Wednesday, March 25, 2009

Esperança - Final


O barulho de asas poderosas batendo contra o vento fê-la despertar de seu torpor e Mina percebeu que deixara as áreas de planície para alcançar o início das reservas dos dragões.

Mais que rapidamente, ela se desviou da picada, dirigindo Finvara para o meio das árvores. De lá, ela pode enxergar um ponto negro afastando-se rumo ao alto das colinas que os cercavam.

- Ele deve estar levando comida para os filhotes.

Mina sentiu o pescoço estalar ao girá-lo, enquanto Finvara pateava sob ela, visivelmente alegre.

- Ai... – ela gemeu, passando uma mão pelo pescoço – Olá, Chris. Não tinha percebido você.

A moça desmontou, observando o rapaz que tinha diante de si. Christopher Morel era pouco mais velho que ela. Graduara-se domador no ano anterior, depois de uma temporada fora do país. E, como Lusmore, era seu primo, embora os dois rapazes não se dessem muito bem.

Além disso, a égua que ele segurava pelas rédeas era Erin, a mãe de seu Finvara.

- Você deveria estar andando por aqui sozinha, Mina? – ele perguntou com um sorriso divertido, enquanto se aproximava, dando algumas palmadinhas na cabeça do outro cavalo.

- Eu tenho permissão para explorar toda a ilha. – ela respondeu – Só não posso atravessar para as outras e nem entrar sozinha na área de reserva.

- Onde você quase entrou um instante atrás. – Chris observou, meneando a cabeça – Não deveria andar tão distraída nas Hébridas, Mina. Essa é a primeira lição para aprender como domadora.

- Desculpe... – ela ergueu uma mão, apoiando-a na base do nariz, como se estivesse pressionando os óculos para cima.

Exceto pela fato de que não havia óculos.

Chris riu, escondendo a boca com uma mão, enquanto Mina fazia uma careta cômica.

- Não é tão engraçado. – ela resmungou, cruzando os braços.

- Desculpe. – Chris controlou-se, embora houvesse ainda um visível ar de riso em seu rosto – O que aconteceu com seus óculos?

Ela suspirou.

- Meu irmão tem uma estranha fascinação por eles, então, para não correr o risco de ele se machucar, eu comecei a usar lentes.

Ele voltou a menear a cabeça, dando um peteleco de brincadeira na testa dela.

- Eu acompanho você de volta para o solar. Não vamos correr o risco de você andando por aí sozinha com a cabeça perdida nas nuvens – ele voltou-se para Erin, montando-a – Vamos indo?

Ela deu de ombros.

- Tudo bem.

Metade do caminho foi feito em silêncio, cada um imerso em seus próprios pensamentos, até Chris puxar novamente assunto, emparelhando os cavalos.

- Por onde anda Lusmore? Tinha ouvido dizer que ele estava de volta.

- Ele sumiu. – ela respondeu de cabeça baixa, observando os arreios que segurava – E eu não faço a menor idéia de onde aquele desgraçado se meteu.

Chris voltou a sorrir.

- Ele sempre fez esse tipo de coisa muito bem. – o rapaz observou – É por isso que você estava tão distraída?

Finalmente ela se voltou para o primo.

- Eu estava pensando que se houvesse alguma maneira de ter notícia dele e dos meus amigos também... as coisas seriam mais fáceis.

Mina não esperava uma resposta, mas dividir aquele sentimento com alguém era estranhamente reconfortante. Entretanto, Chris pareceu dar mais tempo do que necessário para apreciar a questão, antes de voltar a encará-la, dessa vez, sério.

- Há uma maneira.

Ela ergueu para ele olhos surpresos e até um pouco assustados.

- Há?

Ele anuiu.

- Você pode mandar um Patrono para eles.

Por um momento, a moça chegara até mesmo a segurar a respiração, ansiosa. Mas logo a esperança voltou a sumir.

- Eu não sei conjurar um patrono, Christopher. E, mesmo que soubesse, a proteção que está sobre a ilha impede esse tipo de comunicação.

- O fato de você não saber o feitiço é realmente um problema. – ele concordou – Mas há algumas coisas que você parece ignorar, Mina. O encanto que protege as Hébridas é complexo e incomum. Ele possui tanto elementos de magia quanto caracteres das próprias ilhas.

- O que está querendo dizer, Chris? – ela estreitou os olhos – Eu sei disso, mas o que tem a ver...

- Apenas a ilha principal, Fyglia, possui todos os encantamentos de proteção. – ele respondeu, interrompendo-a – Isso não significa, obviamente, que as outras ilhas estão à mercê de quem não pertence às Hébridas. Todas estão bem escondidas, repletas de feitiços de confusão capazes de enlouquecer qualquer pobre coruja que tente trazer correspondência... Mas uma magia como a do Patrono conseguiria atravessar esse “escudo protetor”...

Mina ficou em silêncio diante dessa revelação. Então ainda existiam esperanças ao final das contas.

O solar apareceu após dobrarem a última curva entre as colinas e Christopher freou Erin.

- Bem, creio que daqui em diante você possa chegar em casa sozinha. Espero ter ajudado, Mina.

- Ajudou muito, Chris. – ela sorriu – Obrigada.

Ele fez uma mesura com a cabeça.

- Disponha.

E após as despedidas, ele lhe deu as costas, rapidamente sumindo das vistas da garota. Mina então se voltou para o solar, esporeando de leve Finvara. Teria uma nova programação noturna a partir daquele dia: aprender a conjurar um Patrono.

No comments: