Monday, September 08, 2008

Bridge - Parte I


Frida reclinou-se diante da vitrine da loja, observando com cuidadosa atenção um móbile de bichinhos, indecisa sobre comprá-lo ou não. Era estranho o modo como às vezes se sentia insegura em relação aos preparativos para a vinda do bebê, mais estranha ainda era a idéia de que seria mãe muito em breve.

Ter uma família para si era um sonho que ela abandonara muitos anos atrás, depois que Aldebaran morrera. Mesmo no começo de sua relação com Kamus, apesar de perceber que o sentimento de "companheiros de armas" se transformara em uma atração mútua, que esta evoluíra para paixão e em seguida se transformara em amor, ela ainda sentia que a relação dos dois e aquilo que Kamus considerava "família", ou seja, a filha dele, eram duas coisas que não se comungavam em um conceito único.

Frida não sabia exatamente quando as coisas começaram a mudar tanto para ela quanto para Kamus. Qual foi o momento preciso em que ambos perceberam que era tolice compartimentizar suas vidas. Talvez tenha sido com a notícia da gravidez... Ou antes disso, durante o seqüestro de Adhara, ou quem sabe, um pouco antes disso...

Fosse qual fosse a resposta para aquela questão, a verdade é que, aos poucos, eles estavam realmente se tornando uma família. Ela, Kamus, o bebê que estava por vir, até mesmo Meridiana; e, é claro, a morena de olhos azuis meia-noite, tão parecida e ao mesmo tempo tão diferente do pai. A menina a quem Frida desejava conhecer um pouco mais, e, que estava parada ao seu lado defronte a vitrine: Adhara Ivory.

- O que acha desse móbile? – a polonesa virou-se, olhando para a futura enteada.

Adhara mordeu os lábios. Ela não era exatamente boa com “coisas de criança”... Na verdade, não entendia nada sobre o assunto. Mas quando Frida lhe dissera que iria comprar o enxoval para o bebê e a convidara para ir junto, Adhara não pôde evitar se sentir curiosa. Esse sentimento havia se tornado algo comum toda vez em que pensava sobre o irmãozinho (ou irmãzinha – eles ainda não sabiam o sexo do bebê) que estava para chegar.

- Eu não sei... É bonitinho.

Frida cruzou os braços, por alguns segundos. Não passou despercebido a ela a indecisão de Adhara. Já fazia alguns dias que a filha de Kamus estava morando com ela. No começo, a relação das duas era pontuada por silêncios não necessariamente constrangedores, mas sim pausas para que ambas tateassem em suas mentes o melhor modo de agir uma com a outra. Elas estavam se descobrindo. E, se para Frida, tudo era novidade, ela podia imaginar que para Adhara as coisas não deveriam ser muito diferentes, talvez até mesmo um pouco complexas.

Exatamente por essa razão, Frida convidara a moça a acompanhá-la na compra do enxoval. Ela sentia que todas aquelas descobertas e novidades seriam melhor apreendidas se passassem por elas juntas.

- Vamos entrar – propôs a loira, com um sorriso sereno e convidativo – Talvez possa ter outros modelos lá dentro. Melhor escolhermos um que nos agrade e ao mesmo tempo não "assuste" seu pai.

Adhara encarou a polonesa como se aquela fosse a primeira vez em que era apresentada a Frida. Aquilo tudo era tão estranho... Havia conhecido a loira como a tia de Meridiana, a viúva de Aldebaran, a ex-espiã do Lord das Trevas... Tantas alcunhas e tantas referências. Estava acostumada a pensar em Frida como a mulher fina e educada que lhe fora apresentada na casa dos Johnson... Assim era quase surreal vê-la agora como alguém que estaria presente de forma tão íntima em sua vida, tendo liberdade o suficiente para fazer aquele tipo de comentário tão cotidiano.

Frida seria a mulher de Kamus Ivory. E provavelmente ela era a pessoa que melhor conhecia o Auror em todo mundo... Estavam ambas conectadas pela mesma pessoa, à qual ambas enxergavam de formas completamente distintas, sob pontos de vista opostos. Era definitivamente estranho... Mas não exatamente desconfortável.

Ela assentiu em silêncio e Frida deu-lhe mais um sorriso antes de abrir a porta da loja, em um mudo convite para que Adhara entrasse.

O interior do local parecia estar repleto de brinquedos, desde o teto até o rodapé. Adhara julgava nunca antes ter visto tantos brinquedos juntos. Aquilo a levava a outra questão: por que bebês precisavam de tantos brinquedos?

- Frida... Por que o bebê precisa de um móbile? – ela perguntou.

- Bem, de um ponto de vista estritamente científico, – a mulher começou – é um estímulo visual para a criança que ajuda no desenvolvimento dela. Quanto mais estimulada, melhor ela cresce... Eu, contudo, gosto de pensar que é para que ela não se sinta sozinha, para lembrá-la que existem pessoas que querem protegê-la.

Adhara fechou os olhos, permitindo que um sorriso se esboçasse. Aquela era uma coisa bonita para se dizer... Se Frida conseguia pensar naquele tipo de explicação, então ela certamente já estava preparada para ser uma boa mãe.

A morena reabriu seus olhos azuis, focalizando-os na madrasta e permitindo que esta visse o seu sorriso.

- Então deveria ser algo que lembrasse todos nós. – ela respondeu, esperando que a polonesa compreendesse a quem se referia.

Frida assentiu, compreendendo perfeitamente a quem Adhara se referia, embora, não conseguisse imaginar que tipo de móbile poderia lembrar todos eles ao mesmo tempo.

Ela voltou sua atenção para as peças que estavam expostas na loja, esperando que seu olhar a guiasse para algo que correspondesse ao desejo de Adhara. Então, ela notou algo que parecia ter feito sob medida para sua criança.

- O que acha desse aqui? – ela perguntou, apontando-o para a enteada.

O móbile era composto por quatro peças: uma lua e três estrelas de diferentes cores e tamanhos, a maior delas era azul, e as outras duas, menores, eram uma branca e a outra vermelha.

A garota assentiu.

- É perfeito.

A polonesa anuiu com um sorriso, pensando consigo mesma que poderia realmente se acostumar com a idéia de ser mãe, e que, no fim das contas, não estava sozinha naquele caminhar. Era verdade que aquele bebê não fora planejado, contudo, o brilho que via agora nos olhos de Adhara, o sorriso que Meridiana às vezes lhe lançava, e, até mesmo, o modo como Kamus pousava, talvez de modo inconsciente, a mão no ventre dela quando estavam juntos em sua cama, cada um desses pequenos gestos davam à ela a certeza que, a cada dia que se passava, aquela criança era mais e mais desejada.

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