Thursday, September 10, 2009

 O choro de uma criança ecoava pelos corredores do solar, alto e pungente. O homem avançou mais alguns passos, mancando fortemente, até finalmente alcançar a maçaneta do quarto da neta.
 - Mina, o que aconteceu com...
 Vincent interrompeu-se no meio da sentença, observando Kieran na cama, soluçante, iluminado pela luz que vinha do banheiro, de onde vinha um outro choro, mais baixo e dolorido, seguido pelos sons de alguém passando mal.
 Com o coração palpitando, ele caminhou até lá, encontrando Mina debruçada sobre a pia, os cabelos pregados no rosto suado, onde não parecia haver uma gota de sangue – talvez porque o sangue dela estivesse, nesse instante, sobre a louça branca da bancada.
 - Mina!
 Ela se virou, encarando-o com os olhos embargados, mas, antes que pudesse falar alguma coisa, a ânsia voltou a engolfá-la. Assustado, o velho rapidamente voltou para o quarto, tateando até encontrar uma corda junto à cama.
 Aquilo não era usado há muito tempo; ele não se lembrava de ter visto sequer seus pais utilizarem as campainhas que chamavam os empregados. Entretanto, quando ele puxou, pode ouvir o som estridente vindo do andar de baixo – o quarto de Mina, afinal, ficava exatamente em cima da cozinha.
 Em seguida, ele voltou para o banheiro, puxando os cabelos da neta para trás com uma mão, e, com a outra, abraçando-a pela cintura. Pouco depois, passos irromperam à porta e ele ouviu a voz de Holly tentando acalmar Kieran antes de alcançá-los.
 - O que aconteceu? – ela perguntou, com o menino no braço, aproximando-se – São duas e meia da manhã, o que vocês...
 Os olhos claros da mulher se arregalaram ao ver o estado do banheiro e a palidez da garota. Vincent voltou-se para ela, enquanto Mina escorregava ligeiramente por entre seus braços, a cabeça agora encostada em seu ombro.
 - Mi, mi, em! – Kieran soluçou, estendendo uma mãozinha na direção da irmã.
 - Não, Kieran, Mina não está bem. – Vincent respondeu para o neto – Eu não sei o quê aconteceu, quando cheguei aqui, ela já estava assim.
 Holly assentiu, antes de estender Kieran para ele, amparando Mina no momento em que o homem segurou a criança.
 - Mina, o que houve? – ela perguntou baixinho, alisando os cabelos de sua menina – O que está sentindo? O que você comeu?
 - Está doendo. – ela murmurou com a voz abafada contra o peito da mulher – Está doendo há dias, mas hoje... É como se estivesse queimando, como se o estômago estivesse em carne viva... E eu estou enjoada. Eu sei que não tem mais nada lá dentro... Mas...
 Holly ficou em silêncio, refletindo. Há dias que Mina não estava comendo direito; até mesmo seus chocolates estavam sobrando na despensa, quando não teriam durado muito mais que o tempo da menina descobri-los.
 - Venha, eu vou lhe dar alguma coisa para passar a dor e o enjôo. – ela guiou a jovem de volta para o quarto, sentando-a na cama. Vincent tinha saído com Kieran que continuava, impaciente, a balbuciar pela irmã – Agora que já colocou tudo pra fora de uma maneira ou de outra, vai se sentir um pouco melhor.
 Mina apenas assentiu. Holly observou-a por alguns instantes, para em seguida deixar o quarto apressada. Vincent estava no corredor, tentando acalmar o neto mais novo.
 - E então? – ele perguntou.
 - Eu não acho que ela tenha comido nada estragado. Há dias que ela tem se queixado do estômago. Pode ser uma gastrite nervosa ou alguma coisa do tipo.
 - Eu vou chamar Hiram amanhã para dar uma olhada nela. E não me olhe com essa cara, Holly. Eu confio em você, mas depois de ver minha neta vomitando sangue, eu dou um jeito até de interná-la no St. Mungus se for necessário.
 - Vou procurar alguma coisa para fazê-la dormir agora. – Holly respondeu – Deixe Kieran com ela, ele vai se acalmar na presença da irmã, e talvez a acalme também.
 Vincent suspirou, antes de assentir. Holly então sumiu na direção das escadarias, enquanto ele voltava para o quarto da neta. Mina estava encostada na cabeceira da cama, abraçando os joelhos, o rosto mergulhado contra os braços.
 - Mia!
 Ela só levantou a cabeça quando Kieran engatinhou na cama até alcançá-la, apoiando-se com algum esforço nas pernas dela para ficar em pé.
 - Mia?
 Os olhos claros do irmão a encaravam, curiosos. Mina deu um ligeiro sorriso, enquanto ele estendia a mãozinha, tentando alcançar o rosto dela. Voltou-se então para o avô, que se sentara na beirada do colchão, observando os netos, a preocupação visível em sua face.
 - Eu vou ficar bem. – ela murmurou com a voz rouca.
 Mina percebeu Vincent apenas assentir, antes de voltar-se para Kieran, que tentava chamar sua atenção. Mas, ainda que os olhos dela estivessem fixos no irmão, ela não o estava realmente enxergando naquele instante.
 Alguma coisa acontecera aquela noite. E não era pela dor que sentia na barriga que sabia disso. E sim pela dor fina e aguda que atravessara seu coração no momento em que acordara e pulara da cama para o banheiro.
 Alguma coisa acontecera aquela noite... alguma coisa se quebrara dentro dela em resposta... e, talvez, se quebrara para sempre

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