Wednesday, September 17, 2008

Bridge - Parte V


Um cheiro gostoso de carne assada preenchia o apartamento de Frida naquela noite, acompanhado do som das vozes de tia e sobrinha discutindo amenidades ao pé do fogão.

Kyle havia chegado um pouco mais cedo e se voluntariado para ajudar na cozinha. Adhara somente se escapara de auxiliar no preparo do jantar porque a polonesa havia lhe incumbido de outra missão. Com um sorriso ligeiramente cúmplice – que não passara despercebida a Kamus Ivory – Frida sugerira à garota que mostrasse ao Auror o enxoval que havia sido preparado para o bebê.

Aquela era uma situação que Adhara jamais imaginara um dia integrar... Apesar de estar se adaptando relativamente rápido à nova situação, havia coisas que ainda lhe deixavam desconcertada ou sem saber o que pensar.

Seu pai e um bebê eram uma dessas coisas.

Apesar de saber que Kamus obrigatoriamente deveria ter alguma experiência na área, afinal não era um pai de primeira viagem, ainda assim era tão... Esquisito imaginá-lo entre roupinhas, brinquedos, bichos de pelúcia e outras coisas fofinhas de bebê. Igual fora estranho vê-lo no parque da pracinha com Meridiana pouco antes.

Como todos os quartos do apartamento estavam atualmente ocupados – um para Frida, um para Adhara e Meridiana e outro para Kyle – não havia nenhum espaço reservado exclusivamente para o bebê. O berço ainda não fora comprado, mas as roupinhas e brinquedos já adquiridos estavam guardados dentro de um baú no quarto de Frida.

E era para lá que Adhara se dirigira com o pai, tentando fazer o menos de bagunça possível enquanto espalhava as peças do enxoval sobre a cama da polonesa.

- Nós compramos tudo verde, já que ainda não sabemos se é menina ou menino... Frida disse que gostava de verde. E eu gosto também... – ela disse, torcendo para que aquela justificativa não parecesse boba demais.

A verdade é que estava apreensiva... Até mesmo nervosa, com a opinião do pai. Cada sapatinho, cada babador, cada brinquedo, cada detalhe, enfim, tudo havia sido escolhido por ela e por Frida... E ela queria que Kamus aprovasse – e até mesmo gostasse – do que havia sido comprado.

O Auror apanhou um macacão verde-água que pareceu ainda mais minúsculo entre as mãos dele. Os olhos anis de Kamus pareceram perdidos por alguns instantes enquanto fitavam a pequena peça de roupa.

Adhara cerrou os punhos, observando o semblante distraído de seu pai... Gostaria de saber o que estaria se passando pela mente dele naquele instante.

Será que Kamus estava feliz por ser pai novamente? Será que estava apreensivo? Ansioso? Será que tinha medo?

- Verde é uma boa cor. – mas aquilo foi tudo o que ele disse, a guisa de resposta para as indagações silenciosas de Adhara.

A garota sorriu involuntariamente. Seria inapropriado fazer aquele tipo de questionamento ao pai... Eram questões pessoais demais, íntimas demais, que nenhuma pessoa deveria responder a não ser que quisesse. Deveria se sentir satisfeita o suficiente por ter obtido a aprovação dele.

- Obrigada. – ela agradeceu.

Kamus levantou o olhar para a filha e assentiu brevemente, como se para dizer que aquilo não fora nada.

Naquele instante a cabeça de Frida emergiu por uma fresta na porta. A loira se manteve em silêncio por breves segundos, nos quais ela não pode deixar de perceber que Kamus tinha entre as mãos o macacãozinho do bebê deles. Era estranho, e, ao mesmo tempo, tão natural vê-lo segurando aquela peça de roupa. Ela sabia que ele seria um bom pai, do modo dele, é claro, mas um bom pai. Na realidade, vendo ele e Adhara ali, juntos, ela podia ver que Kamus já era um bom pai. Talvez, ela devesse dizer isso a ele algum dia.

- O jantar já está na mesa. Meri e Kyle estão nos esperando – ela disse.

Adhara assentiu, levantando da cama e seguindo até a saída, lançando um pequeno e discreto sorriso a Frida quando passou por esta.

Kamus demorou-se um pouco mais, pousando delicadamente a roupinha sobre a cama de forma a mão amarrotá-la. Ele perdeu mais um segundo apenas observando os pertences do bebê antes de voltar-se para a noiva.

O rosto de Kamus não demonstrava mais do que a impassividade costumeira, mas, pelo cuidado que ele adotara ao manusear a roupinha do bebê, Frida sabia que ver o enxoval da criança havia tocado o Auror de alguma forma.

Ivory parou em frente a ela e, em silêncio, envolveu uma das mãos dela entre as suas, a outra indo até o cabelo loiro, afagando-o gentilmente antes que Kamus aproximasse seus rostos e depositasse um beijo suave sobre a testa dela.

Frida fechou os olhos, sentido o calor dos lábios do noivo em sua testa, sentindo o conforto que a presença dele trazia. Sentira falta dele nos dias em que Kamus se ausentara. Mais do que ela imaginou ser possível. Depois de tantos anos de solidão era boa a sensação de saber que havia alguém para apoiá-la e alguém a quem ela podia apoiar. Era bom ter novamente uma pessoa a quem amar.

- Também senti saudades – ela murmurou, antes de afastar-se um pouco dele. – E, antes que eu me esqueça, obrigada pelo que fez à Meri mais cedo.

Ele permitiu que a sombra de um sorriso perpassasse o seu rosto.

- Obrigada pelo que você tem feito à Adhara nas últimas semanas.

Frida encarou Kamus com ternura, sabia o verdadeiro peso do significado daquelas palavras para o Auror.

- Eu realmente gosto dela – a polonesa sorriu com suavidade – Estou feliz pela oportunidade de poder conhecê-la um pouco mais. Ela é uma ótima menina.

Kamus anuiu. Considerando tudo o que Adhara havia passado – tudo o que ele a havia feito passar – ela realmente havia se saído uma boa menina. Bem melhor do que ele próprio era quando tinha a idade dela... Ao menos Adhara nunca havia ficado a um passo de ser expulsa da escola.

- Vamos, antes que a comida esfrie. – Frida o chamou, de forma afetuosa, retirando-o de suas conjecturas ao mesmo tempo em que o puxava levemente pela mão para que a seguisse.

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