Saturday, July 20, 2013

Repercussões

"A operação Vôo do Grifo foi um sucesso. Amanhã já poderemos ver a repercussão da Megera Domada."

Mina amassou o bilhete, jogando-o para dentro do malão antes de afastar o dossel da cama e se levantar. Todas as outras garotas no dormitório ainda dormiam. Suspirando, ela olhou para seu relógio de cabeceira.

- Maldito relógio biológico que me faz acordar às seis em plena manhã de domingo... - ela resmungou baixinho para si mesma, enquanto voltava a guardar o malão e seguia pé ante pé para o banheiro.

Quinze minutos depois ela deixava silenciosamente o dormitório. Não havia ninguém na sala comunal.

- Também, nem todo mundo é doido como você, Mina... - ela respondeu em voz alta aos seus próprios pensamentos.

Decidida a comer alguma coisa, de preferência algo com muito açúcar para ajudar com seu nervosismo, ela deixou a torre e seguiu para a cozinha. Glicose certamente seria a solução perfeita para suas preocupações.

Ao chegar lá, deparou-se com uma cena bastante estranha. Uma mocinha de cabelos negros e despenteados ria a valer, acompanhada de Dobby, que rolava sobre a mesa e segurava a barriga. Nas mãos da moça, que Mina reconheceu como sendo uma das amigas de Meridiana, estava um pergaminho bastante suspeito.

- Agora ouça essa, Dobby, que é melhor ainda! - exclamou Raven, estendendo o pergaminho bem à frente dos olhos, mal contendo um sorriso triunfal - "Feliz o dia em que a megera que tenta nos manter dóceis às vontades de um Ministério cego e sem capacidade ganhe um belo pontapé na bunda!"

- Extraordinário, Raven, extraordinário! Dobby achou o máximo! - exclamava o elfo, pulando sobre a mesa e batendo palmas - Dobby sente falta de Alvo Dumbledore, sente muito, e quer essa mulher horrível fora de seu lugar!

- Todos queremos, Dobby, meu filho, todos queremos... Mas, veja só: temos companhia! - exclamou Raven, apontando na direção de Mina - Eu não sabia que tinha parceria na fome clandestina - comentou, dando uma grande mordida em um também grande sanduíche.

Mina não conseguiu responder. Permanecia estática, com os pés grudados no chão, desde que ouvira o texto que escrevera soar na voz da sonserina. Entendera afinal o que significava o bilhete que recebera no dia anterior... E, embora já estivesse esperando há algum tempo a distribuição do texto, ainda assim, fora um choque encontrar alguém lendo e gostando dele!

- Ih, acho que é mais uma grifinória com medo de uma sonserina... - brincou Raven, cutucando Dobby.

- Senhorita MacFusty, Dobby a conhece - disse o elfo, fazendo uma mesura. - Boa moça, só tímida.

- Eu... Eu não esperava encontrar ninguém aqui a essa hora... - arriscou Mina.

- Eu também não, é um crime acordar tão cedo assim - respondeu Raven, mordendo mais um pedaço do sanduíche. - Mas é que ontem, por conta dos deveres de Transfiguração, não consegui fazer meu lanchinho básico da meia-noite e meu estômago reclamou agora, de uma forma incontrolável... Venha, sente-se aqui conosco e desfrute de um sanduíche como o meu: o molho é uma receita especial de Dobby.

Mina sentou-se, tremendo imperceptivelmente. Não tinha certeza se queria ou não ficar ali e ver o que aconteceria. Seus olhos grudaram-se, involuntariamente, no pergaminho estendido à frente de Raven. O seu texto. Seu libelo contra a Sapa Velha.

- Já teve o imenso prazer de ler isto? - perguntou Raven, passando-lhe o informativo. - É um espetáculo! Olhe, gostaria muito de saber quem escreveu isso, para dar meus sinceros e comovidos parabéns. Essa Domadora de Dragões é uma alma abençoada; para ser perfeita, só faltava ter assinado o próprio nome, ainda que isso acabasse sendo um suicídio acadêmico. Eu podia quase afirmar que esse texto é da Meri!

- Não, não é... - disse Mina, num ímpeto do qual se arrependeu na mesma hora. Por que não mordeu a língua?

- Hum, então você sabe quem escreveu!? - perguntou Raven, os olhos brilhantes de curiosidade.

- É, bem, saber eu não sei, mas... É que... Eu...

- Já sei, você sabe mas a pessoa pediu para guardar segredo? Tudo bem, eu compreendo... Mas eu lhe pedir um favor: quando se encontrar com a autora desta pérola, diga a ela que eu, Raven Sinclair, tiro-lhe meu chapéu em reverência.

- Oh, sim, pode deixar... - respondeu Mina, bastante encabulada - A propósito, eu sou Mina MacFusty. Já te vi algumas vezes com Meridiana, mas não tinha tido a oportunidade de conhecê-la.

Raven piscou surpresa por alguns instantes antes de aceitar a mão estendida da grifinória. Mina voltou a atenção para o pergaminho novamente, observando as fotos que Herman conseguira para o fanzine. Realmente, tinha que dar o braço a torcer: a edição ficara primorosa...

- Senhorita Mina, o que Dobby pode fazer pela senhorita? - o elfo perguntou, fazendo mais uma mesura.

- Poderia me arranjar alguma coisa com muito açúcar, Dobby? Alguma torta recheada ou coisa do tipo? Quem sabe até um pouco de chocolate...

- Dobby providencia, senhorita Mina, Dobby já volta.

Sonserina e grifinória ficaram sozinhas na cozinha e Mina percebeu que Raven a observava divertida.

- Não existe nada melhor que açúcar para nos deixar mais felizes. - Mina observou - Em tempos como esses, todo mundo deveria receber rações dobradas de glicose.

Raven riu.

- Parece que encontrei alguém que pensa como eu!

Nesse momento, Dobby voltou com um pequeno embrulho e Mina se levantou.

- Bem, eu vou voltar para minha sala comunal. Até mais, Sinclair. - Mina fez um aceno com a cabeça, sentindo-se estranhamente mais leve.

- Pode me chamar de Raven! E foi um prazer conhecê-la.

Mina assentiu e deixou a cozinha com uma disposição muito diferente daquela com a que tinha chegado. Engraçado como ela sempre mudava de humor tão rápido... Deveria ter alguma coisa a ver com a lua...

Meneando a cabeça para esquecer pensamentos tão disparatados, ela seguiu pelos corredores. Quando estava já próxima de chegar na torre dos leões, decidiu que estava um belo dia para fazer um piquenique. Desviou do caminho pelo salão principal e já estava quase nos portões quando ouviu passos.

Virou-se imediatamente, encontrando um rapaz que parecia se encaminhar para o salão principal. Isaac não parecia tê-la percebido ou talvez não quisesse falar com ela, já que a estava evitando desde o episódio da detenção... Seu bom humor vacilou por alguns instantes, mas, reconhecendo que quem errara fora ela mesma, respirou fundo e deu um passo à frente.

- Bom dia, cão de guarda. - ela cumprimentou com um meio sorriso.

Isaac virou-se para ela, arqueando a sobrancelha ao reconhecê-la.

- Milady. - ele respondeu com uma pontada de ironia.

- Hum... Acho que estou sendo repetitiva, mas... Desculpe pelo outro dia... - Mina respirou fundo de novo - Eu reconheço que às vezes sou um tanto intratável...

- Um tanto? - ele perguntou, cruzando os braços - Certo. Está desculpada.

Ela sorriu e voltou-se novamente para os portões, disposta a continuar com seus planos de piquenique.

- Mina?

Isaac aproximou-se enquanto ela se virava.

- O que houve? O rapaz tirou do bolso um pergaminho ligeiramente amassado e entregou para ela.

- Já leu isso aqui?

Mina estendeu a mão para desdobrar o pergaminho e deparou-se novamente com o fanzine.

- Já, já li sim. Na cozinha. Tinha uma garota lá, lendo para o Dobby.

- Tem certeza que já não o tinha lido antes, milady? - ele perguntou, estreitando os olhos.

- Absoluta. - ela respondeu, embora não parecesse ter tanta certeza.

Isaac voltou a dobrar o pergaminho, guardando-o no bolso.

- Isso é engraçado... Não há muitas pessoas na escola que possam se dizer "domadores de dragões"... A não ser você.

- Eu não sou uma domadora. - Mina respondeu, mordendo os lábios - Só poderei começar a trabalhar com os negócios da família quando me formar.

- Ainda assim... - Isaac continuou - Além do pseudônimo, o texto lembra um pouco o seu estilo de escrita. Talvez eu devesse pedir à Adhara que o comparasse com o que ela leu naquela sua história...

Mina cruzou os braços, sentindo, pouco a pouco, o bom humor abandoná-la.

- Você não quer também uma confissão por escrito, cão de guarda?

Ele apenas sorriu.

- Não será preciso. Está de parabéns pelo texto, milady.

Mina revirou os olhos.

- Eu não...

- Prometo que não vou contar a ninguém. - ele a interrompeu, voltando-se novamente na direção do salão - Até a próxima, Lady Mina.

A grifinória apenas observou-o desaparecer e, em seguida, marchou decidida para o jardim. Agora, mais do que nunca, precisava de um pouco de açúcar.


Durante os dias que se seguiram, em todos os cantos que ela ia, os alunos pareciam estar sempre cochichando alguma coisa. E, apesar de suas desconfianças, a Sapa Velha não parecia ter descoberto nada sobre o Olho do Grifo. Herman Mercury fizera, sem dúvida, um bom trabalho. 

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