Frida observava a roupinhas pequeninas que organizava em cima da cama. O enxoval do bebê estava praticamente completo, pelo menos as roupas dos primeiros meses. Ela se preocupara especialmente com os agasalhos de frio, afinal, pelas contas dela, a criança nasceria por volta de fevereiro. Não fossem as circunstâncias externas, a polonesa poderia dizer que estava vivendo um dos períodos mais felizes de sua vida... desde sua infância... desde Aldebaran... Talvez até mais feliz do que jamais esteve.
Ela deu um sorriso doce, acariciando com delicadeza o casaquinho que comprara, e que fazia conjunto com a touca e as luvinhas de lã. Seus devaneios sobre os dias vindouros, em que teria seu filho em seus braços foram interrompidos por uma voz baixa, quase cautelosa.
-Tia? - a ruiva a chamou, do batente da porta, ligeiramente hesitante em interromper um momento tão pessoal de Frida.
A loira levantou o rosto, dando um sorriso convidativo para a sobrinha. Estavam apenas as duas no apartamento. Kamus e Adhara haviam saído para fazer as compras do começo do ano letivo no Beco Diagonal e Kyle fora, mais uma vez, visitar a mãe em Notting Hill.
-Pode entrar, niña - a polonesa falou, lançando um sorriso convidativo para a moça.
Meridiana aproximou-se, sentando-se ao lado da tia, na cama de casal. Ela própria ficou a observar as peças de roupa.
-Podia ser um menino, não? - ela disse, em um impulso - Afinal, vocês já têm uma menina...
- Temos duas... - Frida sorriu para a sobrinha, notando as bochechas da moça ficarem levemente rubras, e um meio sorriso surgindo nos lábios da ruivinha.
Contudo, no mesmo instante, o semblante da moça se transfigurou para uma expressão mais séria, o que não passou despercebido à mulher.
-Eu queria conversar com você sobre uma idéia que eu tive, tia... - Meridiana falou, desviando momentaneamente os olhos em direção ao chão, procurando as palavras certas para expressar aquilo que já vinha se formando no fundo de sua mente desde que a volta a Hogwarts se tornou mais iminente.
-O que seria? - Frida perguntou, tentando dar à sobrinha o incentivo para que ela prosseguisse, pois aparentemente o assunto parecia não ser tão fácil para a garota.
Meridiana mordeu os lábios antes de começar a falar.
-Eu refleti muito antes de tomar esta decisão, mas, considerando toda a situação, tanto do ponto de vista pessoal quanto do ponto de vista geral, acredito que seria o melhor a fazer no momento.
A moça deu um suspiro antes de continuar, voltando a encarar a tia.
-É óbvio que Hogwarts vai estar sob o controle dos comensais, do mesmo modo que o Ministério está, e, se as coisas foram complicadas quando eles apenas se esgueiravam nas sombras da escola, imagino como serão agora que são os donos do poder.
Frida assentiu, começando a intuir onde a linha de raciocínio de Meridiana iria chegar.
-Dhara nos ajudou no ano anterior, mas, não creio que a posição que ela se encontra agora seja confortável para mantê-la na mesma tarefa. Não quero pedir isso a ela. E também há Ludovic. Depois de ficar tanto tempo nas mãos dele, percebi que enfrenta-lo diretamente não é a solução mais inteligente. Eu preciso fazer com que ele acredite que, apesar da minha fuga, o escolhi, pois só assim vou poder proteger todos vocês e também conseguir o tempo que preciso para fazer com que ele pague por tudo o que fez.
A polonesa observou Meridiana com atenção. Ela podia sentir a raiva e o ódio entremeando cada uma das palavras da ruiva, e, não poderia culpa-la por aquilo. Havia também uma determinação incisiva impressa nos olhos da garota. A moça tentava enterrar aquilo sob uma aparente racionalidade - e Frida tinha que admitir que do ponto de vista lógico Meridiana não estava completamente errada - contudo, a loira percebia que eram os sentimentos de rancor e amargura represados que moviam a sobrinha.
-Você vai fingir ser uma deles, não é? Pretende bancar a agente dupla como eu fiz anos atrás, embora em circunstâncias muito diferentes. - Frida disse do modo direto e prático que acreditava ser o melhor para lidar com aquela novidade.
Meridiana apenas anuiu, esperando que a tia lhe dissesse o que achava de tudo aquilo. A polonesa compreendeu imediatamente a deixa da sobrinha, contudo, ainda se demorou um pouco em formular sua resposta. Não que Frida não soubesse o que falar, apenas desejava escolher qual, dentro os diversos tópicos que lhe passava na mente, seria o melhor para iniciar a explicitar seus pensamentos.
-Não me agrada você se propor a esse tipo de tarefa. - Frida começou - É perigoso e arriscado, você precisa estar constantemente se policiando, para não se trair com qualquer mínimo deslize. O pior de tudo talvez seja a sensação de solidão...
-Eu não vou estar sozinha... - Meridiana interrompeu a tia - Pelo menos não completamente... Já conversei com Lucien. ele disse algo parecido com o que você está me dizendo, mas que, apesar de tudo, me apoiaria e me ajudaria. Além do mais, penso em contar para as pessoas mais próximas. Dhara, Kyle, Rav, e, talvez, Lorelai...
Frida balançou a cabeça em concordância. Pelo visto, Meri realmente se dedicara a um bom tempo refletindo sobre aquela idéia, se já havia se dado conta da importância de alguns pequenos detalhes, como esse que acabara de mencionar.
-É bom ter pessoas que possam te dar um suporte, assim como é importante restringir quem realmente possui acesso às informações mais sigilosas - a mulher retomou a palavra - Entretanto, você vai precisar se isolar publicamente de seus amigos, incluindo Lucien...Vão existir momentos em que você vai duvidar de si mesma...e você vai deparar com situações nas quais vai se ver obrigada a fazer coisas que são completamente contrárias às suas crenças. Você acha que todo esse sacrifício vale a pena?
-Para proteger vocês, sem dúvida! - Meridiana respondeu com firmeza - E para descobrir um modo de destruir Ludovic também.
Frida não se enganara ao suspeitar que, entremeio aos sentimentos nobres da sobrinha, o fel viscoso e funesto da vingança buscava frestas para escoar. Contudo, a mulher não poderia censurar Meridiana por aquele tipo de sentimento, não quando ela própria passou grande parte da vida em busca de algo muito semelhante. A única coisa que a loira poderia fazer era aconselhar a sobrinha, tendo em vista sua próxima experiência.
-Niña... - Frida pousou uma das mãos sobre a de Meri - Não posso te pedir para que não faça o que pretende. Não é uma idéia ruim, contudo é um fardo pesado. Mas, acredito que seja algo que você precise fazer... A única coisa que eu te rogo é que você não deixe o ódio que sente por Ludovic seja maior que o amor que tem por nós e temos por você. Digo, por vivência pessoal, que não vale a pena...
Meridiana não respondeu a princípio, apenas mordeu os lábios mais uma vez, desviando também o olhar. Ela sabia que havia o risco de ela deixar-se tomar pelo rancor, sempre soube, a ponto de pedir a Lucien que a resgatasse, caso ela enveredasse por um caminho sombrio demais para seu próprio bem. Contudo, aquele pedido foi feito antes de ela ter perdido o pai, a liberdade e o resto de inocência que ela um dia possuiu. A partir de agora, ela faria o que fosse necessário para aniquilar o assassino de seus pais.
A moça de cabelos carmim apertou a mão da tia para tentar atenuar as preocupações da mulher. Era apenas isso que poderia fazer.
-Obrigada tia...pelos conselhos...por ter me ouvido - foi o que Meridiana falou.
A jovem bruxa tentaria se manter fiel a seus princípios morais, contudo, não poderia garantir que, quando finalmente chegasse a hora, ela não cederia ao desejo que o lado sombrio de seu coração parecia clamar
No comments:
Post a Comment