Noivado - Parte 1
Herman escutou leves bicadas na janela do quarto que agora ocupava na casa de seu tio Jack Mercury em Londres. O rapaz levantou-se apressado da cama, sem nem ao menos calçar os chinelos, pisando no chão fresco.
Abriu as persianas notando uma coruja das torres com um envelope pardo cujo emblema do Ministério Bruxo se destacava em alto relevo. O rapaz pegou o envelope e o abriu com o coração aos pulos, já pressentindo que algo bom não viria dali. Um extenso camalhaço de papéis podia ser visto. Impresso nas folhas havia várias perguntas sobre nome, endereço, origens, histórico familiar e outras informações a serem preenchidas por Herman sobre ele próprio.
Aquilo tudo aparentava uma inocência, como se fosse um mero censo da população bruxo, entretanto, lembrando-se das palavras do sogro e analisando os detalhes que eram perguntados, Herman suspeitou que havia motivos escusos naquele "censo".
O rapaz abriu a porta do guarda-roupa pronto para se trocar. Enquanto pegava as peças de vestuário, vislumbrou com o canto dos olhos a caixinha de veludo que repousava solitária na escrivaninha. Comprou aquilo logo depois que voltou de sua visita a York. Ele havia pensando naquela possibilidade desde a conversa com o sogro, na realidade, bem antes disso, embora achasse que fosse demorar um pouco mais para ele tomar aquela atitude.
Era o que ele mais desejava na vida, apesar de ele ter pensado que teria mais tempo para planejar, para fazer de modo tranqüilo e perfeito como Lorelai merecia. Mas a vida parecia exigir exatamente o contrário, e, se as coisas fossem ficar tão ruins quanto ele supunha que fossem ficar, era melhor aproveitar a bonança antes da tempestade para ser um pouco feliz ao lado de sua fadinha.
Iria tomar café, e, em seguida, aparataria, tentando chegar o mais rapidamente em York. Daí para frente, tudo dependeria da vontade de Lorelai.
A campainha soou numa das residências do sossegado bairro no condado de York. A mais velha das filhas do casal apressou-se para atender a porta. Estava a sós com a mãe, que se encontrava na cozinha tomando o seu café da manhã.. O pai saíra sem dizer onde fora e os irmãos menores, juntamente com Samantha, encontravam-se na casa da avó, logo ao lado.
Girou o trinco da porta e ao abri-la, deu de cara com Herman postado defronte a entrada da casa. Hesitou por um momento, dividida entre a surpresa e a alegria de vê-lo ali. Fazia poucos dias que ele havia ido embora, mas parecia que anos tinham se passado desde então. Por fim, abraçou-o ali mesmo, na porta, puxando-o em seguida para dentro da sala de estar.
- Lorelai, quem é? – Liz perguntava da cozinha, sem enxergar quem havia chegado.
- É o Herman, mãe! – ela respondeu e, virando-se para o recém-chegado, disse – Que surpresa, chuchu. Não esperava você por aqui hoje. Aconteceu alguma coisa?
A voz de Lore estava num meio caminho entre a euforia e a apreensão. Aqueles estavam sendo dias difíceis para todos e nem todas as surpresas necessariamente seriam agradáveis.
Herman hesitou por alguns segundos antes de falar qualquer coisa, e, embora desejasse do fundo do coração que seus temores fossem infundados, ele sabia que aquela possibilidade era remota. Era melhor falar logo com Lorelai sobre tudo o que lhe passava na mente.
-Eu não quero te deixar preocupada, Lore, mas preciso conversar com você em particular. Tem como?
A garota assentiu encarando-o de modo sério, e guiando-o pela mão, subiu as escadas que desembocavam no corredor de seu quarto. Após sentar-se na beirada da cama, fez com que o namorado imitasse o gesto. Ela continuou com os olhos fixos no rapaz, muda, esperando sinceramente que ele começasse a dizer logo o que pretendia, ou seu coração saltaria pela boca.
Não fazia a menor idéia do que viria por ali, mas o tom de voz empregado por Herman deixou bem claro para ela que era algo, de fato, muito sério. E aparentemente, não era nenhuma notícia de bons ventos.
-Chegou isso para mim hoje de manhã - ele disse, tirando de dentro da mochila o questionário ministerial entregando-o para a namorada.
Lorelai tomou os pergaminhos entre os dedos e passou os olhos, a princípio sem compreender direito sobre o que aquilo se tratava, mas em seguida sentindo uma estranha sensação de aperto na garganta, levantou os olhos para Herman, visivelmente apreensiva.
- Não faço a menor idéia do que se trate, mas não creio que isso seja somente um formulário de recenseamento. O que é isso?
-Eu desconfio que seja uma forma de rastrear os bruxos nascidos trouxas - ele respondeu, ainda sério - e, considerando quem está no controle do Ministério neste momento, não acredito que existam boas intenções nesse suposto "censo". Aliás, até mesmo antes da morte de Scrimgeour, parecia haver uma certa movimentação nesse sentido. O seu pai mencionou sobre isso para mim da última vez que estive aqui.
Herman pôde notar prontamente o sangue sumindo da face de Lorelai, deixando-a lívida, enquanto um ar de compreensão repentina se estampava no rosto da moça. Ela quedou o olhar novamente sobre os pergaminhos em suas mãos e murmurou mais para si própria que para o rapaz diante de si.
- Eu imaginava que algo assim fosse ocorrer... O que vai acontecer se isso for verdade? – e firmando um pouco mais a voz, voltando a assumir o ar centrado que adquirira desde o incidente em Hogwarts, acrescentou – Tenho receio do que venha a acontecer com os bruxos nascidos trouxa. O Profeta Diário não mencionou, mas nós lemos no Pasquim que a professora de Estudo dos Trouxas está desaparecida... O que vai acontecer de agora em diante? E o meu pai? E você, Herman? O que a gente vai fazer se isso for verdade?
O rapaz deixou um suspiro cansado sair de seus lábios, ele desejava ter respostas que tranqüilizassem a namorada, mas não conseguia dizer nada que pudesse consola-la ou que apaziguasse seus próprios receios.
-Eu não sei, Lore...Não sei mesmo. Mas tudo isso me fez tomar uma decisão séria. Eu sei que quando conversamos sobre isso, nós dois concordamos que era melhor esperarmos nossas formaturas, sua graduação como curandeira, um emprego estável para mim, mas, as coisas mudaram muito. São tempos incertos e perigosos, o que me fez perceber que não podemos mais esperar. A única certeza que eu tenho é que eu te amo, que eu quero ficar com você pelo resto da minha vida... mesmo as coisas se tornando tão difíceis de agora em diante...
Herman abaixou-se, apanhando, desta vez, de dentro da mochila, uma caixinha de veludo negro. Ao abri-la, podia-se ver uma aliança dourada. Ele respirou fundo antes de continuar, sentia-se paradoxalmente nervoso e seguro ao mesmo tempo.
-Talvez eu não tenha o direito de te pedir isso, Lore, especialmente considerando a situação...considerando que o fato de eu ser filho de trouxas possa trazer complicações futuras, mas, se mesmo assim você aceitar, eu vou ser o cara mais feliz do mundo. Quer se casar comigo, Lorelai Scarlett McGuire?
A moça abriu a boca para dizer alguma coisa, mas não encontrando o que dizer, tornou a fechá-la. Pousou os olhos no pequeno anel e em seguida, desviou-os para encarar os do rapaz, que pareciam esperar aflitos, por uma resposta.
Estava surpresa como talvez nunca estivera na vida, mas pôde sentir um calor morno e aconchegante dentro de si enquanto seu coração batia descompassado. De assalto, passou os braços sobre os ombros do mensageiro, abraçando-o enquanto encostava sua cabeça na dele.
- Quando você quiser, meu amor...
A felicidade que Herman sentia era tão grande que ele não sabia como transpô-las em palavras, contentou-se em sorrir. Afastando Lorelai um pouco de si, tomou a mão dela, colocando a aliança no anelar direito, que agora fazia companhia ao pequeno anel de compromisso que ele dera para a fadinha no dia do aniversário dela.
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