Thursday, March 12, 2009

Planos e Preocupações - Final


Assim que os passos da ruiva se distanciaram, Adhara e Lucien se viram completamente sozinhos. A morena começou a mostrar intenções em também partir, quando foi pega de surpresa por um pedido do lufano:

- Eu queria conversar um pouco com você, Adhara.

A sonserina suspirou e postou as mãos na cintura antes de encarar o rapaz.

- Escute, Lucien, se a sugestão que eu fiz para a Meri sobre o Theodore lhe incomodou, então eu lamento. Confesso que também não estou muito satisfeita com a decisão de Meridiana, mas dei minha palavra a ela de que a ajudaria mesmo assim. E esse é o meu jeito de ajudar. – Adhara tentou soar o mais educada e menos agressiva possível. Não tinha absolutamente nada contra Lucien, muito pelo contrário, e podia apenas imaginar o quanto aquela situação deveria estar beirando o insuportável para ele, mas precisava manter firme a sua posição.

O rapaz passou a mão por entre os cabelos, não escondendo sua apreensão.

- Não é isso, Adhara. Eu entendo a natureza da sua sugestão, talvez mais até que você supõe – ele falou, sem explicitar sua curta experiência sob a tutela de August Chenoweth – Eu apenas queria conversar com alguém sobre fraulëin. Alguém que sei que posso confiar e ao mesmo tempo teria a visão prática da situação que eu preciso. Poderia tentar conversar com os demais, mas, eu não conheço ninguém do nosso grupo que seja mais prático que você.

A garota sentiu-se internamente aliviada por perceber que não havia se indisposto com o austríaco, tanto que acabou deixando que sua postura relaxasse sem mesmo perceber.

- Deve ser efeito colateral de ser criada por um pai que é Auror. Você também parece ter a sua própria dose de pragmatismo. – ela deu um meio sorriso, como se convidando Lucien a deixar de lado suas apreensões – O que você precisa saber de mim?

- Quero apenas que seja franca comigo sobre o que acha disso tudo em que Meridiana está se envolvendo. Talvez meus sentimentos por ela estejam embotando as minhas impressões. Apesar de se mostrar tão forte, tão determinada, às vezes eu sinto que, na realidade, fraulëin está tão frágil e quebradiça como uma boneca de porcelana mal-remendada. Como se a qualquer pressão maior ela fosse se estilhaçar e eu não sei exatamente como impedir isso.

Adhara suspirou e encarou as estampas do tapete da sala por alguns instantes. Não sabia exatamente como poderia responder aquilo... Não havia nenhuma resposta pronta para aquela questão. Talvez suas impressões estivessem tão erradas e parciais quanto Lucien temia que fossem as dele. Mas o austríaco lhe pedia franqueza, e a própria sonserina temia que aquilo fosse tudo o que tivesse para oferecer a ele.

- O que eu acho é que tudo isso é uma droga. Essa situação toda é ridícula e estupidamente perigosa, por motivos óbvios e não óbvios também, e eu queria que ela não estivesse acontecendo. Mas ninguém além de Meri o poder de impedi-la. – ela então levantou seus olhos para o lufano, pois sabia que aquele não era o tipo de conversa que se poderia ter evitando um contato visual. Lucien precisava saber o que ela estava sentindo para poder confiar nas palavras dela – Eu não creio que você esteja tão errado assim. Ninguém passa pelo que a Meri passou sem levar um buraco enorme dentro de si. A sensação... O pavor de estar sob a mercê de alguém que pode te matar em um piscar de olhos... De perder todo o controle sobre si mesmo, de não saber nem se você será capaz de fazer algo tão simples quanto respirar pelos próximos segundos. A impotência e o desespero são opressores, tanto que depois de um tempo se fica entorpecido e vem a desistência. E então, quando por um milagre, porque só mesmo um milagre traria a salvação, você se vê são e salvo e rodeado pelas pessoas que ama... Há a vergonha de olhar para aquelas pessoas que demonstram tanta fé e amor e saber que, por um segundo, você desistiu, você abriu mão de todas elas, você descumpriu seu dever de lutar. O trauma é horrível, é absurdo, ele melhora, mas nunca vai embora. O monstro nunca vai embora... Então, é, a Meri deve estar um caco por dentro. Mesmo por fora ela é só um arremedo da garota que um dia ela foi, e eu não acho que ela vá conseguir voltar a ser aquela garota até que ela tenha destruído o monstro dela. Ela sequer conseguiu visitar o túmulo do Sr. Nicholas e a antiga casa dela ainda... – a morena suspirou – Se você queria a minha opinião, aí está ela. Eu espero, sinceramente, que a Meri não se quebre... Mas há chances de que isso possa acontecer. E pode ser que o baque seja ainda pior se nesse meio tempo ela fizer coisas ruins e censuráveis. Entretanto, tudo o que eu e você podemos fazer é estar lá, para amparar os estilhaços e remontá-los, caso o pior aconteça.

Lucien abaixou o rosto, soltando um ruidoso suspiro antes de encarar novamente a prima de sua fraulëin.

- Eu não teria descrito a situação de maneira melhor. – ele falou – Realmente fiz bem em decidir vir para Hogwarts junto com ela. Eu só concordei com esse plano todo porque eu sei que não adiantaria me opor, ela está tão ferida que acabaria fazendo até mesmo algo mais perigoso ou estúpido. Eu quero estar ao lado dela para ajudá-la, mas às vezes, tenho medo de não ser o suficiente.

Adhara esboçou um sorriso triste. Parte dela sentiu o impulso de ir até Lucien e abraçá-lo, oferecer conforto a ele como havia oferecido a Meri quando a prima comunicara a ela e a Kyle sobre a sua decisão. Mas ela silenciou esse impulso, reconhecendo-o como inadequado. Não conhecia o austríaco tão bem assim para tomar esse tipo de liberdade com ele. Além do mais, ele era o namorado de Meridiana.

- Você só pode esperar pelo melhor, Lucien. Meri perdeu o pai dela, o maior porto-seguro que tinha, no meio disso tudo. Mas talvez, se ela tiver o restante das pessoas que ama por perto... Talvez seja o bastante. Ainda assim, a maior parte do trabalho tem que ser feita por ela. Ela tem que se remendar sozinha.

- Eu sei disso. É frustrante saber que não posso fazer muito mais do que já faço, que, no fim das contas, o principal depende dela. – o moreno falou, balançando a cabeça. – Obrigado, Adhara. Pela sinceridade e por me lembrar que fraulëin tem muitas pessoas que zelam por ela.

A morena assentiu.

- Não foi nada, Lucien. De certa forma, falar sobre isso ajudou a mim também. É melhor irmos.

-Pode ir na frente – o rapaz falou – Melhor nós dois também não sermos vistos juntos com muita freqüência. Além do mais, gostaria de ficar um pouco mais sozinho.

Adhara concordou silenciosamente, despedindo-se de Lucien com um “boa noite”, seguindo, então, para fora da sala. O moreno voltou novamente sua atenção para a paisagem que se descortinava pela janela, observando os movimentos indistintos que aconteciam no meio das folhagens da floresta. Animais entremeados nas sombras, escondidos, assim como estavam escondidos os sentimentos funestos que preenchiam o coração de sua fraulein. Ele prometera a ela, e principalmente a si mesmo, que, se as trevas clamassem demais o coração de Meridiana ele iria resgatá-la. Custe o que custasse ele iria cumprir sua palavra.

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