Sunday, October 12, 2008

Herman apoiou a mão na cabeça, reclinando-se sobre o balcão enquanto observava a loja vazia. Àquela hora do dia, o movimento de clientes começava a diminuir, e, o rapaz se via praticamente sozinho, a não ser com os próprios pensamentos.

Jack viajara para Manchester decidido a convencer o irmão mais velho a vir ao casamento de Herman, uma vez que David se recusara quando o rapaz enviara os convites para a casa dos pais e dos avós. Lucy, por sua vez, saíra para comprar alguns ingredientes para o jantar em uma mercearia próxima. Ela prometera fazer um prato tipicamente grego para as visitas que receberiam naquela noite.

O sininho da entrada da loja tocou, mas o rapaz não fez menção de desviar o olhar para ver se era algum cliente ou mesmo a hospede da casa tão concentrado ele estava. Foi só quando sentiu os lábios de Lorelai colados ao seus que ele, piscando os olhos, percebeu que sua fadinha chegara.

-Sonhando acordado, chuchu? - ela perguntou, fitando-o com um sorriso maroto e divertido.

-Um pouco - ele admitiu, coçando a cabeça - Como foram as compras?

-Excelentes! - Lore respondeu, evidentemente entusiasmada. - Eu preciso realmente te mostrar tudo o que compramos, Hermie. Os panos de prato, as toalhas, os lençóis, os jogos americanos, tudo tão lindo!

O rapaz apenas sorriu enternecido com a alegria palpável que emanava da noiva. Por causa do trabalho - ou trabalhos, dependendo do ponto de vista - que fazia com o tio, ele não pôde acompanha-la como a fadinha desejara, contudo, para ele, qualquer coisa que Lorelai comprasse ele iria gostar. Para Herman, apenas bastava que Lore estivesse feliz.

-Onde estão dona Liz e a Sam? - o rapaz olhou por cima do ombro da noiva.

-Estão lá fora, combinando os detalhes do chá de panela que querem preparar para mim. Não sei se fico com medo do que as duas podem aprontar, mas, pelo menos, uma tem o efeito de anular os excessos da outra. - a moça riu.

-Eu não sei se consigo escapar do mesmo jeito que você - Herman retrucou - Sat vem cá e já me disse que não aceita recusas para a "despedida de solteiro".

Lorelai cruzou os braços, mais séria.

-Não quero que ninguém se sente no colo de um certo pombo ou tome qualquer outras intimidades com ele. O rolo de macarrão está no topo da lista do chá de panela, sabia?

-Esta seria uma boa justificativa para eu fugir das farras que meu padrinho de casamento quer me impor. Embora eu ache que o rolo deveria ser apresentando a ele e não a mim - ele riu, fazendo com que Lore desamarrasse imediatamente o bico que surgira em seus lábios.

Percebendo que a fadinha readquirira o bom humor, ele contornou o balcão e a tomou pela cintura.

-Que tal se aproveitarmos que Dona Liz e a Sam estão ocupadas e utilizar melhor esse tempo a sós - ele perguntou, olhando para ela com um sorriso maroto.

-Acho uma idéia excelente - ela retrucou levantando o rosto.

Herman deixou que seus lábios tomassem os de Lorelai de modo delicado, mas, ao sentir o gosto da boca dela, somado com as saudades dos dias que estiveram separados, não apenas quando ela estava em Manchester, mas mesmo em Londres, devido às correrias dos preparativos para o casamento, ele sentiu uma ânsia de sentir ela bem mais próxima de si.

-Se as coisas continuarem assim acho que vou ter que aprender a fazer respiração cutânea - a moça, ligeiramente ofegante, brincou ao seu soltar do noivo.

-Isso é para você saber que eu só tenho e sempre vou ter olhos para a minha pombinha. O rolo de macarrão vai criar teias de aranhas, não tenha dúvidas. - Herman falou, enquanto retirava uma mecha de cabelos do rosto de Lorelai, com uma das mãos, enquanto a outra se mantinha firme na cintura dela.

-Eu também te amo, chuchu - ela respondeu, os olhos caleidoscópicos reluzindo.

- Que safadeza é essa aí com a minha irmã, hein? - a voz de Samantha Blair se fez ouvir, chamando a atenção do casal.

A morena de olhos cinzas estava com as mãos na cintura, batendo o pé e fingindo zanga, embora o sorriso malicioso indicasse exatamente o contrário do que suas palavras. Ao lado dela, Elizabeth McGuire apenas observava o casal, sorrindo.

Completamente vermelhos, os pombos, quase que por reflexo, acabaram se soltando, sem saber onde colocarem as mãos.

-Olá, Dona Liz...- Herman balbuciou, tentando cumprimentar a sogra.

O sorriso da mulher se ampliou. Desde que o rapaz assumira o noivado com Lorelai, ele se tornara menos formal no modo de trata-la. Antes era Sra. McGuire, agora era Dona Liz. Um avanço enorme na concepção da mulher. Aquilo a deixava imensamente feliz, pois mostrava a ela que Herman já se sentia parte da família.

-Não precisa ficar acanhado, meu filho - ela disse - basta me prometer que vocês dois vão continuar assim depois do casamento e nos anos que vierem. Eu prefiro assim.

Em resposta ao comentário da mulher, tanto Herman como Lorelai ficaram ainda mais vermelhos, como se fosse possível. Samantha percebeu o encabulamento do casal, divertida.

-Assim os dois vão ficar ainda mais sem graça, tia.

Liz deu apenas um sorriso pequeno ao comentário de Sam, concordando silenciosamente com a moça.

-Lore já te contou a grande novidade, Herman? - a matriarca dos Mercury falou, tentando resgatar o casal da repentina mudez.

-Sobre o enxoval? - ele perguntou, curioso.

-Não, chuchu, eu esqueci de te contar o principal - Lorelai confessou, abaixando os olhos, o que deixou Herman ligeiramente apreensivo.

-Você se lembra da minha madrinha, não? - ela perguntou, voltando a olhar para o noivo diretamente nos olhos.

Herman assentiu, deixando que Lore continuasse a contar qualquer que fosse a grande novidade.

-A família toda dela se mudou para a Itália, não sei se eu te falei....

O rapaz estreitou os olhos pensando consigo mesmo que aquela mudança viera em um momento primordial. Considerando a forma como o marido da tia de Lore abordara a moça nas férias de Páscoa para descobrir informações sobre o Olho do Grifo, além de outras intenções também não tão inocentes, Herman preferia vê-lo a quilômetros de distância, ou não se refrearia em enfiar a mão na cara daquele homem. Levando-se em conta a situação complicada que se instaurou na família de Lorelai depois da traição de Melinda, era melhor que nada mais perturbasse a parca felicidade que ainda restava a eles.

-Minha tia mandou, por coruja, nosso presente de casamento. Era para ser meu presente de formatura, para quando eu viesse estudar Medicina Bruxa. Ela nos deu um apartamento. Comprou com o dinheiro dela - Lorelai enfatizou a última frase, sabendo que Herman jamais aceitaria qualquer coisas que viesse do tio dela.

O rapaz percebeu a intenção da noiva, e deixou que seu semblante se desanuviasse, fazendo com que Lorelai se sentisse mais tranqüila.

-Parece que os pombos encontraram seu ninho - Samantha, que também estava a par do que acontecera à amiga, brincou ao notar que o casal havia relaxado.

-Acho melhor subirmos. Sei que Lore está doida para me mostrar o que compraram - o rapaz falou, indicando o caminho da escada. - Aliás, onde estão as sacolas?

-Dentro da bolsa da minha mãe - a moça respondeu, fazendo com que Herman finalmente notasse a enorme bolsa de couro que a sogra trazia a tiracolo, tentando não imaginar o que poderia caber realmente dentro de um artefato mágico daquele porte, mesmo se estivessem reduzidas.

-Uma pena que não vai dar tempo de eu bordar os panos de prato e as toalhas de mesa - a mulher balançou a cabeça - Mas já separei um conjunto de toalhas para fazer o anagrama de vocês dois.

-Não se preocupe, Dona Liz - Herman falou - Daqui há alguns anos, eu e Lore vamos dar outras oportunidades para a senhora bordar e tricotar.

-Tenho certeza que sim - a mulher sorriu, já sonhando com os futuros netos.

Enquanto Samantha e Liz seguiam na frente, escada acima, Lorelai parou repentinamente, ainda no primeiro degrau, virando-se para Herman, que estava com a mão enlaçada à dela.

-O que foi? - ele perguntou.

-Nada. Eu só queria te dizer que eu estou feliz, muito feliz. - ela sorriu.

Herman aproximou-se um pouco mais, levantando o rosto, e pousando a mão no rosto de Lore.

-Eu também estou, MJ, como nunca estive antes.

A moça abaixou o rosto deixando que seus cachos caíssem como uma espessa cortina a proteger o novo encontro dos lábios dos dois de qualquer ameaça externa. Naquele instante havia apenas ele e ela, nada mais existia. A presença um do outro era apenas o que bastava para se sentirem plenamente completos.

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