eu podia quase afirmar que
esse texto é da Meri!
- Não, não é... - disse Mina, num ímpeto do qual se arrependeu na mesma
hora. Por que não mordeu a língua?
- Hum, então você sabe quem escreveu!? - perguntou Raven, os olhos
brilhantes de curiosidade.
- É, bem, saber eu não sei, mas... É que... Eu...
- Já sei, você sabe mas a pessoa pediu para guardar segredo? Tudo bem,
eu compreendo... Mas eu lhe pedir um favor: quando se encontrar com a autora
desta pérola, diga a ela que eu, Raven Sinclair, tiro-lhe meu chapéu em
reverência.
- Oh, sim, pode deixar... - respondeu Mina, bastante encabulada - A
propósito, eu sou Mina MacFusty. Já te vi algumas vezes com Meridiana, mas não
tinha tido a oportunidade de conhecê-la.
Raven piscou surpresa por alguns instantes antes de aceitar a mão
estendida da grifinória. Mina voltou a atenção para o pergaminho novamente,
observando as fotos que Herman conseguira para o fanzine. Realmente, tinha que
dar o braço a torcer: a edição ficara primorosa...
- Senhorita Mina, o que Dobby pode fazer pela senhorita? - o elfo
perguntou, fazendo mais uma mesura.
- Poderia me arranjar alguma coisa com muito açúcar, Dobby? Alguma torta
recheada ou coisa do tipo? Quem sabe até um pouco de chocolate...
- Dobby providencia, senhorita Mina, Dobby já volta.
Sonserina e grifinória ficaram sozinhas na cozinha e Mina percebeu que
Raven a observava divertida.
- Não existe nada melhor que açúcar para nos deixar mais felizes. - Mina
observou - Em tempos como esses, todo mundo deveria receber rações dobradas de
glicose.
Raven riu.
- Parece que encontrei alguém que pensa como eu!
Nesse momento, Dobby voltou com um pequeno embrulho e Mina se levantou.
- Bem, eu vou voltar para minha sala comunal. Até mais, Sinclair. - Mina
fez um aceno com a cabeça, sentindo-se estranhamente mais leve.
- Pode me chamar de Raven! E foi um prazer conhecê-la.
Mina assentiu e deixou a cozinha com uma disposição muito diferente
daquela com a que tinha chegado. Engraçado como ela sempre mudava de humor tão
rápido... Deveria ter alguma coisa a ver com a lua...
Meneando a cabeça para esquecer pensamentos tão disparatados, ela seguiu
pelos corredores. Quando estava já próxima de chegar na torre dos leões,
decidiu que estava um belo dia para fazer um piquenique. Desviou do caminho
pelo salão principal e já estava quase nos portões quando ouviu passos.
Virou-se imediatamente, encontrando um rapaz que parecia se encaminhar
para o salão principal. Isaac não parecia tê-la percebido ou talvez não
quisesse falar com ela, já que a estava evitando desde o episódio da
detenção... Seu bom humor vacilou por alguns instantes, mas, reconhecendo que
quem errara fora ela mesma, respirou fundo e deu um passo à frente.
- Bom dia, cão de guarda. - ela cumprimentou com um meio sorriso.
Isaac virou-se para ela, arqueando a sobrancelha ao reconhecê-la.
- Milady. - ele respondeu com uma pontada de ironia.
- Hum... Acho que estou sendo repetitiva, mas... Desculpe pelo outro
dia... - Mina respirou fundo de novo - Eu reconheço que às vezes sou um tanto
intratável...
- Um tanto? - ele perguntou, cruzando os braços - Certo. Está desculpada.
Ela sorriu e voltou-se novamente para os portões, disposta a continuar
com seus planos de piquenique.
- Mina?
Isaac aproximou-se enquanto ela se virava.
- O que houve? O rapaz tirou do bolso um pergaminho ligeiramente
amassado e entregou para ela.
- Já leu isso aqui?
Mina estendeu a mão para desdobrar o pergaminho e deparou-se novamente
com o fanzine.
- Já, já li sim. Na cozinha. Tinha uma garota lá, lendo para o Dobby.
- Tem certeza que já não o tinha lido antes, milady? - ele perguntou,
estreitando os olhos.
- Absoluta. - ela respondeu, embora não parecesse ter tanta certeza.
Isaac voltou a dobrar o pergaminho, guardando-o no bolso.
- Isso é engraçado... Não há muitas pessoas na escola que possam se
dizer "domadores de dragões"... A não ser você.
- Eu não sou uma domadora. - Mina respondeu, mordendo os lábios - Só
poderei começar a trabalhar com os negócios da família quando me formar.
- Ainda assim... - Isaac continuou - Além do pseudônimo, o texto lembra
um pouco o seu estilo de escrita. Talvez eu devesse pedir à Adhara que o
comparasse com o que ela leu naquela sua história...
Mina cruzou os braços, sentindo, pouco a pouco, o bom humor abandoná-la.
- Você não quer também uma confissão por escrito, cão de guarda?
Ele apenas sorriu.
- Não será preciso. Está de parabéns pelo texto, milady.
Mina revirou os olhos.
- Eu não...
- Prometo que não vou contar a ninguém. - ele a interrompeu, voltando-se
novamente na direção do salão - Até a próxima, Lady Mina.
A grifinória apenas observou-o desaparecer e, em seguida, marchou
decidida para o jardim. Agora, mais do que nunca, precisava de um pouco de
açúcar.
Durante os dias que se seguiram, em todos os cantos que ela ia, os
alunos pareciam estar sempre cochichando alguma coisa. E, apesar de suas
desconfianças, a Sapa Velha não parecia ter descoberto nada sobre o Olho do
Grifo. Herman Mercury fizera, sem dúvida, um bom trabalho.
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