Wednesday, September 09, 2009

A sombra e a noite – parte 1



A parte mais estranha de uma insônia era quando, sem qualquer explicação aparente, abria os olhos em meio à escuridão, incerto se estava realmente acordado ou sonhando.

Por alguns minutos, ele permaneceu na mesma posição, observando o teto, enquanto ouvia a própria respiração, calma e ritmada em seu próprio compasso.

O sono não voltaria, por mais que ele quisesse. Há quase uma semana que não conseguia dormir direito, desde a noite em que tinham saído para resgatar os Hooper... e falhado.

A cena da família sendo levada pelos aurores ficara gravada em sua retina. A avó trouxa, os pais bruxos, as duas crianças e o bebê... E, enquanto eles eram trancados em um furgão negro, ele, Lusmore, Herman, Sam... Nenhum deles pudera fazer nada.

Detestava aquela sensação de impotência. E detestava ainda mais o fato de não poder fazer absolutamente nada sobre o assunto além de torcer para que, de alguma forma, aquela família estivesse bem.

Desistindo de continuar na cama, ele empurrou o lençol para o lado, puxando o roupão que estava sobre o estrado da cama e vestindo-o de qualquer jeito sobre o pijama, antes de alcançar o livro que estivera lendo mais cedo, guardado na gaveta da mesa de cabeceira.

Devagar, ele abriu a porta, passando para o corredor com os passos mais leves que podia fazer. Bastava um insone, não precisava sair acordando os outros – ainda que a idéia de ter alguma companhia não fosse de todo ruim.

Isaac seguiu então para a cozinha, colocando o livro sobre a mesa alta de cerâmica e voltando-se para a geladeira, quando uma voz fê-lo perceber que, ao final das contas, ele não era o único insone da casa.

- Olá, Cyan.

O rapaz estreitou ligeiramente os olhos, acendendo a luz e parando ao lado da geladeira. Apesar da lâmpada estar fraca – depois teria de ver com Herman para trocarem aquilo antes que ela queimasse – ele percebeu a figura de uma das gêmeas sentada sobre o banco alto na ponta da mesa.

Para tê-lo chamado de Cyan, aquela só poderia ser...

- Boa noite, Clio. – ele a cumprimentou de volta, abrindo a geladeira e puxando para fora a garrafa de água, depositando-a sobre a mesa – O que está fazendo por aqui às... – deu uma ligeira olhada no relógio sobre a porta - ...duas da manhã?

Ela deu um meio sorriso.

- Estava sem sono.

- E por isso você decidiu nos fazer uma visita no meio da madrugada? – ele questionou, puxando dois copos e servindo-os com água, antes de estender um para ela.

- Pensei que um de vocês pudesse estar acordado. – a loirinha deu de ombros – Lusmore, pelo menos, sempre foi de dormir quando o sol estava raiando.

- Aparentemente, então, ele mudou os hábitos. – Isaac retrucou, sentando-se à direita dela, começando a beber do seu copo.

Clio observou-o em silêncio por alguns segundos, antes de desviar o olhar para seu copo, os olhos escuros acompanhando os movimentos da borda de água contra o vidro. A luz piscou uma, duas, três vezes.

Os dois levantaram as cabeças para a lâmpada. Num último esforço, ela os mergulhou num brilho amarelado, para depois apagar completamente, deixando-os na companhia apenas do fraco luar que penetrava pelas janelas atrás deles.

- Cyan...

Ele voltou a atenção para ela, percebendo que Clio ainda brincava com seu copo, sem olhar diretamente para ele. A postura dela naquele momento estava muito diferente daquela com que eles tinham se habituado a enxergar as gêmeas – espertas, atrevidas e senhoras de si.

De certa maneira, aquilo o fazia se lembrar de uma outra jovem, numa outra época. Por mais clichê que pudesse soar, parecia fazer anos que tudo tinha acontecido... Numa outra vida, com outra pessoa, quem sabe?

- O que foi? – ele perguntou de uma maneira bem mais suave da que vinha tratando Clio desde que ela praticamente se jogara nos braços dele, duas semanas depois dele ter chegado ali.

- Eu sinto muito pela maneira como eu agi antes. – ela murmurou.

Foi a vez de Isaac desviar o olhar para seu próprio copo, um tanto incomodado pela sinceridade dela. Apesar disso, ele apenas meneou a cabeça, dando um ligeiro sorriso para Clio.

- Não se preocupe com isso.

Clio riu de leve, depositando o copo sobre o balcão e aninhando o rosto sobre as mãos postas em concha.

- Você se parece mais com ele do que eu pensei a princípio.

Voltando mais uma vez a fixar sua atenção sobre ela, Isaac estreitou ligeiramente os olhos.

- Ele?

O olhar de Clio perdeu-se em algum ponto além do companheiro, como se ela procurasse qualquer coisa, um resquício do passado, um sorriso, um breve lampejo de luz.

- Uma pessoa. – ela respondeu finalmente – Alguém que era importante para mim.

- Você não precisa dizer se não quiser. – Isaac observou, abaixando a cabeça. Os tempos que Clio usava estavam no passado e ele não tinha muita certeza se queria ouvir o que acontecera com a pessoa de quem ela falava – Eu sinto muito pela sua perda.

Ela riu de leve e, para surpresa de Isaac, colocou uma mão sobre a dele, encarando-o de maneira quase afetuosa.

- Ele era tão formal quanto você. Um pouco menos gentil, contudo. E bastante cabeça dura. Quando a guerra começou... ele disse que éramos muito diferentes. Que eu deveria deixar de procurá-lo porque estava me arriscando muito. Desde esse dia... – ela suspirou de leve, soltando-o – Embora eu saiba onde ele mora, embora às vezes freqüentemos os mesmos lugares, conversemos com as mesmas pessoas... Para ele, é como se eu não existisse.

- Ele é um idiota então. – Isaac se viu respondendo.

Clio voltou a colocar o rosto sobre as mãos, pensativa.

- Talvez. Ou talvez ele tenha razão. Nós somos mesmo diferentes... – ela deu um sorriso triste – São efeitos colaterais de uma guerra. Ela nos separa, nos machuca, nos enlouquece... Perdemos a sensação de certo e errado por não sabermos aonde nos levará o amanhã. E somos perseguidos por uma carência que nunca termina, por uma solidão que nunca diminui...

Isaac a encarou, sério.

- Você também me lembra uma pessoa. Só que, ao contrário da sua história, eu não tenho como vê-la, nem saber notícias dela. Não sei se ela está bem, se está comendo... – ele deu um ligeiro sorriso para si mesmo, abaixando a cabeça – E nunca pude saber o que ela sentia por mim.

- Bem, parece que a sua pessoa é mais idiota que a minha. – Clio observou, marota – Brincadeiras à parte, Cyan, você é do tipo que temos de agarrar e não soltar nunca mais.

Ele deu um meio sorriso, meneando a cabeça.

- Eu acho que ela não concordaria com você, Clio. Não exatamente por achar o contrário, mas por outros motivos... Em alguns pontos, ela é uma criança ainda. Em outros... Eu diria que é muito auto-suficiente. Apesar de tudo, eu não pude deixar de admirá-la.

- Deve ser uma garota muito especial. – Clio observou – Você realmente gosta dela, não?

- Eu não sei se vou voltar a encontrá-la algum dia. – foi a resposta dele.

Clio observou o rapaz se levantar, levando o copo vazio para a pia. Por algum tempo, os olhos dela se perderam na linha dos ombros de Isaac, até que ela mesma se levantasse, aproximando-se e parando logo atrás dele.

Isaac se virou devagar, encarando-a com uma face sem expressão, os olhos claros ligeiramente opacos. Com delicadeza, ela apoiou uma mão sobre o ombro dele, encostando a testa na dele.

Por um momento, as respirações de ambos se cruzaram, quentes e erráticas. Clio cerrou os olhos, esfregando a ponta do nariz bem de leve na dele. Isaac, por sua vez, estendeu as mãos, a princípio hesitantes, envolvendo a cintura dela.

Só então os lábios se encontraram, mornos e gentis, embora houvesse também por detrás daquelas sensações algo de desespero.

Foi ela quem primeiro se afastou, inspirando pesadamente. Diante do movimento dela, Isaac a soltou, antes de se deparar com os olhos escuros de Clio encarando-o com um brilho ligeiramente curioso.

- Clio, eu...

A loira não o deixou terminar, depositando um dedo sobre os lábios do rapaz enquanto meneava a cabeça.

- Nada de desculpas. Nem de promessas. Deixe as coisas acontecerem sozinhas. Mais tarde, quem sabe, pode ser que aqueles que realmente amamos percebam a burrada que fizeram. – ela sorriu, voltando a ficar na ponta dos pés, aproximando-se mais uma vez – E, até lá, ao menos teremos um ao outro.

As palavras dela ecoaram por algum tempo na mente de Isaac. O que Clio estava propondo não era exatamente certo do ponto de vista moral, nem de acordo com nada que ele aprendera. Apesar disso, naquele instante, ele não se importava realmente com isso.

- Como você queira então. – ele respondeu simplesmente, antes de voltar a beijá-la.


Nossa Volta, Níver do Amaterasu e Scrap MTV


Como prometido, estamos voltando a colocar os sites nos trilhos. Sei que deve demorar um pouco para todos voltarem a comentar, porque o problema demorou a ser sanado... Mas, esperamos que voltem logo a nos visitar.

Aproveitando a deixa, não deixem de passar no Amaterasu para comemorarmos dois anos do nosso site spin off!!!

E, claro, parabéns para mim, para a Lulu/Mina e para a Sel/Selune!!!!

E finalizando, sabiam que o Expresso Hogwarts apareceu no Scrap MTV em uma entrevista do Robson Reis (Crepusculinho). Pois é, mas colocaram a entrevista no dia errado. Por isso, também em apoio ao Robwan, vamos aderir à campanha: Reprisem o ScrapMTV

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