Eu me mexi na cama, ainda meio sonolenta, como se estivesse imersa em um sonho maravilhoso do qual não desejava acordar, afinal, a noite passada nos braços de Edward fora tão perfeita só poderia ter sido produto da minha imaginação, embora, confesso que foi infinitamente melhor do que qualquer uma das outras vezes em que pensei naquela situação. Sublime parecia uma palavra insignificante diante de tudo o que eu havia sentido.
Exatamente por isso, eu não desejava acordar, ansiava ficar presa naquela sensação de completude por toda a eternidade, contudo, me vi obrigada a abrir os olhos ao escutar a voz de Edward murmurar algo, a princípio, incompreensível. O mero som da voz dele praticamente fez com que eu me sentasse em um pulo na cama.
Na porta, ele, vestido apenas com uma cueca samba-canção azul marinho, o dorso perfeito de deus grego completamente nu, entregava um gorjeta para o empregado do hotel, virando-se para empurrar o carrinho com o café da manhã até a beirada da nossa cama.
Estava tão embevecida em começar meu dia com aquela imagem do meu paraíso particular diante de mim, que, não reagi de imediato, fiquei perdida na visão de Edward, apenas percebendo, quando ele se sentou ao meu lado na cama, que eu estava completamente nua sob os lençóis de seda.
Eu não havia sonhado! Havia sido verdade que na noite anterior eu havia sido de Edward por completo e ele havia sido meu. A felicidade que me preencheu era tão grande que eu pulei no pescoço dele de uma forma muito semelhante à primeira noite que ele passou comigo em meu quarto na casa de Charlie.
Eu precisava constatar que ele era real, que aquilo tudo era de verdade e que a felicidade que eu sentia não ia acabar nunca. Ele era meu. Meu marido, meu amor.
-Bella – a voz macia de Edward soou nos meus ouvidos como se fosse a mais bela canção em todo o universo – você deve estar com fome.
Eu me apertei mais de encontro a ele, afundando meu rosto no peito frio e, paradoxalmente, aconchegante dele. Balancei a cabeça em negativa, mesmo sem olhar para ele, sabendo que ele perceberia o movimento.
-Eu não quero comer, eu só quero ficar aqui, com você bem pertinho de mim. – eu murmurei.
Ele se soltou de mim com uma facilidade constrangedora, me encarando com aqueles olhos dourados que pareciam iluminar cada pedaço de mim.
-Seja boazinha, Bella, você precisa comer – ele me falou, com a paciência de quem explica para uma criança algo absurdamente lógico. Eu olhei de soslaio para o carrinho de comida e depois voltei a fitá-lo. Edward sorriu meu sorriso favorito antes de completar – Eu não vou sair do seu lado, você sabe disso.
Só então, com a palavra dele empenhada, foi que eu prestei atenção ao farto café da manhã que nos trouxeram. Biscoitos, frutas, pãezinhos, geléias, sucos. Nesse momento eu percebi que estava faminta, mas principalmente morrendo de sede. Nos filmes sempre mostram as pessoas preocupadas em comer depois de dormirem juntas, mas ninguém nunca ressaltou a sede absurda que todo aquele exercício - por falta de uma palavra mais romanticamente adequada – dava.
-O que quer primeiro? – Edward perguntou, pousando a bandeja diante de mim.
-Suco de laranja – eu respondi.
Enquanto eu bebia o suco, apreciando o frescor dele na minha boca, Edward contornou a cama, sentando do meu lado. Ele começou a beijar lentamente as minhas costas nuas, começando pela base do pescoço, descendo lentamente pela linha da minha coluna.
Para alguém que queria que eu me alimentasse, Edward estava fazendo um trabalho maravilhoso em desviar minha atenção, afinal, como eu poderia pensar em comer sentindo o toque da boca aveludada dele preencher quase todas as minhas necessidades?
Contudo, na altura da cintura, ele simplesmente parou, aparentemente sem razão alguma.
-Edward? – eu perguntei, me virando para ele.
Como uma estátua de mármore, ele fitava, sem respirar, a curva da minha cintura. A expressão dele era carregada e séria. Baixei meus olhos, seguindo a linha de visão dele, me deparando com o pequeno roxo que eu previ que iria surgir ali.
-Edward? – eu chamei mais uma vez.
Ele levantou o rosto, encarando-me com olhos sombrios.
-Eu te machuquei – ele falou.
Quase revirei os olhos. Como ele poderia acreditar que aquele pequeno roxo era algo importante diante de toda a felicidade, prazer e completude que ele me proporcionou na noite anterior?
-Você não me machucou! – falei, enfática, ao mesmo tempo que pousava a minha mão no rosto dele, fazendo-o com que ele me fitasse nos olhos – Poderia ter acontecido mesmo se você fosse humano, você sabe disso. Você NUNCA me machuca, Edward. Você me faz sentir a pessoa mais feliz e realizada de todo o mundo. Cada minuto com você é um presente para mim.
Nesse ponto, a expressão dele se desanuviou, e ele sorriu, de uma maneira doce e carinhosa. Com delicadeza, ele aproximou seus lábios macios no pequeno hematoma.
-Se você diz, eu acredito em você – ele falou, me fitando com seu rosto angelical – Agora, termine seu café. É nossa primeira vez juntos na Inglaterra e quero te levar a alguns lugares.
-Eu preferia ficar aqui no quarto com você – eu retruquei, fazendo bico. Por mais que fosse tentador passear por todos os lugares que me fascinavam nos meus livros favoritos, ficar com Edward parecia mais recompensador.
Ele aproximou o rosto do meu ouvindo, falando em um delicioso ronronar.
-Nós podemos ter as duas coisas, Bella. Quem sabe o passeio diurno possa tornar a nossa noite ainda mais especial?
Soltei um muxoxo, internamente incapaz de concordar com ele. Contudo, sabia que ele não daria o braço a torcer. Um passeio com ele ao meu lado sempre seria um momento perfeito – e, como ele mesmo disse, teríamos a noite inteira apenas para nós dois.
Os dias que se seguiram pareciam um conto de fadas, ou, mesmo um livro da Jane Austen. Eu tinha o meu Mr Darcy particular a meu inteiro dispor para passeios em charretes, visitas em museus, parques, castelos e qualquer outro lugar que eu desejasse ir ou Edward intuísse que eu gostaria de conhecer – irremediavelmente acertando em todas as vezes.
Felizmente, a Inglaterra parecia ser tão pouco ensolarada quanto Forks ou talvez até ainda menos, o que tornava a viagem ainda mais aproveitável. Embora, claro, a idéia de ficar trancafiada em um quarto com Edward, estando ele impedido de sair por causa do sol, me soasse absurdamente deliciosa.
Contudo, ele me explicou que, por mais que o desejo que ele sentia por mim era tão grande quanto o que eu sentia por ele, ele precisava daquele intervalo diurno para poder se preparar, se controlar de forma que nossas noites de amor fossem tão boas para mim quanto eram para ele.
Eu entendia o receio de Edward em me machucar. Ele era um vampiro cujo corpo era rígido como uma pedra, e, eu uma simples humana cuja maciez fazia com que o amor de minha vida não pudesse se libertar por inteiro quando nos tornávamos um só.
Muitas foram as vezes em que, quando andávamos de braços dados pelas ruas, eu me pegava sonhando acordada com o dia em que eu finalmente me tornaria uma vampira e Edward poderia me amar sem qualquer receio. Fazer amor com ele, eu ainda sendo mortal era algo tão próximo do divino que fugia a qualquer descrição, portanto, estar com que sem nenhuma restrição deveria ser como ter alcançar o paraíso em sua total e mais perfeita completude.
-Bella, amor – eu escutei o ronronar aveludado da voz dele me trazer de volta de meus devaneios. Obviamente eu não reclamei, afinal, a realidade ao lado de Edward era melhor que qualquer sonho que eu pudesse ter, dormindo ou acordada.
– Decidiu o que quer fazer hoje? – ele me perguntou.
-Além do obvio? – eu disse, dando um sorriso propositalmente maroto.
Edward deixou que seu sorriso perfeito se abrisse, iluminando o meu dia. Com delicadeza, ele deixou a ponta do meu nariz, antes de voltar a me fitar com carinho.
-Além do óbvio – ele confirmou, divertido e suave.
Abracei o braço forte dele com ambas as mãos, enquanto continuávamos caminhando.
-Acho que eu li em algum lugar que estão encenando “A Trágica História do Doutor Fausto” do Christopher Marlowe na cidade – finalmente respondi. – Tudo bem que eu gosto mais da história escrita pelo Goethe, que é bem mais romântica por causa do amor do Fausto e da Gretchen, mas quando é que eu vou ter outra chance de ver um clássico do teatro inglês na Inglaterra?
Mal eu terminei de falar, notei que os passos de Edward haviam se tornado mais lentos. Ele havia praticamente parado de caminhar. Levantei o rosto e percebi a expressão soturna que quase maculava o rosto perfeito dele, o dourado dos olhos estavam menos brilhantes e ligeiramente vazios.
Só naquele momento eu consegui compreender o motivo. Bella estúpida! Bella estúpida! Bella estúpida! Mesmo com a promessa que fizemos um ao outro, eu deveria ter imaginado que Edward não havia deixado de lado a preocupação dele em corromper a minha alma imortal.
O que faço então? Convido Edward para assistir a uma peça que conta a história de um homem que vende a sua alma a um demônio. Talvez seja assim que ele se vê? Como a própria encarnação do mal? Será que ele não percebe que ele sempre foi e sempre será meu anjo de luz? Que sempre é ele que me resgata das trevas?
-Você não é Mefistófeles! Ou nenhum ser das trevas do tipo! – eu falei, com firmeza,
encarando-o com certeza e determinação.
-O que eu sobra para eu ser? O próprio Fausto? Foi ele quem roubou a pureza de Gretchen, quem a condenou. – ele respondeu no mesmo tom sério que ele usou nas outras vezes em que conversamos sobre a minha iminente transformação.
Pousei a minha mão no rosto dele sentindo a pele fria de Edward em contato com o calor de minha pele, desejando, mais uma vez, que essas nossas diferenças acabassem de uma vez.
-Foi o amor de Gretchen por Fausto e o dele por ela que acabou salvando os dois no final. Conosco vai ser a mesma coisa. - falei com imensa ternura, mas mantendo a firmeza que havia usado antes – E eu sei que você acredita nisso também, você não pode negar que achou que estava no paraíso quando pensou que morreu em Volterra. No fundo você sabe que Carlisle está certo, que eu estou certa.
Edward olhou para mim com uma expressão que fui incapaz de decifrar. No instante seguinte, ele deu um sorriso para mim, não era o sorriso torto que eu tanto amava, mas já era um começo.
-Bella Boba, o que eu faço com você?
-Você pode me transformar – eu disse, meio séria, meio brincando, para desanuviar o clima pesado que havia se instaurado entre nós – Hoje a noite mesmo, se quiser.
-Eu não posso – ele respondeu, ainda sério.
-Você prometeu – eu soltei, um pouco mais alto do que pretendia, receando que ele fosse voltar atrás em sua palavra.
-Eu vou cumprir, Bella, apenas não podemos fazer isso aqui na Inglaterra. Estamos praticamente no território dos Vultori. Se sua transformação caísse nos ouvidos do Aro, ele não hesitaria em vir buscá-la para ser adicionada à coleção dele. Além disso, eu iria preferir que Carlisle e Jasper estivessem presentes depois que eu te mordesse.
-Então voltamos amanhã para Forks – eu disse, abraçando-me a ele.
Edward correspondeu ao gesto, e, mais do que nunca me senti protegida naqueles braços de pedra. Ele beijou minha testa e depois apoiou a cabeça no topo da minha, balançando-me suavemente, quase como o modo como ele costumava me ninar todas as noites antes de dormir.
-Então, ainda quer ir ao teatro? – ele me perguntou, com um tom de voz bem mais doce e tranqüilo.
-Acho que devíamos voltar para o hotel mais cedo – eu respondi, me aconchegando um pouco mais em seu peito.
-Para fazer o óbvio? – ele perguntou sem esconder o divertimento em sua voz.
Embora eu soubesse que Edward já conhecia praticamente todos os detalhes do meu corpo, eu não pude deixar de sentir as bochechas esquentarem.
-Para fazer o óbvio – respondi, deixando que o sorriso de felicidade se formasse livremente em meus lábios.
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