Bridge - Parte III
Eram 5h26min da tarde quando Kamus finalmente conseguiu despachar o último relatório para a mesa de seu superior e deixar o cubículo que tinha seu nome no quartel-general dos Aurores; 5h42min quando terminou de passar pelo elevador e os saguões apinhados de gente do ministério; 5h46min quando conseguiu encontrar um lugar para aparatar e 6h00min em ponto quando parou em frente à porta do n°. 420 no edifício trouxa onde Frida morava.
Ele sorriu para si mesmo – tanto quanto seria possível para alguém como Kamus Ivory – enquanto retirava a chave dourada do bolso e a girava na fechadura. Fosse qualquer outra pessoa que estivesse parada no mesmo ponto em que ele se encontrava, veria apenas uma parede em branco no intervalo entre os apartamentos 419 e 421.
A porta se abriu com um estalido baixo, as dobradiças não rangeram, e os passos de Kamus soaram leves e incógnitos contra o carpete, assim a única ocupante do apartamento no momento não teve pista nenhuma de que um visitante havia chegado.
A aparente distração da garota ruiva deu ao Auror uma oportunidade que ele, talvez até inconscientemente, estava esperando já há um certo tempo. Ele teve e chance de analisar Meridiana Johnson.
Ela estava sentada no sofá, com os ombros encolhidos, os pés apoiados sobre o estofado e os braços circundando os joelhos. Uma postura fetal, típica de quem parecia estar esperando algum ataque externo a qualquer instante. Mas os olhos verdes, ao invés de estarem alertas como deveriam, se encontravam focados no aparelho de televisão, sem realmente prestarem atenção ao que estava sendo transmitido. Aquilo provava que os pensamentos de Meridiana estavam viajando em algum outro lugar – e não era necessário pensar muito para descobrir que lugar seria aquele.
Decidindo que talvez já houvesse invadido a privacidade da menina por tempo demais, Kamus pigarreou levemente, fazendo sua presença conhecida.
Meri piscou, desviando os olhos da TV e encarando-o de forma um tanto apática.
- Boa noite, senhor Ivory. – disse ela, em um tom baixo e com uma cortesia um pouco forçada.
Kamus não julgava que realmente conhecesse Meridiana, não havia convivido com ela o suficiente, mas, pelo pouco que sabia com certeza, sabia também que havia algo de errado naquela cena.
O normal teria sido que ela se levantasse de pronto, encabulada por ter sido surpreendida em uma ocasião tão inusitada, e o tratasse com a mesma formalidade que provavelmente dirigiria ao Ministro da Magia. Ao contrário disso, a ruivinha não mudara de posição no sofá.
- Boa noite. – Kamus respondeu – Está sozinha aqui? – ele perguntou, embora já soubesse que a resposta seria positiva.
A moça assentiu.
- Kyle saiu mais cedo. Adhara e tia Frida voltaram do shopping, mas saíram novamente ainda há pouco. Foram ao mercado pegar algumas coisas que estavam faltando para o jantar.
Meridiana fez uma pequena pausa antes de prosseguir, embora Kamus não houvesse questionado, ela sentiu uma necessidade urgente em justificar sua permanência no apartamento.
- Eu preferi ficar em casa... Não... Eu... Ainda não me sinto muito confortável andando lá fora.
Ela se silenciou novamente, abaixando o rosto, sem saber como prosseguir a conversa. Nunca estivera a sós com o padrinho, pelo menos não desde a noite dos N.O.M.'s, quando conversaram pela primeira e única vez sobre Ludovic. Contudo, por mais clichê que pudesse soar, aquilo lhe parecia ter ocorrido com outra pessoa que não ela.
Entretanto, Kamus entendeu o que a garota queria dizer sem que houvesse necessidade dela dar voz ao resto de seus pensamentos.
- Seu tio não sabe sobre este lugar, Meridiana. Ele não está de tocaia lá fora, escondido atrás de uma árvore, apenas esperando você sair para levá-la de volta ao casarão Black-Thorne. Na verdade, de acordo com minhas fontes, Ludovic se encontra fora do país no momento.
Meridiana sentiu, quase que involuntariamente, seu corpo relaxar ante aquela notícia. Os ombros se tornaram menos tensos, e, ela conseguiu sentar-se no sofá de forma ereta. O olhar dela acabou por pousar na porta que estava atrás do Auror.
Ludovic não estava lá fora... Ele não estava sequer no país... Talvez ela pudesse se dar o direito de sair um pouco, de caminhar nas ruas de modo despreocupado sem ter medo de sua própria sombra.
Contudo, a verdade era que, depois de tanto tempo trancafiada, ela não sabia se conseguiria caminhar sozinha pelas ruas da cidade. Desde que conseguira escapar, a não ser pela longa e angustiante caminhada em direção a vila de Wallsburg, ela não estivera um minuto sozinha quando estava fora de casa ou mesmo fora do hospital.
Meri mordeu os lábios de leve, sentindo raiva de si mesma por se sentir tão frágil, tão vulnerável. Era como se, apesar de estar fora das paredes de pedra do palacete de sua família, Ludovic ainda mantivesse a alma da garota aprisionada.
Kamus percebeu nitidamente a direção do olhar de Meridiana e, pela expressão no rosto da ruivinha, era evidente que ela sentia vontade de sair... Porém não ousava tomar um passo em direção à porta.
Talvez ela ainda precisasse de ajuda para se decidir.
- Nós deveríamos ir. Lá fora. – o Auror completou, após o olhar confuso que a garota lhe dirigiu – Andar um pouco, tomar um sorvete... Crianças gostam de sorvete, não gostam?
Por breves segundos, os olhos de Meridiana se arregalaram em visível surpresa. Tal convite era algo que ela jamais esperaria de alguém como Kamus Ivory. Ela sempre o vira como uma pessoa rígida, distante, e, até mesmo fria. Era alguém que ela admirava e ao mesmo tempo temia. Sempre se sentira inibida e avaliada quando estava na presença dele.
Entretanto, ali estava ele, em um gesto de gentileza, relativamente desajeitada, a convidá-la para sair. A moça sorriu, finalmente, compreendendo as razões que levaram sua tia a se apaixonar pelo Auror.
- Eu gosto de sorvete. – ela respondeu, por fim.
Ivory não disse mais nada, encaminhando-se para a porta e segurando-a aberta para que a garota o acompanhasse. Meri hesitou por apenas mais um instante antes de deixar o sofá e apanhar seu casaco junto ao cabideiro próximo à porta.
Assim, a ruivinha deixou o apartamento caminhando lado a lado com Kamus Ivory.
Notas:Primeiro,obrigada pelos parabéns.Segundo, para quem vai ganhar os brindes, só falta o Lugui, eu acho... E a Amy confirmar o cep para mim. Em todo o caso, acho que já sei o que dar para vocês no lugar dos mini-livros. Vamos ver se vai dar certo.Terceiro, amanhã tem a pré-estréia do nosso novo projeto. (ps para a Amy, a data de estréia já é uma dica) ^^
No comments:
Post a Comment