Cousins - Parte 3
- Enquanto eu estiver em Hogwarts, eu vou fingir que sou “uma deles” – a ruiva falou de modo direto daquela vez – Talvez ele acredite e poupe vocês.
Adhara olhou de esguelha para Kyle, percebendo que o primo ficara tão surpreso que até perdera as palavras. Ela meneou a cabeça.
- Eu acho que é uma péssima idéia. – disse a morena, com a mesma objetividade de Meri – Como você mesma disse, as coisas em Hogwarts não serão tão leves neste ano. Você não sabe o que eles podem exigir de você, como prova de sua lealdade. Sobretudo porque você é uma mestiça, é filha de uma traidora do sangue, é uma grifinória, ou seja, é tudo aquilo que os comensais desprezam. Além do mais, você fugiu de Ludovic. Vai ser difícil bancar a convertida depois disso. Você está realmente disposta a fazer isso, Meridiana? Todo mundo sabe que esse caminho tem uma passagem só de ida, a volta depende de um milagre. Você quer se arriscar a vender a sua alma desse jeito? Arriscar a se tornar algo que você odeia?
Ela sabia que poderia estar sendo dura em demasia com a prima, mas aquelas eram perguntas que Meri precisava responder. Agora podia dizer que conhecia Meridiana, e sabia a ruiva não costumava agir por impulso e sem pesar as conseqüências de seus atos. Mas Meri estava diferente desde que voltara do cativeiro... Estava ferida. Ela havia perdido demais nas mãos de Ludovic.
Meridiana poderia afirmar que havia tomado aquela decisão para proteger seus amigos e família, mas Adhara não acreditava que aquilo fosse tudo. Como já ressaltado, ela tinha muito em comum com Meridiana, e, se estivesse na situação da prima, se alguém tivesse assassinado Kamus na sua frente e então a mantido prisioneira por meses, roubando sua liberdade e sua sanidade aos poucos... Ela, Adhara, iria querer vingança. Nada menos do que isso seria aceitável.
- Eu estou disposta a sujar as minhas mãos se necessário, Dhara. – a ruiva olhou com firmeza para a prima, como se estivesse adivinhando os pensamentos da morena.
- Eu não duvido disso. – disse Adhara, mantendo seus olhos presos aos de Meri e uma expressão tranqüila no rosto, apesar do teor da discussão – Mas você vai poder viver consigo mesma depois que tiver feito isso?
- A questão é: eu vou conseguir viver comigo mesma se eu não tentar? – ela respondeu, no mesmo tom.
Kyle levantou-se mais uma vez, sentindo um peso de preocupação afundar-lhe os ombros. Havia muito mais na conversa das primas do que ele fora capaz de apreender. Talvez algo que elas duas não queriam deixar totalmente claro para ele, e, que, ele supunha que não era o momento de insistir em saber.
- Eu sei que eu perdi alguma coisa no meio dessa conversa toda – ele falou, chamando a atenção das duas para si – Mas pelo que eu entendi, nada do que dissermos vai fazer você mudar de idéia, vai? – ele perguntou, olhando diretamente para Meridiana.
Ela meneou a cabeça.
- Eu pesei todos os prós e os contras. Eu vou fazer isso, Kyle.
- É a velha teimosia dos Thorne que você me mencionou quando eu disse que não ia fugir de volta para a Grécia. – ele deu um suspiro, quase resignado. – Se é assim, acho que só me resta saber o que eu posso fazer para poder te ajudar.
- Você já está ajudando – Meridiana respondeu, com uma expressão um pouco menos carregada – E, caso eu precise de mais ajuda, eu prometo que vou te falar.
Kyle assentiu. Realmente não estava satisfeito com aquela situação, contudo, parecia estar além do alcance dele fazer mais do que estar ao lado da prima para o que desse e viesse.
Adhara cruzou seus braços e suspirou. O rapaz estava certo, não havia nada que pudessem fazer por Meri além de ajudá-la em tudo o que pudessem – e esperar pelo melhor.
- Faço as palavras do Kyle as minhas. – disse a moça, chamando assim a atenção de Meri – Ainda não concordo com a sua decisão, ainda acho muito perigoso, mas se é isso o que você quer, então eu preciso aceitar. Ainda tenho alguns contatos com uns aprendizes de comensais, por causa das investigações do ano passado... Posso tentar indicar você como uma aliada para eles. Qualquer coisa para fazer com que eles confiem mais facilmente nas suas intenções.
- Eu realmente fico muito grata por isso – a ruiva respondeu, lançando para a prima um sorriso triste.
Um silêncio estranho e mórbido recaiu sobre os três naquele momento, cada qual refletindo sobre aquilo que os esperava em Hogwarts. Foi Kyle quem quebrou o silêncio.
- É nossa última noite de férias. Devíamos fazer alguma coisa para nos despedirmos da “boa vida” – ele falou em um tom ameno, tentando espantar as pesadas névoas que aquela conversa havia trazido.
- Que tal um filme? Assim Kyle pode se despedir da televisão com toda a honra que ela merece – Meridiana respondeu em um tom divertido. – Vocês dois podem terminar de arrumar a mala do Kyle enquanto eu começo a fazer a pipoca.
Adhara deu de ombros.
- Por mim tudo bem. – ela então se levantou e lançou um olhar para o malão aberto do primo, aos pés da cama, a fim de ver o que ainda faltava – Acho que você realmente precisa de ajuda para fazer as malas, Kyle, não estou vendo nenhuma roupa de baixo aí dentro.
O rosto do garoto foi tomado por uma coloração avermelhada e ele disse algo ininteligível enquanto abria a gaveta onde guardava os pijamas e a roupa íntima.
Adhara lançou um meio sorriso para Meri, que tentava esconder a risada com uma das mãos.
A ruiva meneou a cabeça e deixou seus primos se entendendo com as malas enquanto ia para a cozinha. Sabia que a decisão que havia tomado não permitiria que ela mantivesse em Hogwarts o mesmo nível de união e camaradagem que tinha agora com Dhara e Kyle, por isso se empenharia para que aquela última noite em família fosse a mais perfeita possível.
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