Spiderman
Softly through the shadow of the evening sun
Stealing past the windows of the blissfully dead
Looking for the victim shivering in bed
Há algo estranho no ar. O quarto está mais escuro que o normal. Está frio, sombrio... Estremeço.
A movement in the corner of the room
And there is nothing I can do
When I realise with fright
That the spiderman is having me for dinner tonight
Colada ao colchão, sinto que algo se move pelos cantos. Algo escuro, melífluo, dissimulado... Tudo é difuso, enevoado... E o ar do quarto parece... uma teia.
Olhos negros. Quentes, brilhantes, hipnóticos. Dos pés da cama, eles me encaram; sou presa fácil; ele o sabe.
Creeps closer now
Closer to the foot of the bed
And softer than shadow and quicker than flies
His arms are all around me and his tongue in my eyes
Um braço desliza pela minha cintura e me cinge. Não posso ceder, não devo ceder... mas é mais forte que eu. Tento me focar na marca repugnante que traz aquele braço, a caveira que cospe a serpente... Inútil. O calor de seu abraço me amolece, me faz massa amorfa, facilmente moldável por suas mãos experientes...
Don't struggle like that or I will only love you more
For it's much too late to get away or turn on the light
The spiderman is having you for dinner tonight"
É perigoso, é repugnante o que ele sussurra, mas o roçar de seus lábios quentes em minha orelha é deliciosamente convidativo... Deixo que me puxe para si, permito o deslizar firme e suave de suas mãos, enquanto enterro meus dedos em seus cabelos negros...
By a thousand million shivering furry holes
And I know that in the morning I will wake up
In the shivering cold
E então ele desliza a mão sobre meu peito e nele crava suas unhas, agora garras, à altura de meu coração. A dor me arranca um grito e eu me acho sentada em minha própria cama, as cobertas jogadas ao chão, a camisola empapada de suor...
Um pesadelo. Mais um, em meio a tantos que me atormentaram durante as férias. Sempre com o mesmo protagonista...
Já era dia. Levantei-me, amarrotada, lavei o rosto sem me encarar no espelho sobre a pia. Enfiei de qualquer jeito meu roupão do Ballycastle Bats e me arrastei até o salão. A luz me incomodava, franzi os olhos com uma careta.
Tio Augie estava à mesa, escondido detrás do caderno cultural do Profeta Diário. Ao ouvir meus passos, desceu o jornal, deixou-o de lado e riu de minha cara amassada.
- Por Merlin, filha, insone novamente? E dessa vez parece que foi pior, porque seu cabelo está parecendo o ninho do Edgar...
- Ou o penteado do Edward Mãos de Tesoura, ou do Robert Smith – emendei, passando a mão pelos cabelos – Eu me distraí arrumando meu malão, ajeitando as coisas, lendo, ouvindo música... Quando dei por mim, já eram altas horas e, para completar, ainda me vem um pesadelo...
- Estou preocupado com isso, Raven, esses pesadelos recorrentes – comentou Tio Augie, servindo-me chá – Acho que você deveria procurar Lucy no St. Mungus para ela lhe indicar um médico. Não é bom para o seu organismo passar constantemente por esses sobressaltos.
- Esquente não, tio, acho que tudo isso vai melhorar quando eu voltar a estudar...
- Pode ser, mas prometa que, caso não melhore, irá procurar ajuda médica. Não quero você doente, filha – disse Tio Augie, estendendo-me o pote de biscoitos – Também podemos conversar sobre esses pesadelos; talvez falando sobre eles, você possa se livrar do que anda assombrando essa cabecinha.
Uma onda de rubor acendeu meu rosto ao lembrar-me do sonho; derrubei o guardanapo no chão para disfarçar e, abaixada mesmo, comentei com o ar mais displicente que pude:
- Ah, tio, são lembranças do que aconteceu em Hoggy no final do ano letivo... Vai melhorar, o senhor vai ver. É culpa das férias. Bem que mamãe dizia que cabeça vazia é oficina do diabo!
Levantei a cabeça e dei com os olhos de August Sinclair presos em mim de forma curiosa, posto gentil. Sabia que eu mentia, mas, seguindo seu costume de sempre me esperar dar o primeiro passo, deu por aceita minha explicação. Então ele se ergueu, tomou o último gole de seu chá e disse, ajeitando o paletó:
- Bem, Raven, vou dar meu passeio. Sinto-me inspirado hoje e, se a Mão do Invisível for piedosa comigo, creio que, ao voltar, conseguirei trabalhar mais e melhor naquele bloco de pedra. Ah, dê uma espiada no primeiro caderno do Profeta; há uma notícia que deve interessar você diretamente. Até mais tarde!
- Até mais, titio, e cuidado! – respondi, acenando-lhe com um sorriso e puxando o jornal para perto de mim. Edgar viera bicar o biscoito que eu quebrara para ele, Jack se lambia estirado na poltrona e eu quase caí de costas quando, ao abrir o primeiro caderno do Profeta, meus olhos se encontraram com os orbes negros de Severus Snape.
- Isso é um pesadelo, só um pesadelo – exclamei, cobrindo meu rosto com as mãos trêmulas – Estou sonhando, nada disso está acontecendo e eu vou acordar... agora!
Descobri o rosto, mas o Senhor de Meu Coração ainda me encarava. Esperei, apreensiva, que se erguesse do jornal e terminasse o que começara no início do pesadelo, mas ele não se moveu. Só então tive certeza de que não mais sonhava e pude compreender o que dizia a manchete: SEVERUS SNAPE CONFIRMADO DIRETOR DE HOGWARTS.
Se antes me achava à deriva em um mar de sentimentos contraditórios sobre o Senhor de Meu Coração, agora eu acabara de descer ao maelström. Diretor de Hogwarts! Ocupava agora o lugar daquele que supostamente matara...
Supostamente?
Fora nomeado por quem? Por... ele?
E por quem mais?
Deslizei meus dedos pelo rosto que continuava a me fitar na grande foto do jornal. Eu esperava ardentemente revê-lo em Hoggy, como professor, para observá-lo, decifrá-lo... E agora essa!
Orgulho e desespero.
A voz de tio Angus ecoava em meus ouvidos: Fique longe de Severus Snape, está me ouvindo? Longe! Não lhe dirija a palavra, não lhe dê atenção, sequer olhe em sua direção!
Esperança e dúvida.
Cobri a foto de beijos, depois a apertei contra o peito.
Amor e perdição.
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Lullaby é uma instigante canção da banda inglesa The Cure, cujo vocalista é Robert Smith.
Na mitologia nórdica, maelström significa grande redemoinho, terrível perigo que, nos mares, aguardava os navegantes desavisados...
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