Monday, March 23, 2009

Esperança - Parte 1


- Você já comeu? - Holly perguntou, surpresa, enquanto Mina colocava o prato na pia, o qual imediatamente começou a se lavar sozinho.

Mina apenas deu um meio sorriso em resposta. A verdade é que mais da metade de seu almoço fora para debaixo da mesa onde Loki - o filhote de Freyr e Lucky que ela tinha dado ao avô - esperava ansiosamente.

- Ão, oli! Mi ão mi!

As duas se voltaram para Kieran, que parecia protestar alguma coisa de seu lugar, batendo no prato ainda meio cheio de papa. Se Holly tivesse dado um pouco mais de atenção às palavras do pequenino, teria descoberto que Kieran estava querendo brincar com o gato, como a irmã fizera.

- Holly, você termina de dar de comer para Kieran? - Mina perguntou, já alcançando a capa que deixara jogada de manhã sobre um dos bancos da cozinha - Eu ainda não fui ver Finvara hoje.

A mulher assentiu, muda, observando com uma expressão desconfiada a jovem sair, antes de se sentar defronte ao menino.

- Você também acha que sua irmã não está bem, Kieran? - ela perguntou, pensativa.

- Ato meu íngua.

Ela sorriu bondosamente.

- Eu sabia que você iria concordar comigo.

Enquanto isso, Mina se dirigia rapidamente para os estábulos, tentando controlar a ligeira ânsia que sentia.

Há tempos que ela estava daquele jeito, meio enjoada, sentindo dores no estômago, perdendo peso... Desde a viagem para o Japão, para ser exata. E ainda que Holly estivesse sempre fazendo seus pratos favoritos, ela sentia quase nenhum apetite.

- Boa tarde, Paddy. - ela cumprimentou com um meio sorriso o senhor responsável pelos cavalos do solar - Finvara...

- Eu posso selá-lo em um minuto, Mina. - o velho respondeu, antes mesmo que ela pedisse alguma coisa.

Ela anuiu, com um sorriso de agradecimento. Pouco depois, estava cavalgando, o solar tornando-se rapidamente um ponto indistinto atrás de si enquanto avançava ao longo das estradas de Donn, o primeiro MacFusty que achara ser uma boa idéia abrir picadas em meio aos campos para facilitar o trabalho dos viajantes.

Lusmore tinha deixado as Hébridas há um bom par de dias. Nem seu avô, nem Holly tinham comentado nada - ela percebera algumas trocas de olhares preocupados entre eles, mas se os dois tinham discutido a partida do sobrinho dela, certamente não achavam que Mina deveria ser incomodada com o assunto.

Naquele meio tempo, ela passara todos os dias numa rotina confortável - acordava cedo para dar mamadeira a Kieran, depois saía com Finvara passando mais da metade da manhã a explorar a ilha, voltava para o almoço, brincava ou lia para o irmão e, após o jantar, sentava-se para escrever alguma coisa e estudar Código Morse.

Essa manhã, contudo, o equilíbrio tinha se quebrado. Seu avô a chamara na biblioteca antes que ela saísse para poderem conversar. Primeiramente, a partir da semana seguinte, ele e Holly começariam a tutorá-la e, assim que ele designasse algum domador para ajudar, ela começaria seu treinamento de domadora.

Além disso, Vincent pedira a ela que assumisse parte das obrigações que Godfrey tinha – visitando a vila duas vezes por semana para decidir sobre questões administrativas ou de justiça entre os aldeões, levando para ele os casos mais graves; relatando tudo de diferente que ocorresse nas ilhas e chegasse ao seu conhecimento e transmitisse também as ordens deles aos outros domadores.

Mina aceitara a tarefa de bom grado. Não era nada tão difícil – muito de seu trabalho era servir de pombo-correio entre o solar e a vila e usar um pouco de bom senso de vez em quando. A idéia de ser útil, fosse que de forma fosse, lhe era certamente muito agradável. E voltar a estudar, especialmente tendo Vincent e Holly como professores, era ótimo.

Mas embora as coisas estivessem começando a entrar nos eixos, ao menos aparentemente... ela não estava contente.

Desde que Lusmore fora embora, ela tentava entrar em contato com o primo através do telégrafo. Ainda que não tivesse dominado ainda o Código Morse para que pudessem realmente conversar, tinha esperanças de pegar pelo menos um sinal do rapaz.

Entretanto, toda vez que colocava os fones no ouvido, tudo o que conseguia ouvir era estática.

O barulho de asas poderosas batendo contra o vento fê-la despertar de seu torpor e Mina percebeu que deixara as áreas de planície para alcançar o início das reservas dos dragões.

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